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Tri, Pelé, TV em cores, bola, figurinhas, novidades: 50 anos de México 70, a Copa do Mundo que mudou a história do futebol

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Mauro Cezar: 'Romário seria titular até na seleção de 1982! E de alguma maneira iria jogar na de 1970' (1:57)

Jornalista da ESPN Brasil ainda disse o que poderia ter sido da seleção que ganhou o tetra em 1994 caso não tivesse o 'baixinho' (1:57)

A Copa do Mundo de 1970 no México marcou o antes e depois na história do futebol.

Foi a primeira transmissão de TV da Copa do Mundo para o mundo todo, a primeira edição disputada fora da Europa e da América do Sul, a primeira a ter substituições e cartões amarelos e vermelhos, e a primeira a detonar o potencial comercial do torneio.

Em resumo, México 70, que teve sua abertura há exatos 50 anos, em 31 de maio, sem dúvida se estabeleceu na memória coletiva do esporte.

Como se isso não bastasse, a qualidade técnica do torneio foi alta e, meio século depois, ainda é considerada uma das melhores Copas do Mundo da história.

Lendas como Franz Beckenbauer, Gerd Muller, Bobby Moore, Gordon Banks e Teófilo Cubillas mostraram seu talento. O Brasil, dominante, se tornou o primeiro país a vencer três títulos no torneio. Uma seleção que até hoje encanta e, entre outros feitos, eternizou Pelé como “Rei do Futebol”.

Veja, abaixo, o antes e depois do impacto da Copa de 1970 na história da bola:

A lenda imortalizada

Antes: Pelé, a estrela brasileira, lesionada na Copa de 1966, correu o risco de ficar fora de 1970.

México 1970: sua brilhante atuação em campo o catapultaram a uma fama sem precedentes no futebol.

Depois: Pelé se consolida como o jogador de futebol mais famoso do planeta e uma das figuras esportivas mais importantes da história.

Pelé já era o jogador de futebol mais famoso do mundo depois de vencer as Copas de 1958 e 1962. Quatro anos depois, o Brasil procurava seu terceiro título consecutivo na Inglaterra, e ele estava na mira de seus rivais, que o castigaram sem piedade.

O Rei disse posteriormente que aquela Copa foi o pior momento de sua carreira e admitiu que pensou em se aposentar da seleção. A forma física foi recuperada, ele voltou a atuar bem pelo Santos e decidiu seguir com o time nacional.

Teve problemas com João Saldanha, o técnico nas eliminatórias, e correu risco de amargar a reserva, mesmo sendo sempre titular. Por inúmeros fatores, pessoais, esportivos e políticos, o treinador foi demitido às vésperas do Mundial. Zagallo assumiu o comando, e a posição de Pelé no time ideal voltou a ser indiscutível. A introdução dos cartões amarelo e vermelho e as substituições também beneficiariam, afinal, a violência de 1966 seria coibida.

A última Copa de Pelé foi um final feliz de uma carreira lendária na seleção. Durante o torneio no México, 53% dos gols do Brasil foram marcados ou saíram de assistências do Rei. Apenas quatro jogadores na história dos Mundiais tiveram tal influência em seu time: David Villa, Diego Maradona, Romário e Paolo Rossi.

"Esta foi a despedida, e a despedida como campeão do mundo. Foi sem dúvida, o melhor." Pelé, sobre a Copa do Mundo do México, em 1970

Melhor ainda, a última dança de Pelé com o Brasil foi em um evento acompanhado por milhões de fãs ao redor do mundo. Graças à nova tecnologia de televisão por satélite, as façanhas de Pelé ficaram famosas. As imagens icônicas do Rei pulando nos braços de Jairzinho após marcar o primeiro gol da final contra a Itália, bem como a finta espetacular que ele fez com o goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz na semifinal e até o chute do meio do campo contra a Tchecoslováquia serão associados ao craque por toda a eternidade.

Para aqueles que tiveram a sorte de ter uma TV em cores em 1970, a Copa do México lhes deu pela primeira vez a oportunidade de ver as imagens do torneio em toda a sua glória. A camisa do Brasil passou de cinza, como todas as outras, para o vibrante amarelo canarinho. E Pelé era o craque com a 10.

O Azteca no Olimpo

Antes: construído para as Olimpíadas de 1968, o “Colosso de Santa Úrsula” era reverenciado apenas localmente, mesmo com sua imponente arquitetura vertical.

México 1970: o estádio é palco do "Jogo do Século" entre Itália e Alemanha Ocidental e serve de cenário para o Brasil erguer o terceiro troféu de campeão.

Depois: o Azteca se une a estádios como Maracanã e Wembley entre os templos do futebol e serviria de palco para Diego Maradona levantar a taça em 1986.

O Estádio Azteca testemunhou momentos épicos que podem ser resumidos em poucas palavras: "O Jogo do Século", "O Gol do Século" e "A Mão de Deus". Nenhum outro estádio viu dois dos melhores jogadores da história conquistarem o troféu de campeão mundial: Pelé e Maradona.

A semifinal de 1970 entre Alemanha Ocidental e Itália foi o primeiro dos grandes momentos. Karl-Heinz Schnellinger salvou os alemães marcando 1 a 1 no minuto 90 para levar o duelo à prorrogação. O clima quente e a motivação para chegar à decisão produziram um jogo caótico, no melhor sentido do termo. Cinco gols foram marcados, três viradas de placar e Beckenbauer, o capitão alemão, permaneceu em campo apesar de ter deslocado o ombro.

Quando a Itália finalmente saiu de campo com a vitória por 4 a 3, a partida ficou tão marcada na memória que uma placa foi colocada para eternizá-la. “El Estadio Azteca, rinde homenaje a las selecciones de: Italia (4) y Alemania (3) protagonistas en el Mundial de 1970, del ‘Partido del Siglo’”, diz a placa comemorativa.

Alguns dias depois, Itália e Brasil jogaram a final. E apesar da neutralidade do país anfitrião, os torcedores locais tinham um time favorito. "Depois que o México foi desqualificado, todos os mexicanos apoiaram o Brasil", afirmou Pelé em entrevista à ESPN, em 2010. "Parecia que estávamos jogando no Maracanã todos os jogos. Foi maravilhoso". O apoio deu certo, e o Brasil venceu por 4 a 1.

"Parecia que estávamos jogando no Maracanã todos os jogos. Foi maravilhoso" Pelé, sobre o apoio da torcida mexicana na Copa de 1970

Dois grandes eventos em menos de uma semana deixaram claro que o Azteca seria sempre lembrado na história do futebol.

Dezesseis anos depois, o México receberia a Copa de 1986. Quando Maradona liquidou a Inglaterra com dois gols lendários, as comparações com 1970 se tornaram instantâneas. E eternas.

A Copa do marketing

Antes: os produtos oficiais eram uma raridade, representando uma pequena fonte de receita para a FIFA.

México 1970: Adidas e Panini inventam dois produtos famosos que se tornaram populares em todo o mundo.

Depois: os produtos oficiais da Copa se tornam uma das principais fontes de receita da Fifa.

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Mauro Cezar: 'Romário seria titular até na seleção de 1982! E de alguma maneira iria jogar na de 1970'

Jornalista da ESPN Brasil ainda disse o que poderia ter sido da seleção que ganhou o tetra em 1994 caso não tivesse o 'baixinho'

O potencial comercial da Copa do Mundo cresceu de mãos dadas com sua audiência na televisão. O alcance global do México 70 significava que muitas empresas podiam anunciar em lugares com os quais nunca haviam sonhado e criar produtos para os fãs do mundo inteiro.

O produto mais representativo desse torneio é sua bola oficial, a Adidas Telstar. O design de 32 gomos - 12 hexágonos pretos e 20 hexágonos brancos - continua sendo a representação mais comum de uma bola de futebol até hoje.

A bola recebeu o nome do satélite de mesmo nome, o primeiro a transmitir imagens ao vivo para diferentes continentes. O satélite até tinha uma semelhança de balão, uma esfera branca com painéis solares pretos colados em cima. Antes da Adidas Telstar, as bolas eram geralmente de cor marrom, e nenhuma empresa possuía o selo de ser o fabricante oficial das bolas da Fifa.

A bola da Adidas foi projetada para ser facilmente vista na televisão, independentemente de o consumidor assistir ao jogo em cores ou em preto e branco. A Adidas entregou apenas 20 bolas para toda a Copa de 1970, fazendo com que algumas fossem usadas em mais de um jogo, e alternativas foram criadas. A partida das quartas de final entre a Alemanha Ocidental e a Inglaterra, por exemplo, usou uma bola marrom. Na primeira metade da semi entre Itália e Alemanha Ocidental, uma bola totalmente branca foi usada.

A Telstar se tornou tão popular que a Adidas vendeu 600 mil bolas após o torneio, de acordo com a Fifa. Meio século depois, a relação entre a fabricante e a entidade continua.

Se a Adidas conquistou os consumidores em campo, a Panini fez isso fora dos gramados. Antes da Copa de 1970, a empresa italiana assinou um contrato com a Fifa para criar um álbum colecionável de figurinhas coloridas.

"Em 1970, todas as fotos que tiramos dos jogadores foram em preto e branco", disse Mark Warsop, CEO da Panini America. "Pintamos todas as fotos para que as figurinhas fossem coloridas."

Hoje, embora Panini também tenha um álbum virtual e um aplicativo oficial, o álbum físico está mais popular do que nunca, e a empresa estabeleceu vendas recorde antes da Rússia para 2018. "Nada tira a emoção e a experiência de abrir um pacotinho e tocar a figurinha", disse Warsop. "É colecionável e você não pode replicá-lo inteiramente em um formato virtual."

O que a Panini realizou em 1970 fez com que outras empresas quisessem entrar no negócio do produto oficial endossado pela Fifa. Ao longo das décadas, o mercado se expandiu para incluir brinquedos, videogames, pôsteres, roupas, figuras de animais de estimação, troféus de réplicas e até mesas de pebolim.

"Nada tira a emoção e a experiência de abrir um pacotinho e tocar a figurinha" Mark Warsop, CEO da Panini America

Para a FIFA, isso tem sido altamente benéfico. A organização levantou mais de US$ 4,6 bilhões em 2018, graças em grande parte ao que foi gerado pela Copa da Rússia. A série oficial de videogame desenvolvida pela EA Sports já vendeu mais de 282 milhões de cópias depois de estrear em 1993, tornando-se uma das franquias mais populares do mundo nesse campo. Esse é um aumento exponencial em comparação aos quase US$ 12 milhões que a Fifa ganhou com o marketing entre 1975 e 1978, de acordo com a “SportBusiness”.

Quando o ex-presidente da Fifa, João Havelange, morreu em 2016, vários meios de comunicação reproduziram sua declaração sobre as finanças da organização: “Quando assumi o cargo em 1974, havia US$ 20 no cofre. Quando saí em 1998, havia mais de US$ 4 bilhões."

O futebol expande suas fronteiras

Antes: Europa e América do Sul foram sedes das oito primeiras edições da Copa.

México 1970: o líder mexicano Guillermo Cañedo pressionou a Fifa por anos para obter sede.

Depois: Quatro das próximas 12 Copas foram realizadas na América do Norte, Ásia e África, e o México deve se tornar o único país a sediar três edições em 2026.

Em 2026, a Copa chegará ao México pela terceira vez, embora desta vez seja compartilhada com Canadá e EUA como anfitriões.

De 1930 e 1966, o Mundial foi disputado exclusivamente na Europa e na América do Sul, os dois mercados de futebol mais desenvolvidos até então. O panorama começou a mudar em 1963, quando a Cidade do México foi escolhida para abrigar os Jogos Olímpicos de 1968, os primeiros na América Latina. A infraestrutura criada para este evento ajudou o país a ser escolhido para a Copa de 1970.

Em 1986, o México sediaria a segunda vez, embora desta vez de maneira inesperada. A Colômbia ganhou o direito de organizar a edição, mas o país renunciou ao local três anos antes por problemas financeiros. O México assumiu o comando, novamente sob a liderança de Cañedo, que conseguiu vencer a candidatura dos EUA.

A Copa não se expandiria para o resto do mundo até o século atual. Japão e Coreia do Sul receberam o torneio em 2002, e a África do Sul assumiu a organização de 2010, deixando a Oceania como a única região sem sediar uma edição.