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Copa do Mundo 1970: Há 50 anos, Brasil derrotava o precursor do tiki-taka para avançar no México

Foi em 10 de junho de 1970 que o Brasil selou sua classificação para as quartas de final da Copa do Mundo. A vitória por 3 a 2 sobre a Romênia no estádio Jalisco, em Guadalajara, diante de 50.804 torcedores, garantiu o primeiro lugar no grupo 3 e também eliminou do Mundial um dos técnicos que viria a revolucionar o futebol mundial, Angelo Niculescu.

O romeno, então aos 48 anos, um ex-jogador de pouco brilho que se formou em Educação Físia, era o comandante da surpreendente seleção de seu país, que chegou ao México como “azarão” e quase avançou para o mata-mata. Mas o que o tornaria famoso mundialmente foi o estilo de jogo que ele impôs aos seus times.

A tática parecia simples, mas era revolucionária: deixar os jogadores trocando passes curtos no meio-campo – ou até atrás da linha central – até que o rival começasse a se movimentar para roubar a bola. Isso abriria espaços na defesa adversária e facilitaria os ataques. Temporizare era o termo usado na época, algo como “atrasar”. Nas últimas décadas, o estilo ganhou outra denominação: tiki-taka.

Niculescu foi reconhecido pela Fifa e pela Uefa como um dos precursores do tiki-taka. Na Romênia, ele é o pai do estilo de jogo e reverenciado eternamente como um dos grandes nomes do esporte do país.

A classificação para a Copa de 1970, por exemplo, encerrou 32 anos de ausência em Mundiais, depois das participações em 1930, 1934 e 1938. A Romênia era o grande azarão do “Grupo da Morte”. O termo, aliás, foi criado naquele Mundial, justamente para aquela chave, que tinha o Brasil, campeão mundial em 1958 e 1962, a Inglaterra, vencedora em 1966, e a Tchecoslováquia, finalista em 1962, como favoritos.

A Romênia já havia falhado nas eliminatórias para o Campeonato Europeu de 1968, ficando em segundo lugar no grupo e vendo a Itália, que se sagraria campeã continental, se classificar. Assim, o time chegou às eliminatórias para a Copa de 1970 sem muitas expectativas. No grupo 1, que também tinha Grécia e novamente, Suíça, Portugal despontava como favorito à vaga. A equipe de Eusébio vinha do terceiro lugar no Mundial de 1966 e tinha no Pantera Negra uma grande esperança.

A vitória por 3 a 0 de Portugal sobre a Romênia na estreia das eliminatórias poderia ser um prenuncio do que viria, mas a história mostra que aconteceu justamente o contrário. A campanha portuguesa começou a ruir logo na segunda rodada, com a derrota por 4 a 2 para a Grécia, enquanto os romenos resolveram reagir. Na última rodada, um empate selou a classificação da surpreendente Romênia.

Como preparação para o Mundial, entre 1969 e 1970, o elenco fez uma turnê por países da América do Sul. Niculescu ficou fascinado pelo Rio de Janeiro, visitou o Cristo Redentor e quase caiu no samba. Percebeu que a tentação seria grande para todo o grupo, que foi para o Peru jogar amistosos. Passado o Carnaval, eles voltaram à “Cidade Maravilhosa” e, um belo dia, o técnico encontrou Garrincha em um bar. O craque o chamou para um papo, que durou horas. Não se sabe o idioma que eles falaram.

No México, a Romêmia repetiu a surpresa, não apenas pelos bons resultados, mas pela ausência de Nicolae Dobrin. O craque da equipe, autor do gol na vitória sobre Portugal nas eliminatórias e, até hoje, tido como um dos maiores da história do país, não atuou no México. O meia-atacante ficou no banco em todos os jogos. O motivo: um castigo pelas escapadas nas noites mexicanas.

A derrota apertada para a Inglaterra na estreia, 1 a 0, não acabou com as esperanças. Pelo contrário, elas aumentaram ainda mais depois dos 2 a 1 sobre a Tchecoslováquia. Assim, uma vitória sobre o Brasil ou até um empate, em caso de igualdade entre ingleses e tchecoslovacos, colocaria a Romênia na próxima fase.

Rumores no México diziam que o Brasil preferia que os romenos avançassem ao invés da Inglaterra, atual campeã do mundo. Assim, “facilitariam” o jogo. Enganaram-se: aos 22min, o time de Zagallo já abria 2 a 0, gols de Pelé, em cobrança de falta, e Jairzinho, finalizando dentro da pequena área. Cinco minutos depois, o lesionado Steve Adameche deixou o campo para a entrada de Necula Raducanu, se tornando o primeiro goleiro a ser substituído na história das Copas.

Os romenos não se entregaram. Ainda no primeiro tempo, aos 34min, Florea Dumitrache, em chute fraco que passou por baixo do goleiro Félix, descontou. Na segunda etapa, aos 22min, após passe de calcanhar de Tostão, Pelé se esticou e fez o terceiro. Seria o 11º e penúltimo gol do “Rei” em Copas, ele voltaria a marcar na final contra a Itália. Emerich Dembrovschi se anteciparia a Félix e faria o segundo aos 39min, mas a Romênia não teve tempo para a reação.

Assim, o Brasil avançava em primeiro do grupo e enfrentaria o Peru, comandado pelo bicampeão mundial Didi, nas quartas de final, em 14 de junho de 1970. Com a vitória da Inglaterra sobre a Tchecoslováquia, a Romênia do esquecido Dobrin e do camisa 11 Mircea Lucescu, que se tornaria um dos técnicos mais renomados da Europa nas décadas seguintes, dava adeus à Copa do México.

Niculescu seguiu com a seleção até 1972, quando voltou a treinar times do país, como fez em toda a carreira. Ele se aposentou em 1984, aos 63 anos, e foi membro honorário da FRF (Federação Romena de Futebol). O técnico morreu em 20 de junho de 2015, aos 93 anos, deixando o legado de um belo futebol na Copa de 1970 e dos primeiros passos do eterno “tiki-taka”.