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Desejo de vitória, temor de julgamento e o reencontro de velhos amigos: as quartas da Copa de 1970 e o embate entre Didi e Zagallo

Jornalistas e historiadores do esporte contam que Didi viveu uma confusão de desejos e sentimentos em 1970, pouco antes das quartas de final da Copa do Mundo disputada no México.

Evidentemente, como técnico do Peru, queria eliminar o Brasil e seguir no torneio com aquele que o país do Império Inca ainda considera, historicamente, seu melhor selecionado.

Mas, bicampeão com a seleção brasileira, temia ser eliminado e acusado de "entregar o jogo". Temia também mandar para casa seus ex-colegas e ser visto não por eles, mas pelo povo brasileiro, como "traidor".

Em 1958, na Suécia, mais do que campeão, fora considerado o melhor jogador do torneio. Em 1962, no Chile, brilhara mais uma vez como um dos principais homens do meio-campo que conquistou o bi.

E nessas duas conquistas, de rabo de olho, à sua esquerda no campo, Didi vislumbrava a mesma silhueta magra que veria naquela 14 de junho, agora no banco de reservas oposto ao seu, no Estádio Jalisco, em Guadalajara.

Ao Jornal do Brasil, Didi elogiara o técnico, mas também o jogador Zagallo e a função tática que ele criara, de extremo recuado, fruto até mesmo de sua falta de recurso técnico, conforme disse.

“E ainda tem uma sorte danada’, brincou.

Já Zagallo, ao mesmo jornal, disse que Didi estava 10 anos à frente dos demais jogadores de seu tempo, quando atuava. E via em Gérson, seu maestro no meio-campo, um espelho do que Didi outrora fora com a "amarelinha".

O reencontro com Zagallo, colega também em esquadrões do Botafogo nos anos 50 e 60, era apenas um dos que o Príncipe Etíope, como fora batizado por Nelson Rodrigues, por sua elegância ao jogar, teria naquele dia.

Mais um veterano de Suécia e Chile estaria do lado de lá. E esse ex-colega era ninguém menos que Pelé.

Mas como é que Didi calhou de se encontrar com o Brasil, como técnico do Peru, nas quartas do Mundial disputado na América do Norte, há exatos 50 anos?

Peru

Didi já tinha um nome a zelar quando recebeu o convite para ser o técnico do Peru e se tornar mais um na lista daqueles empenhados em levar a albiroja para um Mundial.

A tarefa era tão complicada quanto inédita, já que a outra participação da equipe acontecera 40 anos antes, no Uruguai, mas sob convite.

O primeiro contato marcante de Didi com a seleção peruana foi em 1957, nas eliminatórias para a Copa do ano seguinte.

Com a 8 do Brasil, o meia fez o gol de falta que selou a ida dos brasileiros para o Mundial na Europa, relegando os peruanos a mais uma ausência. De “folha seca”, com a bola caindo de supetão, como descreve a crônica esportiva da época.

Didi pisa pela primeira vez em Lima para trabalhar como técnico a favor dos peruanos em 1963, no Sporting Cristal. A ideia era que ele também jogasse, mas o Botafogo dificultou a emissão de sua papelada, e ele foi apenas treinador.

A boa impressão foi tamanha que, em 1967, após encerrar a carreira como atleta, ele voltaria ao Sporting para ser o treinador de fato e efeito da equipe - e conquistar o Nacional de 1968.

Quando a Federação Peruana teve de escolher um nome para comandar o time nas eliminatórias de 1969, o do brasileiro pintou como um dos favoritos.

Decisão mais acertada possível.

Após vitória por 2 a 0 em Lima, o Peru chegaria a La Bombonera, em 31 de agosto, precisando apenas empatar com a Argentina para se garantir na Copa a ser disputada em território azteca no ano seguinte.

Com dois gols de Oswaldo Ramírez, o Peru conseguia o 2 a 2 que o levaria ao México. Foi a última vez que os argentinos ficaram sem vaga para a Copa em eliminatórias.

O caminho até o Brasil

A estreia contra a Bulgária, no grupo 4, veio com uma virada: 3 a 2, depois de sair perdendo por 2 a 0. Contra Marrocos, um 3 a 0 construído no segundo tempo. A derrota para a então Alemanha Ocidental, por 3 a 1, não importava, já que a vaga conquistada pelo Peru já estava sacramentada.

Mas o cruzamento joga a seleção peruana e Didi em um confronto com o Brasil, pelas quartas. E, desse modo, frente a frente com Pelé e Zagallo.

Em entrevistas futuras, Didi contou que temia também a própria reação diante dos acordes do hino nacional brasileiro, antes da partida. Quatro anos antes, outro brasileiro, Otto Glória, havia comandado Portugal, que eliminara o Brasil do Mundial de 1966.

Na Copa de 2006, Zico foi outro brasileiro a duelar com a seleção de seu país. Ele não se conteve e cantou o hino nacional brasileiro em Dortmund, antes da derrota por 4 a 1 do “seu” Japão na Copa disputada na Alemanha.

Já o homem da “folha seca” confessaria, anos depois, ter sentido a boca secar naquele momento.

A partida

Um 4 a 2 levou o Brasil à semifinal contra o Uruguai.

Aos 11min, Tostão ajeitou para Rivellino abrir o placar com um violento chute cruzado. Quatro minutos depois, a parceria se inverteu: Tostão recebeu de Rivellino e, mesmo sem ângulo, e achou espaço entre o goleiro Luis Rubinos e a trave para ampliar. Alberto Gallardo deu esperanças à torcida peruana, também próximo à linha de fundo, diminuindo ainda no primeiro tempo, aos 28min.

No banco peruano, Didi anda, gesticula e fuma sem parar.

Tostão recomeça o segundo tempo ampliando para o Brasil, após passe de Pelé, logo aos 7min. Teófilo Cubillas, aos 25min, faz seu quinto gol na Copa do Mundo e volta a recolocar o Peru no jogo.

Mas, aos 30min, Jairzinho, que faria gols em todos os jogos, fez 4 a 2, selando a vitória brasileira e a eliminação de uma das melhores - a melhor? - seleções peruanas de todos os tempos.

Legado

A participação em 1970 foi um marco para o Peru. A seleção ficou fora da Copa de 1974, sendo derrotada pelo Chile nas eliminatórias, mas voltou em 1978 e 1982. Assim, com três participações em quatro Mundiais, o período ficou conhecido como a "Era de Ouro" do futebol do país.

Didi é tido até hoje como referência e principal impulsionador do futebol no país. Mas, em 1970, ao retornar ao Peru, desligou-se da seleção, conquistou mais um Peruano com o Cristal e foi ser técnico do River Plate da Argentina.

Em 1986, após dirigir, além do River, Fenerbahce, Botafogo, Cruzeiro, Fortaleza, São Paulo, Fluminense, entre outros, fez sua última aparição como técnico no Peru, ao comandar o Alianza Lima.

Voltaria apenas a dirigir o Bangu, entre 1989 e 1990, antes de se aposentar.

Didi morreu em 2001, aos 70 anos, em decorrência de complicações cardíacas.