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Da festa com Simonal aos 5 kg perdidos: as memórias de Clodoaldo, herói de Brasil x Uruguai em 1970

Passados 50 anos, o ex-jogador Clodoaldo conta com orgulho o dia em que Pelé, Tostão, Jairzinho e Gérson correram até ele para abraçá-lo por um gol. Durante a carreira toda, ele é quem corria para festejar com os craques dentro de campo. A história que não se esquece foi em 17 de junho de 1970, quando empatou o confronto com o Uruguai pela Copa do Mundo.

Aquele gol no final do primeiro tempo apagou o temor de muitos e recolocou o Brasil no caminho para chegar a final do torneio. O tento saiu pouco depois de Gérson sugerir uma mudança tática a Clodoaldo e ajudou a espantar o fantasma que rondava os brasileiros desde a derrota para os uruguaios na decisão do Mundial de 1950, no Maracanã. O time venceu por 3 a 1 e foi para a decisão contra a Itália, no estádio Azteca, na Cidade do México, dia 22 de junho.

Natural de Itabaiana, no Sergipe, Clodoaldo tinha 20 anos quando foi campeão do mundo como titular. Por infelicidade, ele não jogou outras Copas. Ainda assim, aos 70, guarda com orgulho e entende ser suficiente as histórias que viveu e protagonizou no México, durante a trajetória da seleção até a conquista do tricampeonato.

Da perda de peso no jogo mais tático e técnico daquela edição até uma festa preparada pelo cantor Wilson Simonal, o ex-volante do Santos contou as memórias que guarda da Copa do Mundo de 1970. Confira:

ESPN – Como o Brasil chegou para enfrentar o Uruguai?
Clodoaldo: Quando chegamos a semifinal, o pessoal falava muito mais do Uruguai, esquecendo um pouco da seleção brasileira. Diziam que eles eram favoritos e que tínhamos de respeitar o Uruguai. Voltou a história de 1950. Eu disfarçava, fazia que não estava dando tanta importância ao passado, mas eu sabia do peso. Dizia aos repórteres: ‘Por que estão lembrando de algo que aconteceu quando eu nem tinha nascido?’. Outros jogadores falavam o mesmo. Foi uma forma de minar aquele ambiente, mas aquilo foi crescendo antes do jogo. Isso mexeu com o grupo. Por mais que eu disfarçasse, a gente sabia do trauma, e sabíamos que o Uruguai era um time forte na marcação, que ia ter mais o confronto em campo.

Foi o jogo com mais pressão e mais pegada que fizemos na Copa. Basta você lembrar o revide do Pelé, quando ele corre na lateral e deixa o cotovelo em um uruguaio [Dagoberto Fontes]. A gente já tinha o conhecimento que seria pegado assim. Fomos alertados para não entrar na pilha deles, mas no primeiro tempo foi inevitável. Entramos nesse clima e procuramos jogar um jogo mais pegado do que técnico, que era nosso forte. Foi um primeiro tempo bem confuso. Aquela pressão que antecedeu o jogo foi pra campo. O Uruguai saiu na frente e o empate veio no fim, quando colocamos a cabeça em campo.

ESPN – A história que ficou é que o Gérson orientou o time em campo, sugerindo trocar de posição com você. Assim, ele atuaria mais recuado e você mais solto. Foi isso mesmo?
Clodoaldo: Teve um lance em que a bola saiu pela linha de fundo e o Carlos Alberto, nosso capitão, e o Gérson me chamaram. Foi uma conversa rápida. O Gérson não estava conseguindo jogar na função dele porque o Uruguai reforçou a marcação. Eles me explicaram que a gente faria essa troca. Gérson disse: ‘Agora é você quem vai começar a sair pro jogo. Eu vou ficar no seu lugar, marcando, porque tô sem espaço para jogar’. Eu comecei a sair um pouquinho mais.

Já perto do fim do primeiro tempo, eu recebi a bola do Everaldo e lancei pro Tostão [na esquerda]. Nisso abriu um corredor pra mim. Avancei até a área e o Tostão devolveu a bola. Quando eu me preparei para chutar ao gol, um uruguaio me empurrou. Quando a bola entra no gol e eu estou caído no gramado. Quando levanto para comemorar, o Pelé já vem correndo e me abraça. Nem deu tempo de eu mesmo festejar. Os outros jogadores vieram e, de repente, todo mundo estava me abraçando.

Eu tava acostumado a correr do meio de campo até eles para festejar, mas naquele momento eram aquelas feras que estavam me abraçando. Eu jogava atrás desses cinco jogadores [Gérson, Rivellino, Jairzinho, Pelé e Tostão]. Dificilmente passava à frente. Foi sugestão do nosso capita e do Gérson. Depois do gol até fui mais ousado no jogo [risos].

ESPN – A história registra três gols do Clodoaldo pela seleção. O que aquele lance representa para você?
Clodoaldo: O torcedor brasileiro deu uma importância muito grande ao gol porque ele foi decisivo. O contexto do jogo era complicado e os uruguaios estavam conseguindo fazer a partida ficar no gosto deles. Ficou tão marcado como o quarto gol do Brasil contra a Itália, do Carlos Alberto, em que todos os jogadores participaram. Foi um verdadeiro balé em campo. Agora o jogo que me marcou mais foi contra a Inglaterra. Eu me superei na parte física. Aos 40 do segundo tempo, debaixo do Sol do meio-dia, eu dei um pique e o [Admildo] Chirol [preparador físico] gritou do banco: ‘Que isso, garoto?’ [risos].

Eu perdi muito peso naquele jogo. Em média, eu perdia dois quilos, mas naquele dia a comissão técnica registrou cinco quilos. Depois do jogo me deram melancia e outras coisas para eu me recuperar. Eu tive de fazer uma alimentação diferenciada. Foram os três jogos mais importantes, mas o gol contra o Uruguai acabou me marcando mais para o torcedor.

ESPN – Cinco quilos em um jogo? Era possível perder tanto assim?
Clodoaldo: Perdi cinco. Acho que deve ter nos registros da CBD. Eu corria muito. No verão eu perdia dois ou três quilos, no máximo. Pode ser que tenha jogador que perca mais. Eu perdi cinco contra a Inglaterra porque foi um adversário exigiu muito da nossa seleção. Foi disputado ao meio-dia. Estava muito quente. O próprio resultado mostra isso. Teve a famosa defesa do Gordon Banks. Depois uma defesaça do Félix. Vencemos por 1 a 0, mas se eles tivessem vencido seria justo. Eles tinham um time muito bem preparado fisicamente. O que fez a diferença foi que nós também caprichamos. Os 21 dias que ficamos em Guanajuato [numa altitude de mais de 2.000m acima do nível do mar] foi perfeito. A gente passeava fisicamente.

ESPN – Quais outras partidas você acha que o preparo físico foi fundamental para a vitória?
Clodoaldo: Contra o Uruguai. Se você assistir ao segundo tempo, nós atropelamos na questão técnica e também na questão física. A importância do gol que fiz foi essa. Voltamos para o segundo tempo tranquilo. Se voltássemos atrás, seria aquela dificuldade diante da defesa deles. Em igualdade, a diferença do preparo falou mais alto.

ESPN – Ajudou muito o trabalho feito pelo Parreira e pelo Rogério, "espiando" os adversários?
Clodoaldo: Eles ‘espiavam’ usando uma maquininha fotográfica e depois apresentavam slides com as informações. Acredito que foi importante. Aquilo ia primeiro pro Zagallo, Chirol e Claudio Coutinho [preparador físico]. Eles passavam as qualidades dos adversários que a gente enfrentaria. Era uma forma de estudar. Na época, o contato entre os times era mais corpo a corpo.

A partir do que eles traziam, a gente entrava em campo já entendendo o adversário, sabendo como ia sofrer e como podia vencer. Mas o futebol também é imprevisível. Tem jogo que você pensa que não vai sofrer e sofre. Mesmo jogando bem, perde as oportunidades. Aí o adversário acha um gol e muda tudo. Sofremos com a Romênia e com o Uruguai.

ESPN – No início da entrevista você mencionou a lembrança de 1950. Os uruguaios chegaram a fazer provocações relembrando a final do Mundial de 1950?
Clodoaldo: Não, não. A lembrança vinha da imprensa que cobria a seleção. Era inevitável. Foi a primeira vez que o Brasil enfrentou o Uruguai em uma Copa após 1950. É uma pena que aquela geração seja lembrada dessa forma. Se você analisar, me parece que era uma seleção fantástica. Teve a fatalidade de perder. Não merecia.

ESPN – Teve algo referente ao Mundial de 1950 na preleção? Qual era o clima?
Clodoaldo: Gérson, Pelé, Carlos Alberto eram os que sempre falavam. Tinha o Brito, mais pilhado, também. Mas quem conduzia era o Zagallo. Ele era muito emotivo. Começava a falar e você sentia aquela motivação, aquela gana pela vitória. Ele falava do país, de sermos patriotas, de darmos orgulho aos brasileiros etc. Todo jogo era assim.

Diante do Uruguai foi assim. Ele disse que o povo esperava nosso triunfo pra poder sorrir. No intervalo ele ficou bravo. Disse que nosso time estava respeitando demais o Uruguai. Mandou irmos pra cima e disse que o país esperava mais de nós.

ESPN – Como foi depois do jogo, com quem você falou sobre o gol?
Clodoaldo: Falei com a minha namorada, Clery [Santana], que até hoje esta comigo e virou minha esposa [eles se casaram em 1974]. Foi a primeira coisa que fiz ao chegar ao hotel. Peguei o telefone e perguntei como estava a festa em Santos. Eu era um garoto de 20 anos e era muito emotivo. Chorei de saudade. Não tem como. São momentos que ficam eternizados.

ESPN – Quando a partida acabou e vocês tinham diante de si apenas a final, qual era o sentimento?
Clodoaldo: A pergunta era uma só: vai dar? Meu companheiro de quarto era o Carlos Alberto, nosso capita, e eu perguntava isso o tempo todo, desde o primeiro jogo. Ele dizia que sim, que a gente iria ser campeão. Talvez por eu ser um garoto aquilo me enchia de confiança. Não perdemos o foco na taça. A gente trabalhou muito em cima do desgaste que a Itália teve na semifinal contra a Alemanha [jogo terminou na prorrogação]. Todos estavam confiantes no título.

ESPN – Você falou que o Gérson e o Carlos Alberto mudaram o jeito do time jogar contra o Uruguai. Citou agora o efeito positivo ao ouvir do capitão que era possível ser campeão. Os jogadores ajudavam o Zagallo a tomar as decisões?
Clodoaldo:
É uma questão de inteligência. Se você está no mesmo barco e pode ouvir, aceitar algumas sugestões, por quê não? O Zagallo fazia isso. Como ex-atleta, ele tinha vivência. Ele sabia que o diálogo unia o grupo. Era inteligente por parte dele. Sempre aberto a conversa com o grupo. A todo momento isso acontecia. A gente tinha reuniões diárias e ele abria para que todos pudessem falar. Ele tinha a confiança de todos. Alguns com mais liderança, se pronunciavam mais. O Gérson participava muito. Ele gostava de ouvir. Era a forma inteligente de usar a vivência de ex-atleta para ser técnico de uma seleção vitoriosa.

ESPN – Teve algum bastidor daquela vitória para contar 50 anos depois?
Clodoaldo:
Todos nós choramos após o gol do Carlos Alberto contra a Itália. Choramos em campo. Você conhece essa? A gente já sabia que seria campeão e com aquele gol era questão de alguns minutos. A emoção simplesmente aflorou. O Gérson chorou. O Riva. Eu. Até o Pelé. Não tinha como conter as lágrimas. Era um choro de felicidade. Com o apito final e a invasão campal, essa corrente foi quebrada. A gente não teve tempo de se abraçar coletivamente e chorar pela conquista. A gente até ficou com medo quando viu tanta gente invadindo o campo. Quando chegamos ao hotel ainda tinha alguns chorando pela vitória. Era choro real, mas choro de alegria. Tinha uma torcida concentrada em frente ao nosso hotel e o Simonal fez uma festa especial. Ele era nosso 23º jogador. Estava conosco o tempo todo. A festa foi emocionante na Cidade do México.

ESPN – Você tinha 20 anos. Por que não te vimos nas duas Copas seguintes?
Clodoaldo:
Por infelicidade. Eu estava no grupo de 1974, mas me machuquei. Fui até onde deu, acreditando que com 24 anos fosse me recuperar, mas não deu. Acho que o Mundial na Alemanha seria melhor para mim. Estava mais maduro, tinha mais liderança. Eu comecei muito cedo, em 1967, sempre jogando com feras. Em 1978, eu estava bem, era cotado, mas em um amistoso do Santos na Argentina, acho que contra o time do Maradona [Argentinos Juniors], sofri um estiramento. Nem pude ser convocado. Ainda bem que a primeira Copa que joguei foi tão marcante que valeu pelas duas que não pude ir.

ESPN – Você sabia que o time que encantou o mundo ao derrotar a Itália por 4 a 1 só fez quatro apresentações juntas? Três foram na Copa de 1970 e a outra foi em um amistoso depois do Mundial.
Clodoaldo:
Não pode ser verdade. Aquele time parecia que nasceu jogando junto. A impressão que a gente fica é que estava junto desde o início. É um dado que realmente impressionante. Três vez juntos? Ficou tão marcado na Copa. Ficou eternizado, como você disse, que eu jamais teria imaginado que fossem tão poucos jogos. Era para ser.