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Ex-Palmeiras, Dyego Sousa conta como é defender Portugal e jogar com Cristiando Ronaldo: 'Fiquei ainda mais fã'

Titular da seleção de Portugal no empate com a Sérvia nas eliminatórias da Eurocopa de 2020, Dyego Sousa realizou um grande sonho: atuar ao lado do craque Cristiano Ronaldo, que saiu lesionado aos 31 minutos do primeiro tempo do duelo.

O ex-atacante do Palmeiras, um dos destaques do Braga-POR, é o vice-artilheiro do Campeonato Português com 14 gols, um a menos do que Seferovic, do Benfica.

Mesmo tendo balançado as redes 19 vezes em 34 jogos nesta temporada, o brasileiro não esperava ser convocado pelo técnico Fernando Santos.

"Estávamos no vestiário do Braga vendo a convocação da seleção e esperando pelos nossos amigos de time serem chamados. A televisão não estava nem pegando, precisamos apelar para o celular de um amigo nosso (risos). De repente, saíram os nomes de Cristiano Ronaldo, João Félix e Dyego Sousa... Na hora eu pensei: ‘Será que sou eu mesmo, ou ele se enganou?’ (risos) Foi aí que caiu a ficha", disse, ao ESPN.com.br.

O encontro do centroavante com o principal jogador de Portugal aconteceu alguns dias após a inusitada notícia.

"O Cristiano Ronaldo chegou na terça, já me cumprimentou e me deu os parabéns por ter sido convocado. Fomos para o treino e achei uma pessoa espetacular. É um exemplo dentro e fora de campo. Se antes já era fã, agora fiquei ainda mais. O homem é foda, deixa a gente à vontade, brinca, dá risada.... Está ali na conversa, mas também é muito profissional. Ele me falava da vida dele e perguntava sobre a minha vida", relatou.

A estreia de Dyego foi no empate contra a Ucrânia, quando ele entrou na vaga de André Silva na segunda etapa. No jogo seguinte, ele foi titular ao lado de CR7.

"Ele me falou que pela fama precisa ter ainda mais cuidado com ele próprio por ser o melhor do mundo várias vezes. Para ele, não basta ir bem somente em um jogo porque as pessoas já esquecem. Tem que brigar para estar sempre bem. E a forma como ele trabalha e se entrega deixa muita gente impressionada. Pelo tempo que passamos juntos deu para ver que merece tudo que tem", elogiou.

Primeiro brasileiro a defender Portugal desde Liédson, o atacante de 29 anos tem esposa e filha portuguesas. Mesmo tendo sofrido algumas críticas por conta disso, ele não se importou.

"Não me deixo influenciar por isso porque tudo que conquistei na vida foi pelo meu potencial. Mereci estar ali e consegui chegar com muita entrega", garantiu.

O próximo desafio de Dyego Sousa será pelo Braga, que enfrentará o Porto pelo Campeonato Português, neste sábado.

Veja a entrevista com Dyego Sousa:

Como foi seu começo no futebol até chegar ao Palmeiras?
Eu sou de São Luís do Maranhão e comecei no futsal. Aos 15 anos, fui descoberto pelo Palmeiras porque dois amigos meus jogavam por lá e me levaram para fazer teste. Passei e fui jogar futebol de campo pela primeira vez de verdade. Fiquei por lá um pouco mais de um ano, mas não fui aproveitado. Nunca tive oportunidades na equipe, fiquei treinando sem contrato nem nada. Tinham muitos jogadores que entravam e saíam todos os anos e nunca apostaram em mim. Único torneio que joguei foi a Taça BH. Eles me disseram depois que eu não servia, que tinham outros jogadores e fui mandado embora. Joguei com Daniel Lovinho, Gualberto, Souza e o Hugo, filho do Casagrande.

Como foi que surgiu o Nacional, de Portugal?
Eu estava com 17 anos. Tinha um amigo meu naquela altura chamado Fabiano, que era meu empresário. Eu estava com o Fabiano que ia jogar uma bolinha entre amigos e eu estava em São Paulo sem fazer nada. Nessa partida tinha um empresário que tinha muitos contatos com o Nacional na Ilha da Madeira. Ele gostou de mim e arrumou um teste para dali a poucos dias. Em menos de uma semana fui para Portugal.

Por que ficou tão pouco?
Eu fiquei um ano lá jogando pelos juniores. Cheguei a ficar um jogo no banco de reservas pela Taça de Portugal nos profissionais. Quando me machuquei, me mandaram para o Brasil para me tratar e disseram que iam entrar em contrato. Eu nunca dei grande importância e nunca me ligaram de volta. Acabei me profissionalizando em 2008 no Moto Club-MA e joguei seis meses por lá. Depois, defendi o Operário de Ponta Grossa-PR e veio Portugal de novo...

Você começou no Leixões e depois foi para Angola....
Fiquei um ano no Leixões e surgiu a chance de ir para o Interclube, de Angola. Era um contrato muito bom financeiramente, mas nada deu certo. Fiquei por lá por seis meses, mas meu certificado internacional nunca chegava. Perdemos o tempo de inscrição e não joguei.

Como foi morar em Angola?
É um país complicado. É o extremo da pobreza e da riqueza juntos. Aquilo me deixava triste, algumas pessoas com muitas coisas e muitos com tão pouco ou quase nada. Foi uma fase difícil porque eu adoeci e minha esposa foi para lá e também ficou doente. Só pensava em voltar para Portugal, não queria mais ficar por lá. Não recebi nem a metade do que era para ter recebido e depois abdiquei de tudo porque queria voltar. Eles me pagaram os salários pelo período que fique por lá e saí. Voltei depois para Portugal, mas a janela estava fechada. Daí, fiquei mais seis meses parado, deu um ano sem jogar. Eu treinava por fora e esperava uma nova chance de outra equipe em Portugal. Em junho veio o Tondela e aceitei. Estava sem mercado, sem nada. Recebi salários por seis meses em Luanda, mas depois foram seis meses sem nada.

Você depois passou pelo Portimonense anter de ir para o Marítimo, grande rival do Nacional, que não te retornou...
Pois é...(risos). O Marítimo foi importante para mim naquela época. Cheguei ao Braga por causa dele, foram três anos na Ilha da Madeira e gostei muito. Sou bem grato.

Explique o episódio que te deixou suspenso em Portugal quando atuava pelo Marítimo?
O PC Gusmão foi um cara que foi um amigo, um conselheiro e uma pessoa muito especial. Ele me ajudou neste momento bem difícil, quando fui suspenso por nove meses. Em um amistoso eu me chateei com um bandeirinha e o empurrei. O PC esteve sempre ao meu lado, me tranquilizando e me dando força. Muitos me criticavam, incluindo o presidente do Marítimo, que me afastou. Sou muito grato ao PC.

Como surgiu a transferência para o Braga?
Eu estava no meio da suspensão. Conseguia um efeito suspensivo, jogava e até fazia gols. Mas depois a punição voltava. O Marítimo entrava com recurso e eu já estava apto a jogar, depois parava. Sempre que jogava eu ia bem e nisso veio o Braga. Eles vieram me buscar mesmo sabendo que eu poderia ficar até nove meses fora dos campos. Ainda não tinha saído a decisão final. O Braga me bancou e falou para esperar. Assim que acabou punição eu voltei a jogar.

Você sempre quis atuar pela seleção portuguesa?
Eu sempre quis desde quando fui atuar no Leixões. Minha esposa é portuguesa e minha filha também nasceu aqui. É um país que me abriu as portas para o futebol. Isso não surgiu porque eu estava em um clube grande como o Braga, mas desde a segunda divisão. E consegui...

Lembre o dia de sua convocação para a seleção?
Eu não esperava. Estávamos no vestiário do Braga vendo a convocação da seleção e esperando pelos nossos amigos de time serem chamados. Temos vários destaques. A televisão não estava nem pegando, precisamos apelar para o celular de um amigo nosso (risos). De repente, saíram os nomes de Cristiano Ronaldo, João Félix e Dyego Sousa... Na hora eu pensei: ‘Será que sou eu mesmo, ou ele se enganou?’ (risos) Foi aí que caiu a ficha (risos). No começo, eu não acreditei, mas meu celular começou a bombar...

Conte os bastidores da seleção. Você disse que tinha o sonho de conhecer o Cristiano Ronaldo...
Fui jogar no sábado pelo Braga e me apresentei na seleção na segunda. Era uma ansiedade muito grande. Liguei para o Danilo Pereira e o Sá, que já tinham jogado comigo: ‘Me esperem para entrarmos juntos e vocês me apresentarem para o pessoal’. Os jogadores chegaram e me cumprimentaram, o Pepe falou muito comigo também e mostrou as instalações. Todos foram muito parceiros e treinamos naquele dia. O Cristiano Ronaldo chegou na terça, já me cumprimentou e me deu os parabéns por ter sido convocado. Fomos para o treino e achei uma pessoa espetacular. É um exemplo dentro e fora de campo. Se antes já era fã, agora fiquei ainda mais. O homem é foda, deixa a gente à vontade, brinca e dá risada.... Está ali na conversa, mas também é muito profissional. Ele me falava da vida dele e perguntava sobre a minha vida.

Quais as melhores conversas com o Cristiano Ronaldo?
Ele me falou um pouco sobre a história dele no começo na Ilha da Madeira, as dificuldades que venceu para chegar até aonde está hoje. Me falou que pela fama precisa ter ainda mais cuidado com ele próprio por ser o melhor do mundo várias vezes. Para ele, não basta ir bem somente em um jogo porque as pessoas já esquecem. Tem que brigar para estar sempre bem. E a forma como ele trabalha e se entrega deixa muita gente impressionada. Pelo tempo que passamos juntos deu para ver que merece tudo que tem.

Ele gosta muito de brasileiros...
Sim, me falou que é muito amigo do Marcelo e do Casemiro. Ele curte a nossa alegria e a música brasileira, sim. Tanto é que na hora que fui fazer a apresentação para o elenco mandaram eu cantar uma música e eu escolhi a "Perseverança", um pagode do Xande de Pilares...

O que mais você gostou da seleção?
A forma de todos eles serem e que me trataram. Portugal tem jogadores hoje nos maiores times do mundo, não somente o Ronaldo. Eles me receberam muito bem e conversaram comigo. Todos eles passaram por isso também e não são orgulhosos por terem o que têm. Isso me impressionou muito, são humildes e de bom coração. A seleção é uma família e todos se ajudam.

Qual foi a sensação ao ouvir o hino de Portugal e entrar em campo?
No primeiro jogo, contra a Ucrânia, fiquei nervoso no aquecimento com a expectativa. Quando ele me chamou para entrar já tinha passado o nervosismo (risos). Depois, fui titular contra a Sérvia. A ficha caiu na hora que ele anunciou a escalação do ataque com Cristiano Ronaldo e Dyego Sousa. Pensei: 'Consegui, agora é comigo'. Na hora do hino estava perfilado com a seleção e não sabia se cantava, se chorava ou se olhava para a minha família que estava no estádio (risos). Foi uma emoção muito grande.

Sua convocação fez um grande barulho em Portugal. Como foi a repercussão?
Recebi apoio de muitos torcedores, não somente do Braga, mas até de Benfica, Porto e Sporting. Muitos gostaram e apoiaram, me disseram que eu havia merecido e me desejaram força. Pediram para eu ir para o clube deles na próxima temporada (risos). Mas como tudo na vida, nada agrada a todos...Tem sempre um ou outro que fala que já estou velho por ter 29 anos, mas isso foi uma minoria. Recebi muito mais apoio até mesmo dos treinadores na mídia. Não que isso fosse mudar alguma coisa, pois as mesmas pessoas que te elogiam também te criticam se você comete um deslize. Não me deixo influenciar por isso porque tudo que conquistei na vida foi pelo meu potencial. Mereci estar ali e consegui chegar com muita entrega.

Você pretende brigar pela artilharia do Português?
Eu já penso no Campeonato Português e teremos um jogo importante contra o Porto, que é o líder, no sábado. Quero retomar a artilharia e terminar a temporada bem. Serão oito finais para gente e temos que nos focar só nisso.

Quer ficar no Braga mais quanto tempo?
Renovei meu contrato com o Braga por mais um ano porque é um clube que apostou em mim em um momento difícil. Por enquanto, não penso em sair, mas se houver uma oportunidade boa para o clube e para mim é algo a se pensar. Uma coisa era antes de eu ir para a seleção. Agora, a projeção é maior. O Braga é um clube bom e que me ajudou a chegar à seleção e posso permanecer aqui.

Como você passou a ser agenciado pelo Jorge Mendes, o mesmo de Ronaldo e outros jogadores. Como foram os contatos com ele?
Eu só falava com o braço direito dele, o Valdir. Eu disse: 'Só acerto com vocês se eu conhecer quem é o homem' [Jorge Mendes] (risos). O Valdir marcou e fui ver um jogo de Portugal no camarote no Estádio da Luz , quando estava no Marítimo e já tinha assinado com o Braga. Fui apresentado ao Jorge, que falou que ia trabalhar comigo e ia dar tudo certo. Desde então, nos falamos algumas vezes por telefone e pessoalmente. Gostei da experiência. Ele me deu os parabéns pela convocação. O Jorge é muito amigo do Cristiano e boa parte dos jogadores da seleção é dele.