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Desconstruindo Cristiano Ronaldo: o garoto que quase não nasceu, se tornou 'filho' de Felipão e amigo de todo mundo

Cristiano Ronaldo quase não veio ao mundo. A mãe, Dolores Aveiro, admite que pensou e tentou o aborto. Não deu certo. Nasceu o quarto filho, o médico até disse "esse bebê tem peso de jogador", e o futebol ganhou um dos atletas mais dominantes do século, já eternizado na história do esporte.

Dolores, aliás, é peça-fundamental na carreira e na vida do jogador. O pai, José Diniz Aveiro, viveu os horrores da guerra em Angola. Com ela, vieram o alcoolismo e a violência doméstica. A relação com os filhos nunca foi próxima. Mesmo assim, ele afirmava aos amigos: "Meu filho vai ser o melhor jogador do mundo".

Não deu tempo de a profecia se concretizar. Ele morreu em 2005 e para sempre vai deixar Ronaldo com lágrimas nos olhos.

A triste notícia foi dada pelo técnico Luiz Felipe Scolari. Se o pai biológico se fora, um pai boleiro nascia. O técnico criou uma relação que vai além da bola em seu período à frente da seleção portuguesa, de 2003 a 2008. A amizade e o carinho permanecem até hoje.

Por falar em amizade, a "marra" que Cristiano Ronaldo aparenta é apenas nas fotos. Ídolo no Manchester United, no Real Madrid e na Juventus, fora de campo, o português, generoso, parceiro, amigo, é dos mais queridos.

Abaixo, a "desconstrução" de CR7, verdadeira lenda viva do futebol mundial:

Ele quase não nasceu

Felipão, o "paizão"

“Ser o número 1 e ele não ver nada. Ele não me viu receber os prêmios. Minha família vê, minha mãe, meus irmãos, mesmo meu filho mais velho. Mas meu pai não viu nada. Eu não conheci de verdade meu pai, cem por cento. Ele era alcóolatra. Nunca conversei com ele, uma conversa de verdade. Era difícil."

Cristiano Ronaldo, sobre o pai

[Scolari revelou, em algumas entrevistas, que foi o responsável por dar ao atacante a notícia da morte de seu pai antes de um jogo na Rússia, em setembro de 2005, pelas eliminatórias da Copa de 2006.] "Tivemos muita cumplicidade. Ele chorou por muito tempo, ficou mais estreito nosso relacionamento. Mesmo com a notícia, ele fez questão de jogar e disse: 'Meu pai gostava que eu jogasse, fez tudo na vida para que eu jogasse'."

"Depois de o pai dele morrer, ele me disse que eu lhe dei muitos conselhos, como se fosse um pai. Ele começou comigo muito jovem na seleção, com 17, 18 anos, chamou-me pai desde então e o apelido ficou até hoje."

Luiz Felipe Scolari, ex-técnico de Portugal

Ronaldo, o amigo

"Levei meu filho, um amigo e o filho dele para conhecerem o Cristiano em Campinas, durante a Copa do Mundo, pois sou muito amigo do Jorge Mendes. Quando chegamos lá, perguntei se ele podia tirar uma foto com meu filho, e ele respondeu: 'Você não é o Nem, que jogava no Braga?'. "No fim, nós sentamos e conversamos um bom tempo, tiramos várias fotos, contamos piadas, foi muito bacana. Eu disse a ele que, no dia em que ele jogou contra o United, eu estava lá e tinha visto a história ser feita."

Nem, zagueiro que jogou no Braga e viu o começo da carreira de Cristiano Ronaldo no Sporting

"Ronaldo faz bem a muita gente e é criticado por muita gente. Eu penso que ele é mais querido. Sempre digo: 'Ronaldo, faz bem. Porque você dá com uma mão, Deus te dá com as duas'. Nos sentimos bem fazendo o bem para os outros. Eu também fiz o meu livro com intuito de ajudar."

Dolores Aveiro, mãe de Cristiano Ronaldo

"Acho legal da parte dele essa valorização da família. Aonde ele vai leva a mãe, a irmã e o filho. Acho muito importante isso para ele se manter no topo porque o apoio deles é fundamental. O que mais me impressiona é que mesmo com o tamanho dele no futebol mundial e por tudo o que conquistou ele é uma pessoa extremamente simples. Ele troca ideia de uma forma muito tranquila, passa experiência e escuta muito de cada um."

Danilo, lateral que jogou com Cristiano Ronaldo no Real Madrid e na Juventus

"Às vezes ele brincava que a gente não falava português, mas 'brasileiro'. E que o verdadeiro português era o deles. Não tínhamos uma diferença de idade tão grande e o primeiro contato foi sensacional, porque conversarmos mais por causa do idioma e fazíamos aulas de inglês juntos. Tínhamos muito contato porque a minha família se tornou amiga da dele. Fazíamos jantares e churrascos juntos. Um ajudava ao outro no começo."

Kleberson, que foi apresentado ao lado de Cristiano Ronaldo no Manchester United

"Ele ajudou a mostrar que eu preciso ser um atleta, não apenas um jogador de futebol. A minha experiência lá foi para captar isso e trazer para a minha carreira e para a minha vida. Ele é um cara espetacular, está sempre disposto a ajudar e a ensinar o melhor caminho. Todo mundo lá [no Real Madrid] o adora. Ele cumprimenta todos, é fantástico. Está no lugar que está porque é humilde e trabalha demais."

Pablo, atacante do São Paulo, que jogou com Ronaldo no Real Madrid

"O Cristiano Ronaldo chegou na terça, já me cumprimentou e me deu os parabéns por ter sido convocado. Fomos para o treino e achei uma pessoa espetacular. É um exemplo dentro e fora de campo. Se antes já era fã, agora fiquei ainda mais. O homem é f***, deixa a gente à vontade, brinca, dá risada.... Está ali na conversa, mas também é muito profissional. Ele me falava da vida dele e perguntava sobre a minha vida."

"A base e o profissional comiam no mesmo refeitório. Eu estava lá, colocando o pão na bandeja, e nisso chegou 'o homem' do meu lado. Ele perguntou: 'Você é brasileiro?' Respondi: 'Sou sim'. 'Muito prazer, o que você precisar eu te ajudo', disse ele. Foi de uma humildade fora do comum. As pessoas acham que ele é marrento, mas é um cara fantástico. Ele estava no auge e era o melhor do mundo", elogiou.

Rafael Leão, atacante que jogou com Cristiano Ronaldo no Manchester United

Os ídolos

"Ele via muito futebol português na infância e gostava muito do Luis Figo, João Pinto e Rui Costa. Eram os três jogadores que estavam no top. Ele via futebol e falava: 'Mãe ainda vou ser como eles'. Eu respondia: 'Filho, se é isso que tu queres, lute que vais conseguir'. Mas nunca imaginei que ele chegaria ao ponto que chegou."

Dolores Aveiro, mãe de Cristiano Ronaldo

O começo

"Eu saí do Atlético-MG e fui para Portugal assinar contrato com o Braga, mas o presidente estava em Lisboa. Ele estava com o Jorge Mendes [empresário de CR7] e eles me convidaram para ver o jogo entre Sporting e United. Hoje eu te digo: graças a Deus eu tive a oportunidade de ver aquele moleque jogando. Naquele dia, eu já tinha certeza que ele seria um dos grandes. Ele arrebentou os caras naquele dia, jogou muito. Tanto é que, quando desceu para os vestiários, já era jogador do Manchester (risos). O Ferguson ficou maluco quando viu o menino. Os caras do Sporting colocaram o Cristiano para jogar porque tinham certeza que ele iria arrebentar, e não deu outra."

Nem, zagueiro que jogou no Braga e viu o começo da carreira de Cristiano Ronaldo no Sporting

Coadjuvante no United?

"Quando cheguei ao Manchester para assinar contrato, estava lá um empresário com um atleta falando português. 'Quem é esse menino?’. Daí, me falaram que era o Cristiano, do Sporting, que tinha acabado com um amistoso de pré-temporada e sido contratado."

"No primeiro treino, era claro que ele ia estourar. Ele tinha 18 anos e tinha qualidade técnica e criatividade. Ainda mais no futebol inglês, que não tinha tantos jogadores como ele. Dava para ver fácil que poderia dar certo no United."

Kleberson, que foi apresentado ao lado de Cristiano Ronaldo no Manchester United

O resto é história...