<
>

Opinião: Se a Blizzard quer que a Overwatch League seja relevante, Overwatch 2 precisa ser gratuito

Justo no dia do meu aniversário, a Blizzard lançou o Origin Story Echo — nova personagem de Overwatch, mas nem tão nova para quem acompanha o game. E como é boa a sensação de ver os vídeos de lore dessa empresa!

Assim como eu já tinha amado os vídeos de história do Sigma, por motivos distintos, gostei muito dessa apresentação e essa sensação me fez pensar sobre em que ponto o título se encontra no momento e como pode ser o futuro de Overwatch 2.

ENTENDENDO A BLIZZARD

Nos últimos anos, a Blizzard vem passando por momentos de desconforto envolvendo seus títulos, sua comunidade e suas decisões. Por muito tempo a empresa vem batendo a cabeça para resolver problemas e não sabendo lidar com as crises — e vem piorando a cada passo dado.

Com os fãs de Hearthstone, a empresa pisou na bola ao punir Blitzchung por fazer um protesto contra o governo chinês durante os protestos de Hong Kong, temendo represálias comerciais.

Faltou com respeito aos fãs de Diablo em plena Blizzcon de 2018, quando foi questionada sobre existir uma possibilidade de jogar Diablo Immortal no PC e a resposta do diretor do game, Wyatt Cheng, foi: “vocês não têm um telefone?”.

E mais recentemente, Warcraft 3 Remake não entregou nada do prometido, o que acabou gerando uma péssima imagem à Blizzard que, inclusive, teve que fazer reembolso aos compradores insatisfeitos.

Agora, o próximo problema da empresa pode ser Overwatch 2 — não o game em si, mas a forma como o produto pode ser envelopado. Lançado oficialmente em 2016, o game original recebeu inúmeros prêmios, entre eles o de Jogo do Ano no The Game Awards de 2016 (mesmo ela tendo sido uma das edições mais fracas do evento).

Overwatch também foi um dos responsáveis pela introdução de loot boxes em jogos Triple A, e um dos grandes precursores do sistema de franquias no esports. A qualidade e a contribuição que Overwatch trouxe ao mercado é indiscutível, entretanto, a concorrência não chegava aos pés do que é hoje. São inúmeros games free to play que se aproveitaram das inovações que Overwatch introduziu — porém a Blizzard falhou em sustentar o game e em mantê-lo fresco.

Desde o lançamento de Overwatch até hoje, foram lançados apenas 11 novos personagens — isso se contarmos a Echo, que ainda nem data para chegar aos servidores. Já em League of Legends, foram 16 personagens inéditos, sem contar os remakes. É importante ressaltar, no entanto, que a Blizzard conseguiu levar o game a todas as plataformas possíveis do mercado e formar uma grande comunidade.

Mas em 2020 o cenário é muito diferente do que era em 2016. As opções para jogos multiplayers competitivos são inúmeras e muitas das grandes empresas já possuem ou estão preparando seu produto. Deixando alguns sucessos de lado, como Fortnite e League of Legends, neste ano tivemos o lançamento de Call of Duty Warzone, lançado no dia 13 de março e Bleeding Edge que chega nesta terça (24), além de Valorant, game de tiro da Riot que chega ainda no primeiro semestre. E todos eles são (ou serão) gratuitos!

Para complicar ainda mais as coisas para a Blizzard, atualmente o mercado está tomado por games Free to Play de diversos gêneros, como Destiny, Warframe e Paladins (que é literalmente um clone de Overwatch). Ainda neste cenário, vemos que algumas empresas planejam uma transição em seu modelo de negócio, como Ubisoft e Rainbown Six: Siege.

COMO OVERWATCH 2 PODE AFETAR A OWL

A Blizzard escolheu por anunciar Overwatch 2 sem dizer qual seria o modelo de negócio que será adotado. É claro que a estratégia de dar um “banho de loja” funciona, basta ver como foi com Dota 2. Entretanto, o game da Valve nasceu gratuito – e, olha que irônico, era um mod de Warcraft III.

Segundo a Blizzard, a ideia de ter um segundo Overwatch é a de evoluir a história do game e implementar novidades importantes, como customização de personagens e melhorias gráficas. Entretanto, tudo o que vimos até agora só mostra que Overwatch 2 é, na verdade, um DLC no qual provavelmente os jogadores terão que pagar o preço cheio - e, neste momento não acredito que os jogadores casuais estarão dispostos a isso. Pense bem: os próximos meses reservam muitas opções para os jogadores que são fãs de jogos de tiro competitivo.

Além disso, é importante lembrar que o sucesso da Overwatch League é diretamente proporcional ao sucesso do game, e que para a Overwatch League existir, é necessário fazer um investimento de milhões de dólares. Isso começa a formar uma bola de neve de problemas que ainda estão ainda sem soluções.

Em Counter-Strike e até mesmo em Valorant (que nem mesmo foi lançado), tudo é claro e objetivo, de fácil compreensão. Porém, para entender tudo o que acontece em uma partida da Overwatch League é necessário que você tenha jogado Overwatch algumas vezes. E para que mais pessoas se interessem em acompanhar a Overwatch League, é necessário que o game tenha uma grande base de jogadores ao redor do globo - e não apenas na China.

Overwatch é um game que não se compreende assistindo. Justamente por isso digo: o multiplayer de Overwatch 2 ficar livre, longe de uma barreira paga. Caso contrário, acredito que o número de jogadores efetivos será menor que a do seu predecessor e o número de espectadores da Overwatch League pode ser comprometido, não só em regiões menores como no Brasil, mas em locais extremamente importantes como China, Europa e Estados Unidos.

Caso a porção multiplayer seja paga, acredito que isso vai gerar um efeito de debandada, fazendo com que quase toda cadeia deixe de se interessar pelo jogo e pela liga. Isso viria com os patrocinadores (que além de audiência qualificada querem ver números), dos jogadores profissionais (que podem ser atraídos para outros jogos). O ecosistema da Overwatch League é extremamente limitado e dificulta que atletas de regiões menos favorecidas ganhem destaque e partam para a liga profissional.

Com o multiplayer gratuito, a Blizzard pode aumentar sua rede de pesca e, claro, os jogadores que amam Overwatch vão de fato comprar tudo o que envolve esse mundo. Quem gosta apenas do multiplayer, pode se interessar na compra de skins e até mesmo comprar a campanha cooperativa e ainda acompanhar a liga – atendendo assim a demanda do departamento de vendas, que precisa de fato vender jogos. Mas tudo isso seria feito sem comprometer o principal subproduto do game, que é a Overwatch League.

É claro que baseio minha análise acreditando que Overwatch 2 será integralmente pago. Mesmo assim, acredito profundamente que a Blizzard ainda deve estar avaliando o cenário e quais o como vai escrever esse novo capítulo de uma das franquias mais legais do seu portfólio, sem prejudicar jogadores e seus negócios. E para nós, fãs do jogo e da liga, o que resta é aguardar a Blizzcon 2020.