<
>

O pesadelo de Michael Jordan: como os Pistons viraram os 'Bad Boys' da NBA

A DÉCADA DE 1990 da NBA é sinônimo dos seis títulos do Chicago Bulls e do auge de Michael Jordan. E um dos times mais incríveis da história da liga teve um adversário que incomodou: o Detroit Pistons. E como incomodou.

Foi esta equipe, pintada e trajada por todos com uma personalidade do mal, que encerrou a sequência de finais entre Celtics e Lakers há pouco mais de 30 anos. E que se transformou no pesadelo de Jordan na mesma época (e, em última instância, adicionou alguns ingredientes essenciais para a dinastia que viria a seguir).

Os Pistons da metade da década de 80 até o começo dos anos 90 se notabilizaram por um outro tipo de jogo, muito diferente dos shows dos Lakers de Magic Johnson e dos Celtics de Bird. Física, implacável e com uma defesa quase intransponível, a franquia de Michigan não tinha a beleza do jogo como marca registrada.

Com atitudes e jogadas que seriam fortemente condenadas nos dias de hoje - e talvez tenham até sido um tanto relativizadas há três décadas -, aquele grupo se transformou também em uma marca única: os Bad Boys.

Eles eram os vilões da liga e destruíam quem você gostava de ver. Odiados por todos os times. Odiados pelos torcedores. E odiado por vários jogadores. Amados? Só mesmo em Detroit.

A construção, o auge e o declínio dos Pistons bicampeões da NBA (1989 e 1990) é tema do documentário "Bad Boys", produção da série 30 for 30 que está disponível no WatchESPN.

Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no WatchESPN.

A ESTRELA

A FORMAÇÃO DOS BAD BOYS começa em 1979, com a chegada de Jack McCloskey como general manager. Os Pistons tinham zero glamour. O maior objetivo dos atletas que chegavam a Detroit era deixar Detroit.

McCloskey, apelidado de “Trader Jack” por suas habilidades de negociação, deu a primeira grande cartada no draft de 1981. A franquia tinha a segunda escolha e levou Isiah Thomas, um armador de 19 anos da Universidade de Indiana.

"Eu não queria ir para os Pistons", conta Thomas em 'Bad Boys'. "Respondia a todas as perguntas de maneira errada e de propósito. Até que Jack disse: 'Isiah, não importa. Se você estiver lá, nós iremos escolhê-lo'".

Isiah era de fato uma pedra preciosa. Armador de 1,85m, tinha talento, leveza e um forte espírito competitivo. Saído de uma região pobre da Zona Oeste de Chicago, ele seria o líder da equipe campeã anos depois.


NASCEM OS BAD BOYS

MCCLOSKEY ADICIONOU aos poucos as outras peças. Depois de trazer Vinnie Johnson ainda em 1981, em 1982 ele negociou trocas para ficar com o pivô Bill Lambeeir, do Cleveland Cavaliers.

Lambeeir não parecia um tiro certeiro: era lento, desajeitado e mal saía do chão. Mas sabia arremessar, tinha um ótimo posicionamento para pegar rebotes e, como Isiah, um espírito competitivo notável. Sua atitude pouco cortês dentro de quadra se repetia fora dela - com a mídia e até membros da própria equipe.

Os anos seguintes trouxeram o grupo que seria campeão: o técnico Chuck Daly chega em 1983 (e brincando que "ninguém aceitaria o cargo"); o armador Joe Dumars e o ala-pivô Rick Mahorn em 1985; em 1986, foi a vez do ala Adrian Dantley (trocado por Mark Aguirre no meio da temporada do primeiro título, mas essencial na construção da equipe) e das chegadas de John Salley e Dennis Rodman via draft.

Esse era o núcleo dos Bad Boys que chegaria a cinco finais consecutivas da Conferência Leste entre 1987 e 1991, três finais de NBA e faria Michael Jordan chorar de frustração no fundo de um ônibus.


O JOGO FÍSICO

OS PISTONS ERAM mais do que uma forte defesa. A mentalidade competitiva ressoava nos quatro cantos da quadra. E uma das maiores forças daquela equipe era desestabilizar psicologicamente os rivais.

Tinha o famoso trash-talk. As palavras no ouvido, as provocações constantes. Mas era o lado físico que tinha o maior efeito. Rick Mahorn, por exemplo, se notabilizou defensivamente por fazer bloqueios um tanto agressivos. Lambeeir não tinha dúvidas em derrubar os adversários - estivessem no ar ou não.

Quando confusões se criavam ou os jogadores rivais começavam a reclamar ostensivamente com a arbitragem, os Pistons sabiam: o jogo estava na mão.

"Alguém tem que ser o vilão. Nós adotamos o rótulo, não fugimos dele", define Lambeeir.


QUEBRANDO CELTICS E LAKERS

UM DOS FATORES mais decisivos para a criação da forte mentalidade e identidade dos Pistons foi o Boston Celtics. Era década de Larry Bird na Conferência Leste.

Para uma franquia que se tornaria famosa por subjugar os adversários facilmente nos momentos decisivos, Detroit sofreu nas mãos dos Celtics. O Boston Garden e o duende no meio da quadra eram imbatíveis.

Em 1988, os Pistons, enfim, destronaram os rivais. Venceram a final da conferência por 4 a 2 e confirmaram a passagem da tocha: o Leste tinha um novo dono.

"Eles nos ensinaram muito sobre resistência mental, a como vencer e foi bom acabar com eles. O domínio deles durante muitos anos na NBA havia acabado", relembra Lambeeir.

Naquela temporada, os Pistons perderam para os Lakers na final da NBA. Um dos pontos altos foi uma espetacular atuação de Isiah Thomas no jogo 6: mancando após torcer o tornozelo, ele fez 25 pontos no terceiro período, um recorde em finais. Detroit, no entanto, perdeu aquele jogo e o título na sétima e decisiva partida.

Os Pistons, no entanto, venceriam o time de Magic Johnson em 1989 e decretariam o fim da era verde, branca, roxa e dourada na NBA.


REGRAS JORDAN

OS BAD BOYS ENFRENTARAM os Bulls por quatro temporadas consecutivas nos playoffs: na semifinal da conferência de 1988; e nas finais do Leste de 1989, 1990 e 1991.

Se no primeiro encontro os Pistons venceram facilmente a série por 4 a 1, o segundo apresentou ao mundo a estratégia para parar o camisa 23. "Era como o Código da Vinci e a fórmula da Coca-Cola. As Regras Jordan", ri Joe Dumars.

"Finalmente descobri o que fazer para deter Jordan."Isiah Thomas, durante a decisão do Leste de 1989

O armador esteve no centro da criação. Após os Bulls vencerem o jogo 3 e passarem a liderar a final por 2 a 1, Isiah Thomas foi até a avenida Michigan, em Chicago, e se sentou à beira do lago por horas. Depois, conversou com Dumars ao telefone. Por fim, às duas da manhã, ligou para um dos assistentes: "Finalmente descobri o que fazer para deter Jordan".

As regras eram: se Jordan estivesse isolado, a defesa dos Pistons o forçava a levar a bola ao meio da quadra. Se ele estivesse no centro, era forçado para a esquerda, e a dupla mais perto o cercava. Por fim, bloqueios duplos e triplos complementavam o trabalho nas corridas para a cesta.

Funcionou. Os Pistons derrotaram os Bulls em 1989 na rota para o seu primeiro título. "Fisicamente, eu não estava pronto. E não tinha energia para enfrentar aquilo", recorda o próprio Michael Jordan.

Para Jordan, o confronto de 1990 seria mais decepcionante. Chicago levaria Detroit ao limite, mas sucumbiu no jogo 7 entre inúmeros problemas.

"Foi uma série brutal. (...) (John) Paxson tinha torcido o tornozelo no jogo anterior, e Scottie (Pippen) estava sofrendo de uma terrível enxaqueca que lhe turvava a visão e não o deixava distinguir as cores das camisas. Mesmo assim, ambos entraram no sacrifício para o jogo, mas a equipe se desentrosou em um vergonhoso segundo quarto e não nos recuperamos mais. Perdemos por 19 pontos que pareciam 100. (...) Jordan estava tão bravo que caiu em prantos no último banco do ônibus da equipe", relata Phil Jackson, técnico dos Bulls naquela época, no livro "Onze Anéis - A alma do sucesso".


OS BAD BOYS SAEM DE CENA

O SUCESSO DOS PISTONS terminou em 1991. Na terceira final consecutiva de conferência contra os Bulls, não deu nem graça. Jordan e Pippen estavam mais fortes, e o Bulls como um todo era uma equipe mental e fisicamente pronta. Terminou 4 a 0.

O que poderia ter sido uma passagem de tocha virou, novamente, uma polêmica. A 7,9 segundos do fim da série, os Pistons se levantaram do banco de reservas. Passaram em frente ao local destinado aos Bulls - Jordan entre eles - e entraram nos vestiários. Não houve cumprimentos com o adversário, nem agradecimento aos torcedores.

"Éramos um time e... tomamos aquela atitude. Revendo agora, foi a atitude certa? Deveríamos ter sido maiores? Sim", admite Thomas.

Bad Boys, do início ao fim.