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Seleção: Ivan, surpresa de Tite, pedalava 22 km até os treinos e comemora como Cristiano Ronaldo

Surpresa entre os convocados por Tite para os amistosos da seleção brasileira, o goleiro Ivan é uma das maiores promessas da Ponte Preta nos últimos anos. O jogador de 22 anos começou a jogar bola em um projeto social em Rio das Pedras, interior de São Paulo, na qual ele precisava ir de bicicleta.

"Eu pedalava todos os dias uns 22 km até os treinos por uns quatro meses. Estava feliz da vida em realizar meu sonho, que era jogar bola", contou, ao ESPN.com.br.

Depois, o arqueiro passou dois anos na base do Guarani, onde aprimorou sua técnica.

"Em determinada bolas, quando ficava cara a cara com o atacante, eu tinha um pouco de medo e virava o rosto. Para perder isso, o Roberto, preparador de goleiros, me colocava de joelhos, amarrava as minhas mãos com ataduras e chutava. Isso me ajudou muito", afirmou.

Ivan foi para a Ponte Preta em 2013 e subiu aos profissionais no ano retrasado. Sua primeira partida como titular foi na vitória por 1 a 0 contra o Corinthians, no Paulistão de 2018.

"Eu peguei o pênalti do Jadson nesse jogo. Tinha visto vários vídeos dele, mas pulei no canto que ele não costumava bater. Assim que ele abaixou a cabeça, eu esperei um pouco e pulei", contou o goleiro, que pela seleção olímpica também defendeu uma penalidade na final do Torneio de Toulon vencida contra o Japão.

Desde então, foram mais de 90 jogos como titular da equipe de Campinas. Na sexta-feira, ele ficou sabendo de sua convocação para a seleção principal no voo de volta de Florianópolis.

Veja a entrevista completa com Ivan:

Como foi seu começo no futebol?
Sempre fui goleiro desde moleque e era muito alto e não tinha tanta habilidade. Jogava com os mais velhos e conseguia defender. Sou de Piracicaba e fui morar em Rio das Pedras. Passei toda infância por lá e sempre gostei de futebol e joguei desde garoto. Meu primeiro passo foi uma escolinha chamada Semel Rio das pedra um projeto todo humilde e gratuito. Me apaixonei pela profissão.

Quais eram seus ídolos?
Eu cresci vendo o Marcos, Dida e o Rogério Ceni. Era as minhas maiores inspirações e para mim são os melhores até hoje.

E quais goleiros da Europa você curte? Tem alguns deles que você se identifica?
Eu me espelho muito no Oblak (Atlético de Madrid), Buffon (Juventus), Ter Stegen (Barcelona), Neuer (Bayern de Munique), De Gea (Manchester United) e Courtois (Real Madrid). Mas de todos eles, o Oblak é o que tem as mesmas características que eu. Sou um goleiro alto, mas gosto de estar sempre bem posicionado porque um chute você pode defender.

Quais as maiores dificuldades que passou na carreira?
Eu gostava muito de jogar, mas não tínhamos condições de ir para uma escolinha. No começo, o vereador do meu bairro me levava par treinar, mas depois por causa do horário não deu mais. Minha mãe comprou uma bicicleta no centro para eu ir. Fiquei tão feliz que peguei a bicicleta e já fui para casa. Eu pedalava todos os dias uns 22 km até os treinos por uns quatro meses. Estava feliz da vida em realizar meu sonho, que era jogar bola.

Como você entrou na base do Guarani?
Passei uns meses na escolinha e uma vez fizemos um amistoso contra a equipe sub-15 do Guarani. Eu tinha 13 anos, nós vencemos por 1 a 0 e fui muito bem. Dois dias depois, o treinador do Guarani, o Odair, tinha falou com o treinador da escolinha para ir ao Brinco de Ouro. Isso foi em 2011. Fiquei lá por dois anos, foi meu primeiro clube e passei uma experiência muito boa.

É verdade que você tinha um pouco de medo?
Sim, eu tinha uns 13 anos e era bom goleiro. Mas em determinada bolas, quando era cara a cara com o atacante, eu tinha um pouco de medo e virava o rosto. Para perder isso, o Roberto, preparador de goleiros, me colocava de joelhos, amarrava as minhas mãos com ataduras e chutava. Isso me ajudou muito.

Como foi a troca pela Ponte?
Foi em 2013. Eu não tinha contrato profissional com o Guarani, que vivia um momento muito difícil. Várias pessoas saíram de lá, incluindo o Roberto, o preparador de goleiros. Ele foi para a Ponte e me indicou. Como não tinha contrato, eu troquei a avenida, como dizem. Foi uma das melhores coisas da minha vida. Tudo que estou vivendo é por causa da Ponte.

Você sempre foi visto como uma promessa na base...
Sempre joguei uma categoria acima. Em 2017, estreei como profissional por alguns minutos contra o Coritiba. Mas em 2018, fiz meu primeiro jogo como titular da Ponte e nós saímos vencedores. Isso marcou demais a minha carreira.

Foi aí que começou a fama de pegador de pênaltis?
Eu peguei o pênalti do Jadson nesse jogo. Tinha visto vários vídeos dele, mas pulei no canto que ele não costumava bater. O Jadson geralmente batia cruzado, mas pelo momento eu fui. Tentei usar isso ao meu favor. Assim que ele abaixou a cabeça eu esperei um pouco e pulei. Eu já peguei alguns pênaltis na minha carreira. Em Toulon na final contra o Japão eu peguei a última cobrança e fomos campeões. Ficou marcado por isso.

Costuma estudar os cobradores adversários?
Sim, o pessoal da Ponte nos ajuda com isso e na seleção também. Sempre nos mandam vídeos e mostram onde eles erram. Pênalti é muito momento, muitas vezes o batedor muda o que vem fazendo. É um pouco de estudo, mas de feeling do momento.

Você costuma treinar o jogo com os pés?
Eu venho aprimorando, mas depende do estilo de jogo de cada treinador. O Jorginho [técnico da Ponte] gosta muito disso e aprendi bastante. O André Jardine [técnico da seleção olímpica] também trabalhou muito saída de bola. O goleiro hoje participa mais dos jogos.

Você terminou os estudos?
Eu não consegui ainda fazer faculdade, treinei o colegial sem repetir de ano nenhuma vez. Penso em aprimorar meu inglês que é muito importante.

O que você gosta de fazer nas horas vagas?
Sou um cara bem tranquilo e gosto de ficar em família aqui em Piracicaba. Sempre que posso venho para cá e gosto de sair para jatar. Curto jogar um Fifa em casa no videogame. Geralmente pego a Juventus porque gosto muito do jeito que o Cristiano Ronaldo joga. Nos rachões, eu vou para o ataque e costumo fazer uns gols e comemoro como o CR7!

Ronaldo é um cara que treina muito...
Ele é um espelho para todos nós seguirmos porque trabalha demais como a gente. Os goleiros são os primeiros a chegarem e os últimos a saírem.

O ex-goleiro Lauro chegou a fazer gols pela Ponte...
Espero nunca precisar, mas se precisar eu sei fazer gols. De cabeça eu não erro uma, consigo me virar (risos).

Você esperava ser chamado para a seleção principal?
Eu estava na expectativa para a seleção olímpica, mas foi uma surpresa boa. O Brasil está repleto de goleiro de alto nível, mas vejo uma oportunidade de aprender com os mais velhos. Só tenho a crescer com essa experiência.

Você soube no avião sobre a convocação?
Sim, foi bem inusitado. O Dadá foi o primeiro que me falou: “Você foi convocado, parabéns!” Eu achei que era zoeira porque no futebol a gente sempre fala isso. Eu só acreditei mesmo quando o piloto do avião anunciou na cabine que estava convidado. Todos bateram palmas e me deram parabéns! Foi maravilhoso. Está uma correria e o telefone não parou até agora (risos). Estou muito feliz.

Como foi seu dia depois da notícia?
Eu estou absorvendo tudo que passei. Foi tudo muito rápido. Joguei ontem, soube disso hoje. nunca tinha sido chamado para seleção antes de Toulon, que me deixou muito feliz. Fui titular e peguei pênalti na final. Acho que tudo ajudou.

Quais objetivos você tem?
Eu quero me formar cada vez mais a seleção porque chegar é complicado, mas é mais difícil ainda se manter. Quero manter o foco na Ponte e ano que vem quero jogar as olimpíadas. Pelo clube, queremos subir para Série A do Brasileiro.

Mais algum familiar é jogador?
Meu irmão mais novo é atacante no XV de Piracicaba. Eu brinco que ele vai ganhar mais dinheiro do que eu porque centroavante é mais valorizado (risos).

Conseguiu ajudar a família? Quais são seus sonhos?
Consegui comprar um carro para mim e pude dar uma casa para os meus pais, que era o meu maior sonho como jogador. São conquistas que valem demais para mim. ainda tenho sonhos maiores para a minha vida e carreira.