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México 1970: há 50 anos, o Brasil conquistava o tri da Copa do Mundo e se eternizava na história

Há 50 anos, o Brasil se sagrava tricampeão do mundo.

Todo texto, vídeo, toda homenagem para aquela seleção brasileira, que encantou o mundo no México, em 1970, soa meio piegas. Uma das definições do termo é "sentimentalismo extremo". Outra é "ridiculamente sentimental". Mas não tem como ser diferente.

Primeiramente, vamos aos números. Foi a primeira e única seleção a ganhar todos os seus jogos das eliminatórias e também no Mundial. Seis vitórias, 23 gols a favor (média de 3,8) e dois contra no caminho para o México. Na Copa, mais seis vitórias, 19 gols pró (3,17 de média) e sete contra.

Nunca um campeão em campo tinha conquistado um título como técnico - Zagallo conseguiu. Nunca um jogador ganhou três Copas - Pelé ganhou, e só ele fez isso até hoje. Nunca um jogador marcou em todas as partidas de um Mundial - Jairzinho fez mais do que isso, sete gols em seis jogos.

O primeiro tricampeão levaria para a casa, de forma definitiva, a taça Jules Rimet. O Brasil conseguiu esse feito, deixando mais um "nunca" para trás.

Foi uma Copa que transcendeu o gramado e criou ícones da cultura. No Brasil, a primeira transmissão ao vivo. Em alguns lugares do mundo, a TV tinha cores, acredite, e foi a primeira vez que o planeta conheceu a camisa amarela, o calção azul, os meiões brancos. Foi lá que nasceram os cartões amarelos e vermelhos - esses não apareceram mesmo, ninguém foi expulso -, as duas substituições e cinco jogadores no banco. O México marcou ainda a estreia do álbum de figurinhas e teve até uma bola feita especialmente para aquela edição. Aliás, conhece Tospericargerja?

Falando em ícones, Pelé deixou de ser um personagem do futebol para ser uma estrela pop mundial depois daquela Copa.

Entre 31 de maio e 21 de junho, o mundo parou para ver um desfile de craques. Gordon Banks e a "Defesa do Século". Inglaterra campeã em 1966. Beckenbauer. Cubillas. Boninsegna. Itália x Alemanha, o "Jogo do Século". Até os gols que Pelé não fez ficaram eternizados: o chute do meio-campo contra a Tchecoslováquia, o tapa de primeira depois de um tiro de meta de Mazurkiewicz, e o drible sem tocar na bola contra o mesmo Uruguai.

O final feliz, para coroar a fanática e animada torcida mexicana, veio há 50 anos, quando o Brasil venceu a Itália por 4 a 1 e deixou vários "nuncas" para trás. O gol de Carlos Alberto Torres, o Capita, é uma obra-prima: nove jogadores da seleção tocam 29 vezes na bola em 30 segundos, até que o chute cruzado, forte, um foguete, deixa o pé direito do camisa 4 e se eterniza na história. Minutos depois, os torcedores invadiam o gramado do Estádio Azteca, e o Capita levantava a Jules Rimet pela última vez.

Há 50 anos, o Brasil se sagrava tricampeão do mundo.

Veja, abaixo, jogo a jogo, o caminho da seleção brasileira rumo ao tricampeonato no México:

Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia

"Grupo da Morte". Estreia na Copa contra o rival na final de 1962. 1 a 0 para a Tchecoslováquia logo aos 11min, com Petras, que comemorou com um sinal da cruz. Foi com esse cenário que o Brasil começou sua trajetória rumo ao tri. Foi com calma, ciente da sua força, que a equipe se recuperou. O empate veio em cobrança de falta de Rivellino: a pancada lhe rendeu o apelido de "Patada Atômica". Gérson se tornou o primeiro brasileiro a levar cartão amarelo em uma Copa. Jairzinho, que faria gols em todos os jogos do Mundial - o único a conseguir o feito até hoje -, anotou dois na estreia. Do susto à goleada. LEIA MAIS

Ficha técnica

Fase: Grupo 3, primeira rodada

Data: 03/06/1970

Local: Estádio Jalisco, em Guadalajara (México)

Árbitro: Ramón Barreto (Uruguai); Assistentes: Abraham Klein (Israel) e Arturo Yamasaki (Mexico)

Público: 52.897

Cartões amarelos: Gérson e Tostão (Brasil), Horvath (Tchecoslováquia)

Gols: Petras, aos 11min, e Rivellino, aos 24min do primeiro tempo; Pelé, aos 14min, e Jairzinho, aos 16min e 38min do segundo tempo

Brasil: Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson (Paulo Cezar); Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino. Técnico: Zagallo

Tchecoslováquia: Vitkor; Dobias, Horvath, Migas e Hagara; Kuna e Hrdlicka (Kvasnak); Frantisek Vesely (Bohumil Vesely), Petras, Adamec e Jokl. Técnico: Josef Marko

Brasil 1 x 0 Inglaterra

A final antecipada. O jogo que reuniu os campeões das últimas três Copas: Brasil, em 1958 e 1962, e Inglaterra, em 1966. Para Pelé, foi "a partida mais difícil". Um duelo tenso. Aos 10min do primeiro tempo, um lance ficou marcado para a história: Carlos Alberto lança, Jairzinho recebe pela direita, avança e, na linha de fundo, cruza. A bola voa por toda a área a encontra o Rei: uma cabeçada forte, para o chão, no canto direito. Gordon Banks pula, joga o corpo para trás, dá um tapa na bola e, contra todas as leis da Física (e dos deuses do futebol), manda para escanteio. "Defesa do Século".

Foi preciso um lance magistral de Tostão, que driblou três ingleses pela esquerda - com direito a bola entre as pernas de Bobby Moore - e cruzou nos pés de Pelé. Ele dominou e, quando o zagueiro ameaçou chegar, rolou para o lado, para um furacão chamado Jairzinho marcar o gol imortal. 1 a 0. Que jogo! LEIA MAIS

Ficha técnica

Fase: Grupo 3, segunda rodada

Data: 07/06/1970

Local: Estádio Jalisco, em Guadalajara (México)

Árbitro: Abraham Klein (Israel); Assistentes: Arturo Yamasaki (México) e Roger Machin (França)

Público: 66.843

Cartões amarelos: Lee (Inglaterra)

Gols: Jairzinho, aos 14min do segundo tempo

Brasil: Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Rivellino; Paulo Cezar, Jairzinho, Tostão (Roberto) e Pelé. Técnico: Zagallo

Inglaterra: Banks; Wright, Labone, Moore e Cooper; Mullery, Ball, Charlton (Bell) e Peters; Hurst e Lee (Astle). Técnico: Alf Ramsey

Brasil 3 x 2 Romênia

Apenas uma combinação de resultados tiraria a vaga na segunda fase do Brasil. O que se viu foi um massacre nos 25 minutos iniciais, com Pelé e Jairzinho abrindo 2 a 0. Os romenos descontaram ainda no primeiro tempo, Pelé voltou a marcar no segundo, e a partida seguiu controlada pelos comandados de Zagallo. Três jogos, três vitórias, 100% de aproveitamento e fim do sonho da Romênia e do técnico Angelo Nicolescu, um dos pais do tiki-taka. LEIA MAIS

Ficha técnica

Fase: Grupo 3, terceira rodada

Data: 10/06/1970

Local: Estádio Jalisco, em Guadalajara (México)

Árbitro: Ferdinand Marschall (Áustria); Assistentes: Ramón Barreto (Uruguai) e Vital Loraux (Bélgica)

Público: 50.804

Cartões amarelos: Mocanu e Dumitru (Romênia)

Gols: Pelé, aos 19min, Jairzinho, aos 22min, e Dumitrache, aos 34min do primeiro tempo; Pelé, aos 22min, e Dembrovschi, aos 39min do segundo tempo

Brasil: Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Fontana e Everaldo (Marco Antônio); Piazza e Clodoaldo (Edu); Paulo Cézar, Jairzinho, Tostão e Pelé. Técnico: Zagallo

Romênia: Adamache (Raducanu); Satmareanu, Lupescu, Dinu e Mocanu; Dumitru e Nunweiller; Dembrovschi, Neagu, Dumitrache (Tataru) e Lucescu. Técnico: Angelo Nicolescu

Brasil 4 x 2 Peru

O reencontro com um velho conhecido, um ídolo. Desta vez, Didi, o Príncipe Etíope, um dos maiores da história, bicampeão em 1958 e 1962 com Pelé e Zagallo, estava do outro lado, mais precisamente, no banco de reservas do rival. O técnico da seleção peruana conhecia muito bem seu adversário, na verdade, seus amigos. Amigos amigos... Em campo, com as voltas de Gérson e Rivellino, recuperados de lesões, o Brasil comprovou sua superioridade e dominou a partida. Tostão marcou duas vezes, seus únicos gols no México. Cubillas, o craque peruano, bem que tentou, mas não conseguiu evitar a eliminação do melhor time da história de seu país. Didi deixou o solo mexicano ainda mais ídolo, agora, não apenas de um país, mas de dois. LEIA MAIS

Ficha técnica

Fase: Quartas de final

Data: 14/06/1970

Local: Estádio Jalisco, em Guadalajara (México)

Árbitro: Vital Loraux (Bélgica); Assistentes: Ferdinand Marschall (Áustria) e Gyula Emsberger (Hungria)

Público: 54.233

Gols: Rivellino, aos 11min, Tostão, aos 15min, e Gallardo, aos 28min do primeiro tempo; Tostão, aos 7min, Cubillas, aos 25min, e Jairzinho, aos 75min do segundo tempo

Brasil: Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Marco Antônio; Clodoaldo e Gérson (Paulo Cézar); Rivellino, Jairzinho (Roberto), Tostão e Pelé. Técnico: Zagallo

Tchecoslováquia: Rubiños; Campos, Fernández, Chumpitaz e Fuentes; Mifflin, Challe e Cubillas; Baylón (Sotil), León (Reyes) e Gallardo. Técnico: Didi

Brasil 3 x 1 Uruguai

Fantasma do Maracanazo em 1950? Se existia, ficou para trás. Mas foi a duras penas que o Brasil derrotou o Uruguai e se classificou para a grande decisão. Um primeiro tempo apertado, com os rivais sul-americanos marcando muito bem e, além disso, abrindo o placar com um erro da defesa brasileira. Tinha tudo para que a seleção fosse para o intervalo em desvantagem, mas Clodoaldo, sim, o volante, o jogador de meio-campo com mais vocações defensivas, rompesse a muralha uruguaia e empatasse a semifinal. O gol mudou a história do jogo e da Copa: o Brasil voltou para o segundo tempo melhor e construiu uma vitória que, pelo placar, pareceu fácil, mas foi um dos confrontos mais duros daquele Mundial. LEIA MAIS

Ficha técnica

Fase: Semifinal

Data: 17/06/1970

Local: Estádio Jalisco, em Guadalajara (México)

Árbitro: José María Ortiz de Mendíbil (Espanha); Assistentes: Tofik Bakhramov (Ucrânia) e Ferdinand Marschall (Áustria)

Cartões amarelos: Carlos Alberto (Brasil), Mujica, Maneiro e Fontes (Uruguai)

Gols: Cubilla, aos 19min, e Clodoaldo, aos 44min do primeiro tempo; Jairzinho, aos 31min, e Rivellino, aos 89min do segundo tempo

Brasil: Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Rivellino, Jairzinho, Tostão e Pelé. Técnico: Zagallo

Tchecoslováquia: Mazurkiewicz; Ubiñas, Ancheta, Matosas e Mujica; Montero Castillo e Cortés; Cubilla, Maneiro (Espárrago), Fontes e Morales. Técnico: Juan Eduardo Hohberg

Brasil 4 x 1 Itália

O jogo definitivo. Se existia qualquer dúvida, ela acabou naquela tarde no Estádio Azteca. Nunca antes na história do futebol uma seleção havia conquistado três títulos. A sonhada e desejada Jules Rimet deixaria de ter posse transitória. O Brasil se sagrava tricampeão do mundo.

Foi uma das partidas mais marcantes da história dos Mundiais. Favorito, o Brasil confirmou não apenas a expectativa, mas chocou o mundo com o melhor futebol já visto. Um time que virou objeto de estudo em várias disciplinas. A Itália nada podia fazer.

Os quatro gols brasileiros são lindos. A cabeçada de Pelé, que paira no ar, é precisa. A pancada de Gérson, de fora da área, é certeira. Até o gol de Jairzinho, meio "sem querer", é fruto de uma jogada magnífica: lançamento de Gérson e assistência de cabeça de Pelé. E tem o grand finale, o gol de Carlos Alberto, em um lance que é impossível não ver, rever, rever, rever...

Há 50 anos, o Brasil se sagrava tricampeão do mundo. LEIA MAIS

Ficha técnica

Fase: Final

Data: 21/06/1970

Local: Estádio Azteca, na Cidade do México (México)

Árbitro: Rudi Glockner (Alemanha Oriental); Assistentes: Rudolf Scheurer (Suíça) e Ángel Norberto Coerezza (Argentina)

Público: 107.412

Cartão amarelo: Burgnich (Itália)

Gols: Pelé, aos 18min, Boninsegna, aos 37min do primeiro tempo; Gérson, aos 21min, Jairzinho, aos 26min, e Carlos Alberto, aos 41min do segundo tempo

Brasil: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Jairzinho, Pelé e Tostão. Técnico: Zagallo.

Itália: Albertosi; Burgnich, Rosato, Cera e Facchetti; Bertini (Juliano), De Sisti e Domenghini; Mazzola, Boninsegna (Rivera) e Riva. Técnico: Ferruccio Valcareggi