<
>

De ônibus e jogando beisebol: quando Michael Jordan se livrou do peso de ser Michael Jordan

play
Documentário disponível no WatchESPN conta a trajetória de Michael Jordan no beisebol (1:27)

'Jordan Rides The Bus' repassa o período que o astro do Chicago Bulls defendeu o Birmingham Barons (1:27)

Em junho de 1993, Michael Jordan e o Chicago Bulls comemoravam o terceiro título consecutivo da NBA. A melhor de equipe de basquete do mundo naquele momento elevava seu domínio no esporte.

Era o ponto mais alto da carreira profissional de Jordan até o momento. Não só ele liderava a franquia dentro de quadra como fora dela virara um ícone cultural. O Dream Team dos Jogos Olímpicos de 1992, os pares de tênis Air Jordan e os títulos o jogaram nos holofotes ao redor do mundo.

Talvez tenha sido por isso que, ao anunciar sua aposentadoria do basquete, ele tenha deixado milhões de pessoas chocadas - ainda mais com o plano de jogar beisebol profissionalmente.

No íntimo, Jordan tinha várias razões para abandonar o basquete. A pressão do dia a dia. Uma imprensa que extrapolava os limites esportivos e invadia sua vida pessoal. As acusações de estar viciado em apostas. E, por fim, a morte repentina de seu pai.

Estes são os ingredientes do começo de "Jordan Rides The Bus", produção da série 30 for 30 que está disponível no WatchESPN. O documentário repassa a carreira do 23 dos Bulls no Birmingham Barons, um time de beisebol das ligas menores afiliado ao Chicago White Sox, da MLB.

Foi um período em que Michael Jordan se livrou do peso de ser Michael Jordan.

Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no WatchESPN.

PONTO DE PARTIDA

Durante a temporada de 1992/1993, Jordan já dava sinais de que poderia sair de cena. Fora das quadras, a cobertura sobre o maior ícone do basquete era imensa. Seus passos eram vigiados a cada minuto, e qualquer atitude era destaque nos diferentes veículos de imprensa.

Em meio as comemorações do terceiro título seguido dos Bulls, Jordan teria pedido a Tim Grover, seu preparador físico pessoal, um programa voltado ao beisebol.

E se ainda restava alguma dúvida de que trocar de esporte era o caminho certo, ela desapareceu quando o pai dele, James Jordan, foi assassinado perto de uma estrada na Carolina do Norte em julho de 1993 (o corpo foi encontrado semanas depois, em agosto).

Após comunicar ao dono dos Bulls, Jerry Reinsdorf, a sua intenção, Jordan conversou com o técnico Phil Jackson. "Eu já suspeitava por um tempo que ele deixaria o basquete", afirma Jackson. "Na conversa com ele, argumentei que ele tinha um talento que propiciava felicidade a milhões de pessoas e que ele estaria privando elas disso."

Mas a decisão já estava tomada.


OS BARONS

Jordan foi jogar no Birmingham Barons, de Alabama. Não foi nada por acaso: os Barons são basicamente o time C do White Sox, que por sua vez é propriedade do mesmo Reinsdorf dos Bulls.

Os efeitos foram imediatos. A franquia passou a ter o estádio lotado nos jogos em casa - e fora também, com a Southern League se beneficiando da presença do astro de Chicago (a média de público triplicou).

A atenção da imprensa foi total, e os jogos também passaram a ser transmitidos.

Quanto a Jordan, ele voltou ao básico. O beisebol tinha sido parte de sua vida pela última vez mais de uma década antes. Ele teria que reeducar o corpo para praticar o esporte. E treinou: fazia sessões com o treinador logo cedo, às 7h30, praticava com outros jogadores e depois voltava para mais atividades individuais.

Para ele, o mais importante tinha sido conquistado: tranquilidade. Os relatos eram todos de uma pessoa mais alegre e com motivação para o objetivo final, que era chegar à MLB um dia. No lugar do luxo da NBA, Jordan havia se encontrado novamente em meio aos estádios menores e as viagens de ônibus pelas estradas americanas.

Ao longo de 1994, disputou 127 partidas pelos Barons. Foram 51 corridas impulsionadas, 30 bases roubadas, sete rebatidas que renderam a vitória, três home-runs e uma baixa média no bastão, de apenas 20,2%.


O RETORNO

O próprio Phil Jackson sempre suspeitou da aposentadoria definitiva de Jordan do basquete. O técnico sentia a necessidade de seu ex-atleta em se afastar daquela realidade - mas que ele voltaria em algum momento.

E MJ não se afastou definitivamente do dia a dia dos Bulls. No livro "Michael Jordan - A história de um campeão e o mundo que ele criou", o autor David Halberstam descreve como o contato com o basquete não desapareceu totalmente - se é que isso fosse possível.

Jordan passou a ligar para B.J. Armstrong, tricampeão com ele nos Bulls, para saber sobre a equipe. Falavam sobre o time, sobre basquete e sobre as estrelas que despontavam na liga. Discutiram sobre Latrell Sprewell, Penny Hardaway, Jason Kidd.

Armstrong percebeu como o período afastado do basquete fez Jordan, aos poucos, sentir saudades da bola laranja. Faltava um empurrão para volta - e o próprio beisebol fez isso.

Os jogadores da MLB entraram em greve em agosto de 1994. Em janeiro de 1995, o impasse continuava, e o conselho executivo liberou as franquias para utilizarem jogadores reservas ou amadores - situação na qual Jordan se encaixava.

Símbolo da NBA, Jordan não iria furar a greve de outra liga. Em 10 de março, ele abandonou o beisebol. No dia 18, soltou o comunicado de duas palavras mais impactante do esporte: "I'm back" (Eu voltei).

Michael Jordan não sentia mais o peso de ser Michael Jordan.

No dia 19, reestreou pelos Bulls em uma derrota para o Indiana Pacers. Naquele ano, o time de Chicago cairia nos playoffs para o Orlando Magic de Shaquille O'Neal.

Nas três temporadas seguintes, Jordan conquistou um novo tricampeonato pela franquia de Illinois. O beisebol não voltou a ser cogitado.