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Marreta dá detalhes do momento da lesão e explica como seguiu chutando Jon Jones mesmo 'sem joelho'

Até agora ninguém consegue entender como Thiago Marreta quase conseguiu vencer Jon Jones mesmo estando praticamente sem joelho por mais de 20 minutos no confronto entre os dois no UFC 239 do último final de semana. O brasileiro se machucou logo no primeiro round e descobriu dias depois ter tido uma ruptura nos ligamentos e do menisco e também uma fratura na tíbia. Mesmo assim, entregou ao campeão uma das lutas mais difíceis da carreira – vencida apenas na decisão dividida dos jurados.

O ESPN.com.br, então, foi ouvir o próprio Marreta. Em conversa exclusiva, ele deu mais detalhes de como se machucou, de como isso influenciou seu desempenho na luta e explicou como conseguiu seguir chutando Jon Jones com a perna que estava machucada.

O brasileiro ainda admitiu que não esperava vencer a luta quando a definição acabou indo para os jurados e também falou de como está lidando com os primeiros dias da lesão, já sabendo que ficará muito tempo afastado dos octógonos.

Veja a entrevista com Thiago Marreta:

Quando você se machucou?

Foi na hora em que eu fui dar um chute, ele tirou a perna e o chute passou direto. Quando eu chuto, chuto com muita vontade. Aí passou direto e acabou torcendo o joelho.

Nota da redação: o ESPN.com.br reviu a luta e identificou o momento do chute dito por Marreta. Ele acontece com cerca de 19 segundos para o fim do primeiro round. A perna esquerda passa no vazio e 'enverga' mais do que o normal. Logo em seguida, ele cai pela primeira vez ao tentar fugir de uma investida de Jones.

Você já sabia da gravidade da lesão na hora? Como foi o papo com os treinadores?

Sabia que tinha acontecido uma coisa séria. No intervalo do primeiro round eu falei com meu treinador Conan Silveira, bem baixinho, no ouvido dele:

- Preciso falar uma coisa
- Fala
- Ferrei meu joelho, meu joelho tá ferrado
- É coisa para parar a luta?
- Eu nunca vou parar.

Durante os rounds o Tatá Duarte (outro treinador) sempre falava comigo. ‘Olha, agora tem que ser coração. Aguenta firme, você está bem’

Como essa lesão te atrapalhou na luta?

Basicamente não conseguia botar peso em cima dessa perna. Não podia botar peso, não podia ser atingido. Se ele conseguisse chutar essa perna, seria muito difícil conseguir suportar a dor, que eu já estava sentindo. Então tive que jogar de canhoto o tempo todo, protegendo essa perna, deixando ela atrás. E não tinha como botar peso nela para chutar com a direita. O jeito foi chutar com ela machucada mesmo. Foi o que eu fiz. Botava o peso na perna boa e chutava com a perna ruim. Era o que dava para fazer.

Imagino que a dor na hora do chute com a perna machucada era grande.

Com certeza (doía bastante). Mas era só o que dava para fazer, não conseguia botar peso nenhum nessa perna e foi aí que começou a machucar o outro joelho, porque sobrecarregou. Foi por isso que lesionei o outro joelho.

E isso te atrapalhou também a dar socos?

A gente treinou muito a movimentação, trocar de base. É o jeito que eu gosto de lutar. Avançar batendo, avançar trocando de base. Funcionou algumas vezes, funcionou bem no primeiro round. Só que aí depois eu não conseguia. Tentava avançar, mas só conseguia dar um ou dois golpes e meu joelho já falseava, eu desequilibrava. E aí ficou muito difícil.

Acha que isso influenciou também na percepção dos juízes? Porque em algumas horas você realmente não conseguia ficar em pé e parecia ser por golpes do Jones.

Eu caí algumas vezes, umas duas ou três por causa do joelho. Creio que isso tenha impressionado os juízes. Até na entrevista os repórteres perguntaram quando eu tomei os knockdowns. E eu falei: ‘Que knockdown? Não tomei nenhum, não senti nada’. O que eu me lembro, a única vez que eu senti um pouco foi na cotovelada, que me deixou um pouco tonto, mas eu levantei logo, não chegou a ser um knockdown. Mas algumas vezes que ele me tocou eu caí por causa do joelho. Teve uma vez que ele me deu jab, pô, eu não senti nada, mas o joelho falseou e eu caí. Foram coisas que me atrapalharam na luta, impressionaram os juízes e acho que influenciou na contagem.

Sem a lesão seria diferente?

Com certeza. Absoluta! Não posso dizer que eu ia ganhar, não dá para afirmar isso. Mas eu teria ido mais para frente, atacado mais, batido mais. Com certeza eu teria feito mais.


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Você esperava vencer a luta na decisão?

Quando acabou a luta ali eu não achei que tivesse ganho não. Apesar de achar que eu toquei mais ele, mas minha lesão custou caro, tive muito momentos ruins durante a luta também. Achei que fossem dar a vitória para ele.

O que você pensou quando o primeiro jurado te deu a vitória?

Pensei: Ué, será que vão dar a vitória para mim?


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Você acha que conseguiu chocar o mundo como falou que ia fazer?

Todo mundo está falando que eu choquei o mundo, mas eu não sei. Talvez sim, de uma forma positiva. Fico muito feliz, sou um cara que sou competidor, que é difícil de lidar com a derrota, difícil de engolir. Ainda mais sabendo que cheguei tão perto, tinha condições, estava bem, estava com gás bom, tudo indo perfeito... Mas a gente está sujeito a isso, a lesões. Então fiquei um pouco triste, mas também feliz pela mensagem que consegui passar para o mundo.

Mas qual o seu sentimento? Mais feliz pelo que fez ou mais triste pelo resultado?

Com certeza estou mais feliz. Pela performance. Fiz tudo que eu podia nas condições em que eu estava e consegui passar uma mensagem boa. Mas ainda assim um pouco triste pela derrota.

Jon Jones acabou te elogiando bastante depois da luta. Como você enxergou essa reação dele?

Gostei porque consegui botar em prática tudo que a gente treinou, todo o plano de jogo. Infelizmente não consegui fazer 100% por causa da lesão, mas mesmo assim deu para mostrar um pouco. Como falei antes da luta, não enxergava ele um cara invencível como todos diziam. Ele é um ser humano, sente dor e você fazendo as coisas certinhas, tendo um bom plano de jogo e tendo coração, ele é um cara que bate, tem golpes contundentes, cotoveladas, joelhadas. O adversário não pode se diminuir mentalmente com os golpes dele. Tem que acreditar em você e no seu plano de jogo. Foi o que eu fiz, consegui ter um bom plano de jogo. A lesão me atrapalhou de dar continuidade, mas fiz uma boa luta. Consegui tirar esse lado dele que ele não consegue expor as vezes, tem um lance de bad boy.


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Pensa em uma revanche com ele?

Primeiro estou absorvendo tudo que estou passando, são lesões muito graves, que vão me deixar um longo tempo parado. Nunca fiquei tanto tempo parado, gosto de lutar frequentemente. Mas dessa vez vou ser obrigado para cuidar dessa lesões, fazer uma boa recuperação porque isso é muito importante. Só quero voltar quando eu estiver 100%. E eu estando 100% pode ser com ele mesmo, com qualquer outro, não me importo. Só preciso estar 100%, ter um tempo para fazer um bom camp, voltar à forma de novo. Agora estou focado nisso, na cirurgia, na recuperação, fazer tudo certinho, tudo que os médicos mandarem, para que acelere minha recuperação, fique bom antes do prazo que os médicos estão falando e volte a lutar.

Qual foi o diagnóstico exato da sua lesão?

Não sei explicar tecnicamente. Sei que o joelho esquerdo ferrou tudo. Os ligamentos, menisco, lesão na tíbia... Teve lesão no osso, no ligamento e no menisco do esquerdo. No joelho direito também teve lesão no ligamento, mas não teve ruptura. E teve lesão no menisco também.

A gente viu os vídeos no seu Instagram do médico retirando sangue do seu joelho. Como foi isso?

É para diminuir o inchaço e tirar a pressão. Estava muito inchado devido a esse sangue que fica lá dentro. Aí ele fez essa punção, tirou três seringas de um joelho, duas do outro, bastante sangue. Diminuiu um pouco a pressão, diminuiu um pouco a dor, desinchou um pouco. Mas é uma coisa que vou ter que fazer de novo porque vai dando mais sangue. Estou fazendo fisioterapia para preparar para a cirurgia, então fica mais sangue e vou ter que fazer de novo. É muito doloroso e é muito chato, mas faz parte.


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Você já imaginava que seria preciso fazer cirurgia? Como foi a reação quando soube?

Tinha esperanças ainda que não fosse cirúrgico. Não sou muito fã de hospital, de cirurgia, dessas coisas. Só vou em hospital em último caso. Tinha esperança que resolvesse com fisioterapia, sei lá. Infelizmente não deu. Quando o médico me deu a notícia que realmente ia ter que fazer a cirurgia, fiquei muito mal, triste. Mas agora estou botando a cabeça no lugar, focando agora na cirurgia, na fisioterapia para me preparar e na recuperação para voltar logo.

E como está essa relação com o público? São muitas mensagens de carinho com você...

Até antes da luta recebi muitas mensagens, de gente depositando muita confiança. Muitos não acreditavam também, mas a grande maioria botava fé, colocou esperança. Fiquei feliz, depois da luta muita gente mandando mensagem. Acho que o principal, mesmo não tendo o cinturão, é que consegui passar uma boa mensagem para o público, para os jovens. De superação, continuar lutando, não parar. Foi uma mensagem bacana que consegui deixar. Isso é o mais importante, o legado que a gente deixa, de coisas boas, mensagens positivas. Sempre fui um cara assim, então fiquei bem satisfeito por isso. Eu falei antes da luta: o cinturão é um objeto que simboliza que você é um campeão, mas não é ele que define isso. Tem muita coisa além desse objeto que faz de você um campeão. Sou um cara abençoado, agradeço muito a Deus. Fiquei feliz, mesmo não trazendo o cinturão, Deus tem me abençoado demais e acho que deixei um legado bacana para toda essa galera

E responder a galera te ajuda a distrair um pouco?

É difícil responder todo mundo. Instagram, Whatsapp. Inúmeras mensagens. Agradeço. Vou respondendo aos poucos, vai ter gente que vai ser respondida daqui um mês, mas eu vou responder. É só ter um pouquinho de calma que eu vou respondendo a galera. E eu agradeço todo esse carinho.

Manda um recado para a galera que está te apoiando agora e torcendo por você

Eu só tenho a agradecer o carinho de todos. Obrigado por todas as mensagens, energia positiva, orações que já têm feito pela minha recuperação. Só tenho a agradecer, dizer a todo mundo que estou bem. Vou passar um período afastado e isso é muito difícil, mas a gente vai superar mais essa e logo mais vai voltar. Estava até conversando hoje com o pessoal do UFC. E falei: ‘Poxa, será que eu vou voltar 100%?’. E eles falaram: ‘A gente promete isso para você, você vai voltar 100%’. Então eu estou muito confiante que vai estar tudo certo, vou fazer uma boa recuperação e voltar 100%. Então obrigado pelo carinho de todos. Vamos continuar orando para que tudo dê certo e logo a gente está de volta.


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