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A saída de Jeff Kaplan pode ser o que Overwatch precisa para ter destaque fora de sua bolha

A Overwatch League é a principal liga competitiva do título Blizzard Entertainment

Nesta semana vimos talvez o último dos grandes pilares da Blizzard se desmoronar com a saída de Jeff Kaplan da equipe de desenvolvimento de Overwatch. O jogo que já foi uma grande influência do cenário de esports, hoje é apenas uma sombra de todo seu potencial.

Quando cheguei à ESPN em 2016, Overwatch tinha “acabado” de ser lançado. As expectativas eram enormes em torno do jogo e de seu potencial para se tornar um esport e atrair novas audiências para os torneios de videogames. E é nesse ponto que vou focar nesta coluna opinativa.

Kaplan chegou na Blizzard em 2002 para se enturmar com a equipe que estava desenvolvendo um MMORPG que mais tarde seria conhecido como World of Warcraft. O designer tinha experiência prévia com EverQuest. Ele trabalhou na equipe até o lançamento de Wrath of the Lich King e foi movido para outro projeto de MMO, o Titan. Porém o jogo nunca saiu do papel como um RPG massivo, mas sim como um jogo de tiro em primeira pessoa: Overwatch.

Para quem não conhece, Overwatch é um Hero Shooter em primeira pessoa onde dois times de seis pessoas disputam batalhas frenéticas com muitos poderes especiais e disparos (seja laser, seja de projéteis). Cada mapa tem objetivos próprios que vão de levar um comboio para determinado local do mapa, a dominar uma área ou até mesmo um mata-mata.

Aliado à sua dinâmica, a grife Blizzard estava presente em tudo o que envolvia o jogo. A empresa usou todas as suas armas de divulgação para que Overwatch fosse um game popular já em sua estreia. Usou e abusou do crossmedia ao criar curta-metragens, histórias em quadrinhos, sites virais e mais um mundo sem fim de produtos relacionados. Para sua estreia só faltou uma coisa: esports.

A espera não foi muito grande. Já em 2017 a Blizzard contratou Nate Nanzer para ser o comissário da área de esports. Nanzer vinha do UFC, maior organizadora de lutas em artes marciais mistas. Sua experiência pretérita o ajudou a elaborar um plano audacioso de iniciar a liga já no sistema de franquias onde cada vaga custava cerca de US$ 20 milhões – algo até então inimaginável para os esports. E existiam planos para expandir a liga para o mundo todo e até foi cogitado receber um time brasileiro, o que acabou não acontecendo até hoje.

Do lado da equipe de desenvolvimento de jogo, Kaplan foi criando junto com seu time personagens, mapas e mais conteúdos crossmedia para dar apoio à competição. Era ele quem dava a “cara” do que Overwatch estava se tornando. Foi com sua saudação característica “Aqui é o Jeff, da Equipe Overwatch” que ficávamos sabendo quais eram as novidades que chegariam no game, das dificuldades de criar novos personagens, enfim, todos os bastidores do shooter.

Os anos foram passando e pessoas importantes da Blizzard, como Mark Mohime, Ben Brode e Chris Metzen, foram deixando a companhia. Kaplan se mantinha firme e forte com a equipe Blizzard Team 4, para que Overwatch se mantivesse entre os principais jogos de sua categoria. Muitos até diziam que Kaplan era o último bastião do espírito dos antigos desenvolvedores da companhia de fazer jogos.

Ao mesmo tempo, pessoas como eu, de fora da empresa, notavam que Overwatch não estava conseguindo manter o fôlego. Em quase cinco anos desde seu lançamento, apenas 10 novos personagens foram lançados em Overwatch. No mesmo período League of Legends lançou 25 campeões e Paladins, seu concorrente direto, disponibilizou 33 heróis.

Na questão estratégica, os desenvolvedores não conseguiam definir um meta-game e até forçou o cenário competitivo a adotar sistemas controversos como o 2-2-2. O balanceamento também não era uma tarefa fácil e Kaplan até chegou a reconhecer nos fóruns da Blizzard que os personagens eram “superpoderosos e desbalanceados” e que a equipe lutava para atender as demandas dos fãs.

Isso se refletiu até mesmo no interesse do público com a Overwatch League. Em sua estreia, o torneio oficial chegou ao pico de 400 mil espectadores simultâneos. Hoje em dia a OWL ainda é uma grande franquia de esports, mas não tem a mesma força de outras categorias e a grande final de 2020 chegou em uma média de 90 mil espectadores com pico de 183 mil telas ligadas.

Novamente: a OWL é um sucesso. Não o sucesso que os times queriam, mas é um sucesso. E dá subsídios para a Activision-Blizzard continuar investindo em seu desenvolvimento.

A saída de Jeff Kaplan vai deixar um vácuo no coração dos fãs do Hero Shooter. Vai ser estranho assistir aos diários de desenvolvedor com Aaron Keller, mas faz parte da vida de qualquer grande profissional deixar projetos de lado e seguir em frente. Faz parte da vida de qualquer produto ter outros líderes.

A Blizzard e a Activision vão ter que dar a volta por cima com Overwatch 2, que ainda não tem data de lançamento, mas que está chegando aí. A saída de Kaplan pode sim ser doída para quem é fã de Overwatch, mas talvez isso tenha sido primordial para que o game volte a ser comentado fora de sua comunidade.