Muito mais do que a defesa de Gordon Banks, espalmando uma bola cabeceada por Pelé visando ao canto direito do gol, em lance eternizado como a “Defesa do Século”, ou do salto de "gato" de Félix, que ainda levou um chute no rosto, ou ainda o lance magistral de Tostão, a assistência de Pelé e o gol imortal de Jairzinho: Brasil x Inglaterra, 50 anos atrás, marcou o encontro entre seleções que planejaram nos mínimos detalhes como vencer a Copa do Mundo de 1970.
A partida ocorreu em 3 de junho, em Guadalajara, às 12h locais (14h de Brasília), pela segunda rodada do grupo C. Ambos já tinham vencido na estreia. O time canarinho bateu a Tchecoslováquia por 4 a 1, enquanto os rivais venceram a Romênia por 1 a 0.
O duelo foi visto como uma final antecipada por reunir os últimos campeões e quem mais investiu na preparação. Ambas comissões técnicas estudaram como minimizar os efeitos da altitude do país, já que a final foi agendada para a Cidade do México, a 2.250 m acima do nível do mar, e também como lidar com o forte calor, o ar seco e o desgaste físico.
O jogo foi tão técnico e tão equilibrado que pouco se falou como essas seleções chegaram até ele.
Visitas, prisão e água própria
Defendendo o título, os ingleses conseguiram manter para o Mundial de 1970 dez remanescentes da campanha vitoriosa de 1966. Seis como titulares, entre eles os magníficos Gordon Banks e Bobby Charlton.
A preparação começou em 1967. Foi quando o técnico Alf Ramsey, aproveitando que, naquele ano, o Sheffield Wedneday, pequeno clube da primeira divisão, iria ao México, solicitou que o companheiro de profissão, Alan Brown, produzisse um relatório detalhado sobre o efeito da altitude nos jogadores, a qualidade dos campos e até as impressões das viagens.
Foram cinco amistosos disputados na Cidade do México em junho daquele ano, mesmo mês em que ocorreria a Copa três anos depois. A campanha - uma vitória, três empates e uma derrota - não foi importante, mas sim as respostas de Brown.
De acordo com antiga reportagem do "DailyMail", os relatos apontaram que os atletas sentiram cansaço mais cedo por causa do calor e da diferença de oxigênio na altitude. Também tiveram dificuldades com a velocidade da bola, muito mais rápida.
O próprio Ramsey foi conferir as condições do país em 1968, aproveitando os Jogos Olímpicos, apesar de a Grã-Bretanha não ter jogado o torneio de futebol. No ano seguinte, colocou a Inglaterra para enfrentar o México, no estádio Azteca, na Cidade do México. O objetivo do treinador era avaliar o terreno da Copa. Ele não se importou com o empate sem gols.
Tendo em vista todas essas experiências, Ramsey programou a viagem para o México no início de maio de 1970, fazendo da Inglaterra a segunda equipe em preparação no país da Copa. Foram 15 dias em Guadalajara e, para acelerar o processo de adaptação ao forte calor e à altitude, duas viagens rápidas para Colômbia e Equador, para a disputa de amistosos.
Algo deu errado. Não pelos resultados. Afinal os ingleses venceram os colombianos por 4 a 0 e os equatorianos por 2 a 0. O problema foi uma confusão em Bogotá, onde Bobby Moore foi acusado por uma funcionária de uma joalheria (Fuego Verde Clara Padilla) de ter roubado uma pulseira durante uma visita ao local com Bobby Charlton.
Segundo reportagem do "Correio da Manhã", o ocorrido se deu logo nos primeiros dias de estadia dos ingleses. Inicialmente, tudo aparentava estar esclarecido, e o defensor prosseguiu a preparação. Jogou contra a Colômbia e viajou ao Equador. A programação previa que eles pegariam um voo para o México, com escala em Bogotá.
Ao seguir o protocolo do aeroporto para fazer a escala, Moore foi abordado pela polícia. Uma nova testemunha afirmava que o viu roubando a pulseira. Ele foi detido, enquanto a delegação inglesa prosseguiu para o destino final.
Dois diretores ficaram com ele. O imbróglio durou quatro dias. Durante esse tempo, cumpriu pena em prisão domiciliar, na casa do presidente da Federação Colombiana, graças à ajuda do primeiro-ministro britânico Harold Wilson.
Moore já desfrutava em 1970 de prestigio internacional. Era um dos galãs do futebol inglês, o que aumentou a presença da mídia. Ele foi liberado dia 28 por que as acusações mostraram-se contraditórias e sem fundamento, desconfiando de um golpe.
A rápida prisão de Moore não foi o único problema para a Inglaterra.
Eles tornaram-se impopulares entre os mexicanos por estarem sempre distantes da população, que queria autógrafos. Faziam treinos fechados e recusaram-se até a beber a água local por "desconfiança". Levaram um estoque da própria Inglaterra.
Antes de a Copa começar, os ingleses já eram vistos comos "campeões arrogantes", segundo o "Correio da Manhã".
Tédio, camisas 10 e samba
A seleção brasileira foi a primeira equipe participante da Copa a chegar ao México. Desembarcou em 3 de maio. Parte de um ousado e minucioso planejamento de João Saldanha, meses antes de ser demitido.
Inicialmente, Zagallo pretendia alterar a programação, mas a comissão técnica sugeriu que ele a mantivesse. Muitos sabiam das dificuldades do país pelas viagens com o Botafogo, equipe que Zagallo treinou até chegar à seleção. Conheciam os campos de Toluca, León, Veracruz e, especialmente, Guadalajara e Cidade do México.
Formada por 43 pessoas, sendo 22 jogadores, a delegação brasileira tinha programado quatro dias em Guadalajara, onde a seleção faria a estreia no Mundial; 21 dias em Guanajuato, que, apesar de não ser muito conhecida, permitira o isolamento no hotel Suites San Javier e a ambientação do time à altitude de 2.012 m acima do nível do mar; e finalmente o retorno a Guadalajara, para a estreia da equipe no torneio, marcada para 3 de junho.
Em Guanajuato, mais do que a altitude, os jogadores tiveram de suportar o tédio. Em entrevistas aos jornais da época, como "Correio da Manhã" e "Jornal do Brasil", vários deles reclamavam que não havia nada para fazer na pequena cidade. Até mesmo os membros da comissão técnica confidenciaram aos jornalistas que estava difícil aguentar.
Já Zagallo quebrava a cabeça para pensar no time titular. A cada dia era mais claro que o ponta-direita Rogério não teria como jogar por causa da lesão na coxa direita. Também não estava convencido de que era melhor Pelé e Tostão juntos.
Por outro lado, os preparadores físicos exigiam muito dos jogadores durante os treinos. Assim como a seleção inglesa, eles tinham embasamento para afirmar que o bom preparo físico faria muita diferença na Copa.
A equipe canarinho ainda fez três amistosos em solo mexicano. Derrotou o Deportivo Guadalajara (3 a 0), em Guadalajara, o Deportivo León (5 a 2), em León, e o Irapuato (3 a 0), na cidade do mesmo nome, este último com um time reserva.
Os dois primeiros foram muito úteis ao treinador para fazer as últimas definições. O segundo ficou até mais marcado por que foi a primeira vez que uma constelação de camisas 10 foi titular da seleção brasileira. Ao bater o León, estavam juntos em campo Gérson (10 no São Paulo), Rivellino (10 no Corinthians), Jairzinho (10 no Botafogo), Pelé (10 no Santos) e Tostão.
Bem, Tostão não era o 10 do Cruzeiro, posição de Dirceu Lopes. No clube mineiro, ele poucas vezes usou o número mais nobre do futebol. Ele jogava mesmo com a 8. Mas ele foi o 10 do Brasil em jogos em que o Rei do Futebol ficou ausente e uma vez em que o Pelé ficou no banco (usando a 13) no Morumbi, já na reta final de preparação para o Mundial.
Já no último amistoso, Zagallo optou por escalar os reservas porque sabia que havia espiões de outras seleções, segundo reportagem da época do "Correio da Manhã". Experiente, apesar de jovem, o Velho Lobo se previniu.
Os jornais da época também disseram que o clima na seleção melhorou no retorno a Guadalajara. Apesar do corte de Rogério, o time demonstrava estar mais sólido. Os jogadores mais confiantes. As únicas críticas eram ao sistema defensivo.
Poucos dias antes do início do Mundial, a comissão técnica também fez algumas concessões aos jogadores para eles se divertirem. O ex-ponta-esquerda Edu disse que eram famosas as rodas de samba no Caribean (onde a seleção se hospedou).
"Não lembro se era uma sacada ou uma varanda, mas a gente ficava ali tocando e se divertindo. Eu ficava mais é assistindo. Não tinha muito talento. Mas lembro que os mexicanos apreciavam. Eles gostavam de nos ouvir lá da rua e ficavam dançavam no ritmo do samba. Foi assim que começamos também a ganhar a simpatia deles”, disse para a reportagem.
Outro motivo que tornou os mexicanos mais próximos do Brasil foi Pelé, velho conhecido pela fama internacional e pelas viagens do Santos. "Onde ele passava era aquela alegria. Tinha gente que só queria encostar nele", lembra Edu.
Duelo de favoritos
A partida entre os bicampeões de 1958 e 1962, no caso o Brasil de Pelé, contra os vencedores de 1966, a Inglaterra de Bobby Charlton, mexeu com a Copa do Mundo. Muitos apontavam que o vencedor fatalmente estaria na final.
Havia mais do que uma simples previsão. O vencedor possivelmente seria o primeiro colocado do grupo C, assegurando os jogos das quartas de final em Guadalajara, sem sofrer os males da altitude da Cidade do México.
Zagallo e sua comissão técnica avisaram aos jogadores repetidas vezes porque era importante vencer ou ao menos empatar com os campeões. Afinal, os brasileiros já levavam vantagem no saldo (3 a 1).
O embate também teve outra curiosa característica. Durante a preparação, Zagallo passou a seleção para o 4-3-3, recuando o ponta-esquerda e abandonando o 4-2-4, esquema que tantos frutos deu ao futebol nacional.
Já os ingleses tinham um sistema particular adotado em substituição ao "WM" de Herbert Chapman. Desde a Copa anterior, a seleção era escalada no 4-4-2, usando muito a velocidade para o contra-ataque e a força física na marcação.
Como previsto, a partida foi bem equilibrada. Aos 11 minutos, Pelé e Banks entraram para a história pelo lance protagonizado entre eles. Foi a cabeçada perfeita e a defesa ainda mais perfeita. Ninguém nunca conseguiu explicar a beleza do lance.
Aos 31, Félix fez a defesa mais difícil da carreira ao se atirar em direção à bola cabeceada por Francis Lee. O inglês ainda atingiu o brasileiro com um chute no rosto na sequência. Depois, Lee levou o troco, recebendo uma falta dura de Carlos Alberto.
No segundo tempo, o preparo físico dos ingleses mostrou-se um pouco inferior ao dos brasileiros. Ainda assim, o duelo prosseguiu bem equilibrado. Somente um lance genial para tirar o placar do zero. E foi de Tostão, aos 14.
Ao receber a bola de Paulo Cézar Caju próximo da grande área, ele deu uma cotovela em Alan Ball, uma caneta em Bobby Moore e escapou de um carrinho de Tommy Wright. Chegou a ameaçar ir até a linha de fundo, mas voltou com a bola grudada a seus pés e, com a perna direita, cruzou para a área.
A bola chegou até Pelé, na marca do pênalti. Com muita calma, ele esperou a aproximação de três ingleses - Brian Labone, Alan Mullery e Terry Cooper - para tocar para o lado direito da. Jairzinho ficou com a posse, deu uma passada e finalizou para marcar. Um dos gols mais bonitos daquele Mundial e mais reprisados na história do futebol.
O jogo terminou 1 a 0 para os brasileiros. E, entre as manchetes marcantes daquele feito, ficou na memória a do caderno de esporte do “Correio da Manhã”: “A arte foi melhor”.
Como se sabe, os brasileiros chegaram até a final daquela Copa vencendo todos os jogos e se sagrando campeão. Já a Inglaterra foi até as quartas de final e acabou eliminada pela Alemanha Ocidental, com derrota por 3 a 2.
