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Quem é Cristiano Ronaldo? Histórias do garoto bom de garfo e cheio de amigos brasileiros que chegou aos 700 gols

Cristiano Ronaldo, 700 gols na carreira.

E pensar que a máquina de fazer gols quase não veio ao mundo. Sentiu e ainda sente muito a morte do pai. Mas se focou no futebol para tocar a vida.

Não foi por acaso que “CR700” se tornou um dos maiores jogadores da história. Ele se moldou para ser uma máquina em campo. Virou obcecado por treinar e se aprimorar.

Esqueceu da família? Jamais.

“Mascarou”? Afinal, ele parece mais preocupado com a aparência do que com o futebol, pelo menos é o que aparentam as redes sociais, certo? Para quem conviveu com ele, errado.

Com a palavra, parentes, amigos, companheiros de time e ex-técnico respondem a pergunta: afinal, quem é Cristiano Ronaldo?

Aborto?

Dolores Aveiro, mãe de Cristiano Ronaldo (ASSISTA): "Eu tinha 30 anos, já tinha três filhos. Com as dificuldades que estava passando na minha vida eu pensei: 'o que eu vou fazer com mais uma criança e tantas dificuldades'. Muita gente dizia antigamente que beber uma cerveja preta fazia abortar. Fiz muita coisa, bebi muitos chás, mas não consegui."

"Quando dei à luz foi uma alegria. Era mais um filho e veio perfeito. Eu fiquei com aquela coisa na cabeça, como eu tinha bebido muito chá, pensei que poderia vir com algum problema."

"Uma coisa que eu lembro foi quando o médico disse: 'esse bebê tem peso de jogador'", conta. "E eu pensei: 'será que ele vai ser um jogador?'.”

Garoto esperto

Dolores Aveiro (LEIA MAIS): "Ronaldo era uma criança traquina, só pensava em jogar bola e não estudar (risos). Mas era uma criança bem-educada. Todos os pais pensam no melhor para os filhos. Doutor eu não pensava [que ele iria virar] porque na minha família não há doutores. Mas queria que fosse uma pessoa que trabalhasse e ganhasse seu dinheiro de forma honrada."

Ídolos

Dolores Aveiro: "Ele via muito futebol português na infância e gostava muito do Luis Figo, João Pinto e Rui Costa. Eram os três jogadores que estavam no top. Ele via futebol e falava: 'Mãe ainda vou ser como eles'. Eu respondia: 'Filho, se é isso que tu queres, lute que vais conseguir'. Mas nunca imaginei que ele chegaria ao ponto que chegou."

Pai

José Dinis Aveiro era alcoólatra e morreu com problemas no fígado em 2005, ainda nas primeiras temporadas de CR7 no Manchester United. LEIA MAIS.

Dolores Aveiro: "Eu me considero uma mulher lutadora. Ele também tem bastante do pai, que o ajudou. Nossa família vive futebol e claro que isso ajudou o Ronaldo a jogar futebol. Se não gostássemos de futebol, nunca deixaríamos ele ir para Lisboa aos 12 anos. Eu poderia pensar: 'Bem, estou a abandonar o meu filho'. Mas não cortei-lhe as asas, abri a estrada para que ele pudesse voar."

Cristiano Ronaldo: “Ser o número um e ele não ver nada. Ele não me viu receber os prêmios. Minha família vê, minha mãe, meus irmãos, mesmo meu filho mais velho. Mas meu pai não viu nada.”

“Eu não conheci de verdade meu pai, cem por cento. Ele era alcóolatra. Nunca conversei com ele, uma conversa de verdade. Era difícil.

"É o jogador que qualquer técnico quer ter. E é o filho que qualquer pai quer ter." Luiz Felipe Scolari sobre Cristiano Ronaldo

Luiz Felipe Scolari, ex-técnico de Portugal, revelou, em algumas entrevistas, que foi o responsável por dar ao atacante a notícia da morte de seu pai antes de um jogo na Rússia, em setembro de 2005, pelas eliminatórias da Copa de 2006 (LEIA MAIS): "Tivemos muita cumplicidade. Ele chorou por muito tempo, ficou mais estreito nosso relacionamento. Mesmo com a notícia, ele fez questão de jogar e disse: 'Meu pai gostava que eu jogasse, fez tudo na vida para que eu jogasse'."

"Depois de o pai dele morrer, ele me disse que eu lhe dei muitos conselhos, como se fosse um pai. Ele começou comigo muito jovem na seleção, com 17, 18 anos, chamou-me pai desde então e o apelido ficou até hoje."

Começo da carreira

Dolores Aveiro: "Custou muito [deixar Ronaldo ir para Lisboa]. Meu coração estava partido, mas tive o apoio dos meus filhos e foi por uma boa causa. Falava para ele: 'Vai, mas se não der certo você pode voltar porque as portas de casa estarão sempre abertas'. E a gente sempre esteve ao lado dele como ele sempre esteve ao meu lado."

Gratidão

Dolores Aveiro: "Tudo que ele faz por mim sempre foi por amor. Mas a coisa que mais marcou, eu com 51 anos, consegui tirar minha carta de motorista. Eu pensei: 'Com essa idade, não vou conseguir'. Mas consegui e ele fez uma surpresa. Ele me pagou a carta, mas eu tive que estudar para conseguir (risos)."

"Ronaldo faz bem a muita gente e é criticado por muita gente. Eu penso que ele é mais querido. Sempre digo: 'Ronaldo, faz bem. Porque você dá com uma mão, Deus te dá com as duas'. Nos sentimos bem fazendo o bem para os outros. Eu também fiz o meu livro com intuito de ajudar."

Danilo, lateral, hoje na Juventus (LEIA MAIS): "Acho legal da parte dele essa valorização da família. Aonde ele vai leva a mãe, a irmã e o filho. Acho muito importante isso para ele se manter no topo porque o apoio deles é fundamental."

Pratos preferidos

Dolores Aveiro: "A gente sempre gosta de fazer um churrasco em família. Os pratos preferidos dele são o bacalhau à Brás e o cozido à portuguesa. Também gosta de macarrão, guizada... Ele é bom de bico, gosta de tudo! (risos)."

Conselheiro

Pablo, atacante, hoje no São Paulo (LEIA MAIS): "Logo na primeira atividade que fiz com o grupo principal, a gente estava treinando finalizações. Eu fui e chutei de um jeito. Quando voltei para a fila, o Cristiano chegou perto de mim e me falou para mudar o estilo do pé. Disse que era para bater de chapa porque seria mais seguro e mais fácil de a bola entrar daquela maneira. Nestas horas você capta a mensagem de que o cara quer te ajudar, e isso me marcou muito. Contei para os meus amigos e meu pai. Em um trabalho de finalização em cruzamentos, ele falou algo, eu ouvi e até já fiz gol assim."

"Ele ajudou a mostrar que eu preciso ser um atleta, não apenas um jogador de futebol. A minha experiência lá foi para captar isso e trazer para a minha carreira e para a minha vida.”

Danilo: "Recebi muito apoio dele dentro do clube e nos jogos. É uma referência mundial. Fico muito feliz por estar perto dele."

Tietado

Pablo: "Ele aceitou sem problemas [quando pedi para tirar uma foto com ele]. É uma situação inusitada porque ninguém de dentro do grupo pede isso e eu fui cara de pau. Disse que meus amigos no Brasil estavam pedindo e eu precisava mandar. Ele é um cara espetacular, está sempre disposto a ajudar e a ensinar o melhor caminho."

Romário, zagueiro, hoje no Afturelding: "Eu não sabia onde ficava e fui conhecer, gostei muito e até tirei foto porque é muito grande. Você vê uma estátua de um grande jogador que é hoje e que não mora mais lá, mas o respeito que ele tem é muito grande. Pus a mão no pé direito dele pra pegar um pouco da habilidade (risos). Pedi uma ‘benção' lá, para pegar bons fluidos (risos)."

Amigo

Pablo: "Todo mundo lá o adora. Ele cumprimenta todos, é fantástico. Está no lugar que está porque é humilde e trabalha demais, além da qualidade dele. Essa liderança e o carinho que os outros têm por ele ficaram mais do que provadas na Eurocopa agora."

Fama?

Danilo: "O que mais me impressiona é que mesmo com o tamanho dele no futebol mundial e por tudo o que conquistou ele é uma pessoa extremamente simples. Ele troca ideia de uma forma muito tranquila, passa experiência e escuta muito de cada um."

Dyego Souza, atacante brasileiro naturalizado português, hoje no Shenzhen (LEIA MAIS): "Ele me falou que, pela fama, precisa ter ainda mais cuidado com ele próprio por ser o melhor do mundo várias vezes. Para ele, não basta ir bem somente em um jogo porque as pessoas já esquecem. Tem que brigar para estar sempre bem. E a forma como ele trabalha e se entrega deixa muita gente impressionada. Pelo tempo que passamos juntos deu para ver que merece tudo que tem."

Rafael Leão, atacante, ex-Manchester United, hoje aposentado (LEIA MAIS): "A base e o profissional comiam no mesmo refeitório. Eu estava lá, colocando o pão na bandeja, e nisso chegou 'o homem' do meu lado. Ele perguntou: 'Você é brasileiro?' Respondi: 'Sou sim'. 'Muito prazer, o que você precisar eu te ajudo', disse ele. Foi de uma humildade fora do comum. As pessoas acham que ele é marrento, mas é um cara fantástico. Ele estava no auge e era o melhor do mundo", elogiou.

Videogame

Ivan, goleiro, hoje na Ponte Preta (LEIA MAIS): “Curto jogar um Fifa em casa no videogame. Geralmente pego a Juventus porque gosto muito do jeito que o Cristiano Ronaldo joga. Nos rachões, eu vou para o ataque e costumo fazer uns gols e comemoro como o CR7!”

Inspiração

Ivan: “Ele é um espelho para todos nós seguirmos porque trabalha demais como a gente. Os goleiros são os primeiros a chegarem e os últimos a saírem.”

Dyego Souza: "O Cristiano Ronaldo chegou na terça, já me cumprimentou e me deu os parabéns por ter sido convocado. Fomos para o treino e achei uma pessoa espetacular. É um exemplo dentro e fora de campo. Se antes já era fã, agora fiquei ainda mais. O homem é foda, deixa a gente à vontade, brinca, dá risada.... Está ali na conversa, mas também é muito profissional. Ele me falava da vida dele e perguntava sobre a minha vida."

Matheus Pereira, meia da Juventus, hoje emprestado ao Dijon (LEIA MAIS): “Eu espero poder aprender com ele. Vamos tentar pegar o que tem de melhor. Dentro de campo o que mais me impressionou foi a forma como ele trabalha, sempre dá 100%. Nunca faz as coisas pela metade. Sempre faz bem feito. Nos treinos ele sempre dá o melhor. Isso motiva todo mundo. Você vê isso e pensa: 'Preciso fazer igual'."

Antônio Carlos, zagueiro, hoje no Palmeiras, falando sobre a passagem de Felipão no clube (LEIA MAIS): "Ele [Felipão] conta também as histórias do Cristiano Ronaldo. Ele disse que o CR7 era sempre o primeiro a chegar e o último sair dos treinos da seleção portuguesa. Quando acabava o treino, aliás, ele ainda ficava chutava umas 500 bolas no gol de tudo que era jeito (risos). Treinava falta e tudo mais."

"Acho muito importante o Felipão falar isso para gente, pois o Cristiano é um cara tão conceituado e hoje melhor do mundo, mas moldou e evoluiu seu futebol a partir de muito trabalho. E ele ainda está treinando bastante, e é muito importante sabermos disso, pois são esses exemplos que a gente tem que mirar.”

"Ouvir tudo isso sobre o CR7 nos deu uma motivação ainda maior para trabalhar. Sempre ficamos aprimorando nos treinos. Quando você treina um pouco a mais, aí é que vem a evolução, como fala o professor Felipão. É bastante gratificante evoluir sob o comando de um cara multicampeão, que ganhou títulos por onde passou."

Dieta

Pablo: "O Cristiano come certo todos os dias e dificilmente sai da rotina. Isso é algo que ocorre com todos do time. Tem um menino que jogava comigo no time B que era o Jesé Rodríguez. Eu o via nas refeições no nosso time B e ele comia plenamente. Eu comia muito doce, percebi que precisava abdicar um pouco. Lá tinha mais iogurte natural, pouco doce. Hoje o atleta está mudando e tende cada vez mais a ser uma atleta e mais centrado, mais consciente porque precisa do corpo para aguentar jogar todos os dias."

Brasileiro?

Danilo: "O Cristiano conviveu muito anos com o Marcelo, que é o típico brasileiro carioca: extrovertido, feliz e sempre cantando (risos). Acho que ele se identifica muito com o estilo dos brasileiros e gosta da nossa alegria."

Rafael Leão: Eles [os gêmeos Fábio e Rafael, que saíram do Fluminense para o United] faziam churrascos na casa deles que iam Nani e Ronaldo, que eram gente boa demais. Os brasileiros e os portugueses do United eram bem unidos."

Afinal, quem é Cristiano Ronaldo?

Felipão: "É o jogador que qualquer técnico quer ter. E é o filho que qualquer pai quer ter."