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O "face to face" não está morto no Gears of Wars

Quando Vito “kNg” Giuseppe gritou “você é fraco, fraco, fraco” durante o PGL Krákow Major, em junho de 2017, a comunidade internacional de Counter-Strike: Global Offensive pirou. O jogador brasileiro – e qualquer um que fizer o mesmo –, foi taxado como desrespeitoso por uma série de fãs.

Essas pessoas não aguentariam cinco minutos em um torneio presencial de Gears of War. Ali, os insultos são ainda mais direcionados, pois são palavrões desferidos por alguém que levanta da cadeira, aponta para o adversário e o xinga como se o mesmo tivesse acabado de ofender sua mãe. E talvez ele tenha feito.

No luxuoso World Trade Center da Cidade do México, isso ficou escancarado. Não no palco principal, onde os jogadores estão separados por baias cheia de monitores. Mas ali do lado, nas “pools”, a arena secundária.

Com o duelo acontecendo no bom e velho “face to face”, não há uma estação onde jogadores não estão se xingando. E eles não medem as palavras. O juiz por ventura intervirá caso alguém passe dos limites – como com comentários homofóbicos ou racistas. Isso não aconteceu em nenhum momento.

O que aqui a gente chama de face to face – o cara a cara, em bom português –, os estrangeiros chamam de trash talk.

Trash talk

“O trash talk é uma grande parte da comunidade de Gears. Você joga, mas tem esse aspecto místico que o trash talk te ajuda a vencer. É bom, mas depois do jogo tudo acaba”, conta Tramasaur, um dos competidores.

Quando questiono se ele já teve vontade de brigar por conta das ofensas, ele diz que não. “Todos estão aqui para competir, fazer dinheiro e se tornar um profissional. Então, não acontecem brigas”, contou.

Tramasaur também revelou que não teme que isso mude um dia. “Os novos espectadores podem não entender, mas isso é Gears of War. É assim desde Gears of War 1. Eu não vejo isso acabando em tempo nenhum”, completou o jogador.

Um dos jogadores mais ativos no “dedo na cara” durante a competição, Sneak, capitão da Vanquish, vê a prática como um combustível.

“A comunidade de Gears como um todo gosta do trash talk. Ele ajuda os companheiros a ficaram ‘hypados’, traz energia e muda o momento. Dá um combustível para fechar a partida”, revelou.

“Eu gosto de praticar o trash talk, mas normalmente eu fico quieto até que alguém fale comigo. Mas se alguém fala algo, é hora de ir...”, brincou o jogador. Sneak aproveitou a oportunidade para destacar o companheirismo da comunidade. O jogador ressaltou a todo momento que as ofensas ficam só dentro do servidor.

“Uma coisa que eu respeito em nossa comunidade é que mesmo se falamos coisas pesadas, depois que o jogo acaba todos nos amamos. Nos cumprimentamos e coisas do tipo, temos uma boa conduta desportiva”, revelou.

“Somos uma grande família. No jogo nos odiamos, mas fora dele, nos amamos. Fora do jogo eu estou bem com todos os cinco adversários, mas dentro, eu acho que todos eles são horríveis”, finalizou.

O que pensa o chefe

Só para adiantar, ele adora. E não esperou nem minha pergunta para responder.

“Diferente dos outros jogos, a gente tem o trash talk. Alguém ganha um round levanta e fala com o outro time. Você vê aquilo acontecendo de todo lado. É um tipo de agressividade muito intenso, mas respeitoso. Acho que é algo necessário e único, que não há em outro esports”, afirmou Dana Sissons, diretor de comunicação da The Coalition, desenvolvedora de Gears of War 4.

“Normalmente os jogadores são bem quietos e impedidos, ou desencorajados, de ter esse nível de provocação. Nós amamos isso, não proibimos e trabalhamos com nossos jogadores que não seja algo inapropriado”, completou.

Durante a entrevista, Sissons não tirava os olhos do telão e a todo momento comentava algo sobre o duelo. Entre as centenas de fanáticos torcedores, o diretor se tornava mais um aficcionado. É difícil ver esse tipo de atitude entre os “engravatados”.

Esse é o clima

Apesar da intensidade menor, as provocações também acontecem no palco principal. Na decisão, Nick "Icy" Cope, da campeã OpTic, ficava em pé a todo momento para provocar a Ghost Gaming, que estava do outro lado, ou a torcida.

Para dar um charme a mais no trash talk, Icy passou toda a grande final usando óculos escuros, ignorando o fato de que a arena era pouco iluminada e que já eram 8 horas da noite na Cidade do México.

Do lado da Ghost, até a própria torcida praticou os xingamentos. Os presentes abusaram do tradicional grito de “eeeeee puto” – o mesmo que os torcedores de futebol do país gritam quando o goleiro adversário vai cobrar o tiro de meta.

Ao final, a OpTic ficou com a taça. Para mim, um debutante em competições de Gears, foi o de menos. Estar ali e poder reencontrar o face to face dos velhos tempos de lan-house foi o mais incrível de tudo.

Hoje temos premiações milionárias, jogadores estrelas e torneios pomposos – e isso não é ruim. Mas, nos três dias que eu passei no Gears Pro Circuit Mexico City Open, eu pude me lembrar o que nós somos de verdade: um bando de nerds – às vezes loucos para xingar a mãe dos adversários – jogando videogames.

* O jornalista viajou a convite da Microsoft.