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Opinião: Microsoft tem poder para globalizar os esports da Activision-Blizzard. Mas vai fazer?

A Overwatch League é um dos grandes assets que a Microsoft tem em suas mãos com a compra da Activision-Blizzard The Associated Press

Apesar de ter feito a maior aquisição do mundo dos games e ter trazido junto algumas das maiores ligas, a Microsoft precisa mudar sua mentalidade ao encarar o mundo dos esports para bater de frente com a forte concorrência


O dia 18 de janeiro de 2022 entrou para a história da indústria do entretenimento quando a Microsoft anunciou o processo de aquisição da Activision-Blizzard. O negócio realizado que chega perto dos US$ 70 bilhões chacoalhou o mercado de games e gerou um burburinho sobre o que a Sony e a Nintendo vão fazer em resposta - se é que vai ter alguma.

Com o negócio, games como Call of Duty, Overwatch, Starcraft, World of Warcraft, Tony Hawk Pro Skater, Crash Bandicoot e tantos outros passam a fazer parte do portfólio do Xbox e totalizam 32 estúdios sob seu guarda-chuva. Um salto gigantesco se você parar para pensar que há 10 anos esse número era de apenas 5 estúdios.

Mas a aquisição da Activision trouxe também uma série de novos negócios, como a gigante dos celulares King e toda a operação de esports que a Blizzard desenvolveu na última década para bater de frente com gigantes como a Riot Games, Ubisoft e Valve e essa é a parte que para você, fã do esport, possivelmente deve estar de olho e receio em lhe dizer que, se não for mudada a mentalidade de quem comanda esse setor, nada vai mudar para o cenário brasileiro.

Vale lembrar que em fevereiro de 2021 a Blizzard encerrou as atividades da Overwatch Contenders, o torneio que servia como “Série B” da Overwatch League. A versão latinoamericana durou apenas três anos, teve a bicampeã Lowkey e revelou Alemão, que chegou atuar na liga principal.

A Overwatch Contenders chegou a ser transmitida aqui nos canais ESPN e revelou os narradores Ana Xisdê, Petar Neto, Thauê Neves e tantos outros. Em outras categorias esportivas, a Blizzard se mantinha à distância, mas ainda tinha apoio de sua comunidade, como nos torneios de Hearthstone e StarCraft II, este último responsável por revelar Gruntar para a comunidade dos esports ainda em 2012.

A comunidade apaixonada sempre esteve presente, porém, apesar de ser um passo gigantesco por parte da Blizzard, ainda era um movimento tímido nos esports quando se comparava com a Riot, por exemplo.

Nos bastidores ouvia-se que o movimento da Blizzard era tímido pelo fato da empresa não conseguir enxergar na América Latina um cenário tão prolífico quanto nos EUA, Europa, China e Coreia do Sul.

O mesmo aconteceu por parte da Activision, até mesmo por ser a empresa que dava as cartas na hora de decidir onde investir suas estratégias de marketing. E como todos sabemos, o esport é uma forma de manter o público ligado ao jogo e ampliando sua base de consumidores fiéis.

Por aqui, foi apenas no último ano que ouvimos falar de investimentos da Call of Duty League no cenário latino-americano - que conta com o Brasil incluso - com a chegada do COD Challengers, que, assim como o Contenders, serve como uma espécie de “série B” para a liga principal. O torneio faz um sucesso considerável nos EUA, mas não vai além disso.

E a Microsoft?

A Microsoft, por outro lado, investe muito no cenário brasileiro quando se trata de games e tem uma equipe dedicada para fazer com que sua fatia cresça. Estabelecida ainda em 2006, com o lançamento do Xbox 360, o Brasil se tornou uma peça importante para a companhia de Bill Gates.

Por aqui vemos grandes investimentos e somos parte importante na estratégia de novos produtos, com games localizados, estandes em eventos como Brasil Game Show e CCXP, peças publicitárias e mais outras. Entretanto, a empresa de Bill Gates nunca pisou com os dois pés no quesito de esports.

E sejamos justos: nem mesmo nos EUA a empresa olhou para esse lado com carinho. Todos os campeonatos de Halo eram tocados por empresas parceiras, como ESL e MLG.

Existiram sim algumas tentativas em fazer com que Halo e Gears of War fossem jogos competitivos. Inclusive acompanhamos de perto o torneio Gears Pro Circuit Mexico City Open, em 2018, onde jogadores se encaravam e faziam o espetáculo para o público. Porém, ainda naquela época a Microsoft não enxergava o cenário brasileiro como potencial para receber um evento.

“Falando especificamente de Brasil, se tiver uma maneira de trabalhar com alguma companhia local, poderíamos fazer um evento - não um grande, como Gears Pro Circuit -, mas como fazemos na Itália e na Espanha, que tem times jogando constantemente”, contou o diretor de comunicação da Coalition, Dana Sissons. Isso só ficou no mundo das ideias.

Nada mudará

Daria para trazer diversos outros temas e exemplos, mas para os fãs dos esports, é bem provável que esta aquisição bilionária não mude em nada. A Microsoft terá um ano para avaliar todos os assets que tem em mãos - e são muitos - mas especificamente no âmbito dos esportes eletrônicos, é preciso mudar a percepção sobre o que isso pode gerar para a empresa.

Vivemos em um mundo capitalista e todas as empresas que investem em esports, fazem isso por enxergar que no futuro essa será uma categoria que vai ser lucrativa no longo prazo. Porém, para dar certo, é necessário que existam equipes concentradas nesses esforços.

Departamentos de marketing sozinhos não conseguem levantar uma operação de transmissão, gerenciamento de jogadores e talentos, organizar torneios, equipes de mídias sociais dedicadas, relações públicas e tantas áreas que são necessárias para fazer com que a iniciativa seja levada a sério pela comunidade.

Ao olhar para empresas como Ubisoft, Riot Games e Garena, notamos um imenso abismo que existe entre elas e como a Microsoft, Activision e Blizzard encaram essa iniciativa. Ficar fechado no mercado norte-americano ou europeu não fará com que a categoria se espalhe pelo resto do mundo com a mesma força que a NBA ou NFL. No mundo dos esports a concorrência é imensa.

Não estou dizendo, no entanto, que a Microsoft não tenha dinheiro para tal, muito pelo contrário - afinal acabaram de fazer a maior compra do mercado de games. Talvez a aquisição da Activision-Blizzard tenha como pilar central o mundo dos games, porém, justamente por ver iniciativas como a Overwatch League e Call of Duty League serem tão relevantes, que estas tenham tido algum peso na decisão de fazer a maior aquisição da história do mundo dos games.

A Microsoft tem poder para fazer melhor. Basta mudar sua mentalidade e atitude.