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Vinicius Jr. em Valencia: bastidores, o que mudou, quem foi punido e o que esperar de reencontro 9 meses depois

Vinicius Jr. lamenta lance de jogo do Real Madrid Guillermo Martinez / Getty Images

Este sábado não é um dia normal na vida do principal jogador do Real Madrid e do futebol brasileiro nos últimos anos. Além do preparo para um jogo de futebol ordinário, que deveria ser como qualquer outro, Vinicius Jr. apronta-se para um desafio mental, uma disputa psicológica que o faz reviver aquele que certamente foi o momento mais triste da carreira.

Há pouco mais de nove meses, em uma noite de 21 de maio de 2023, o atacante ouviu diversos torcedores do Valencia ofendendo-o, com gritos de mono (macaco, em espanhol) e protestos que explodiram qualquer limite do aceitável. Vinicius, revoltado, apontou alguns dos (muitos) culpados ainda em campo. A partida foi paralisada, retomada cinco minutos depois e acabou com derrota do seu Real Madrid, além da expulsão do brasileiro – visivelmente abalado por todo o ambiente.

Chegou a hora do reencontro. No mesmo Mestalla, diante da mesma torcida e contra o mesmo Valencia, em partida marcada para às 17h (de Brasília), com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+. Se chamam de loucos aqueles que fazem as mesmas coisas à espera de resultados diferentes, Vinicius Jr. não se enquadra nisso, justamente por saber bem o que vai encarar assim que colocar a cabeça para fora do hotel.

Sim, o camisa 7 pretende fazer tudo que sempre faz campos afora: correr, driblar, sorrir, provocar (um pouco) e por que não dançar (muito). Mas tem a real consciência que, não importa o que aconteça dentro das quatro linhas, é impossível acreditar que o ambiente do lado externo será menos hostil do que em sua última visita. Muito pelo contrário.

Na semana que antecedeu o Valencia x Real Madrid, a ESPN ouviu pessoas que trabalham com o astro brasileiro para entender como estava a preparação para a partida. De forma unânime, todos apontaram que o clima vai ser pesado e hostil, algo que talvez nem a comoção pela tragédia na cidade – um incêndio em um edifício residencial que matou dez pessoas e até 100 animais – seja capaz de atenuar.

A não ser uma recepção calorosa, o que quer que aconteça não causará surpresa alguma em Vinicius e no seu estafe. Capas ofensivas de jornais, insultos hediondos de criminosos ou postagens intimidadoras nas redes sociais fazem parte do cardápio do que é hoje a presença do brasileiro em Valencia. Mas, ainda que a raiva acumulada exista, há nos bastidores uma percepção diferente desse retorno ao Mestalla.

Hoje, é possível dizer que o brasileiro e sua equipe estão satisfeitos com o que LALIGA tem feito para apoiá-los na luta contra o racismo. Na opinião das pessoas ouvidas pela ESPN, a entidade que organiza o Campeonato Espanhol é quem mais tem atuado favoravelmente contra essa questão, até mesmo para limpar a imagem arranhada nos últimos meses.

Uma prova disso é que o advogado de LALIGA é quem defende Vinicius Jr. dos casos de racismo em Valencia. O brasileiro teria direito a contratar alguém por fora, mas, como a liga faz parte do processo, sentiu-se respaldado e bem defendido pelo profissional. Esse movimento ainda está longe de resolver a situação, mas é de fato um passo importante em uma luta que o brasileiro parecia estar sozinho. Hoje não está e conta com aparato de LALIGA para esses problemas.

Mas o que mudou desde as ofensas no Mestalla até o reencontro desta noite? A ESPN detalha abaixo tudo que aconteceu, das confusões aos que foram identificados, punidos e até banidos de estádios pela Espanha.

Veja a cronologia dos fatos desde o último Valencia x Real Madrid:

21/05 - Partida entre Valencia e Real Madrid é paralisada após Vinicius Jr. denunciar ofensas racistas vindas das arquibancadas do Mestalla. Revoltado, o brasileiro apontou para alguns que o xingavam, o que fez o árbitro Ricardo de Burgos interromper o jogo por 5 minutos.

21/05 - Caso de racismo mais grave contra Vini ganha as manchetes de jornais pelo mundo. Os periódicos de Madri saem em defesa do brasileiro, assim como Carlo Ancelotti, que se recusou a falar de futebol em entrevista para criticar a falta de ação de LALIGA. Mais tarde, nas redes sociais, Vinicius Jr. se posicionou de maneira enfática e ganhou apoio de diversas personalidades do esporte.

22/05 - No dia seguinte ao jogo, o Valencia se pronunciou dizendo que um racista havia sido identificado pela polícia. O clube também fez a promessa de banir todos os envolvidos no caso que fossem descobertos. Isso, no entanto, não impediu que publicações esportivas da cidade ofendessem Vinicius, chamando-o de "provocador insuportável", e nem que o técnico do Valencia, por mais que discursasse contra o racismo, rebatesse o rótulo contra a torcida.

23/05 - Os desdobramentos seguiram dois dias depois da partida, quando a polícia da Espanha anunciou a prisão de sete pessoas pelo crime de racismo, não só em Valencia, como também em Madri. Quem também agiu foi a Federação Espanhola, ao anular o cartão vermelho recebido por Vinicius Jr. na partida do fim de semana e também punir o clube com multa e setores do estádio fechados, o que gerou revolta local.

26/05 - Três dias depois da punição, o Valencia teve sucesso ao recorrer da pena. O gancho caiu de cinco para três jogos com o setor sul fechado parcialmente e a multa foi reduzida de 45 mil para 27 mil euros, o equivalente a R$ 144 mil na época.

07/06 - A Comissão Estatal Contra Violência, Racismo, Xenofobia e Intolerância do Esporte baniu sete torcedores de estádios na Espanha. Quatro eram ligados ao Atlético de Madrid e ajudaram a pendurar um boneco de Vinicius enforcado em uma das pontes da cidade. Por isso levaram multa de 60 mil euros e mais o banimento de dois anos. Os outros três torcedores proferiram ofensas ao jogador no jogo entre Valencia e Real Madrid e foram punidos com 5 mil euros em multa e mais um ano inteiro longe dos campos.

19/06 - A Justiça de Valencia começou a ouvir os três torcedores do clube punidos por ofender Vinicius Jr. Em declarações, o advogado de um dos réus admitiu gestos de provocação, mas negou que eles fossem uma forma de racismo. A alegação era que se tratavam de respostas pelas provocações do próprio atacante do Real Madrid.

13/07 - Quase um mês depois, foi a vez de Vini prestar seu depoimento de tudo que aconteceu no Mestalla. Foram 20 minutos apenas de declarações, em que o brasileiro alegou não se importar com ofensas de torcidas adversárias, desde que elas não passem do limite, como o que ocorreu em Valencia.

05/10 - Após depoimento à distância, Vinicius Jr. foi novamente ouvido por vídeoconferência e reiterou a sua versão, de que sentiu-se ofendido por todo o estádio. Horas depois, o Valencia rebateu o atacante brasileiro por considerar isso uma "mentira infundada". A equipe exigiu uma retratação do brasileiro por dizer que todo o estádio o ofendeu.

21/10 - Vinicius Jr. foi novamente alvo dos racistas nos meses seguintes. No fim de outubro, ele foi ofendido por um torcedor do Sevilla, em partida pelo Campeonato Espanhol. A diferença é que o clube se pronunciou rapidamente e puniu o infrator.

28/10 - Uma semana depois, foi a vez da torcida do Barcelona pegar pesado com o atacante do Real Madrid, com mais insultos racistas que foram parar em uma denúncia de LALIGA.

A visão de quem vive o racismo de perto

Toda a situação envolvendo Vinicius e os racistas na Espanha ganharam manchetes de jornal e atenção do público, mas, na visão dos especialistas, é algo muito pontual e inferior ao que o assunto de fato merece. A ESPN ouviu Raúl Martínez-Corcuera, professor e especialista em discurso de ódio da Universidade Central da Catalunha, e também Desirée Bela, ativista antirracista e escritora, para ouvir o que pensam do caso.

A opinião deles é unânime: a situação do camisa 7 é apenas a ponta do iceberg de uma cultura racista que já está inserida na sociedade espanhola há tempos.

"A maioria branca não considera que o racismo seja um problema geral da Espanha. Eles relacionam a pessoas individuais. A resposta imediata é negar e sim apontar para outros países, como os Estados Unidos. Me chama atenção que o caso do Vinicius tenha viralizado tanto. Não sei até que ponto o fato do Real Madrid ter se manifestado ajudou, mas o racismo é comum no futebol espanhol", explica a ativista. "Me lembro de situações que aconteceram com Eto'o, com a banana que atiraram em Daniel Alves. Não é nada novo, o que acontece agora é uma expressão nova de racismo".

O papel de jornais, emissoras de televisão e demais canais de comunicação também é relevante para que o assunto não seja debatido da maneira que merece no país.

"Os meios de comunicação tiveram uma atenção pontual, por semanas, e depois esse cuidado desapareceu. A situação que Vinicius viveu naquele momento era uma grande oportunidade para que todos lutassem juntos contra o racismo. O que aconteceu foi que todos, o Real Madrid, a imprensa de Madri, colocaram a culpa em apenas um clube, quando na verdade não é assim. Se não tem a consciência de que é um problema global, onde todos precisam atuar conjuntamente, se converte a luta racista em um enfrentamento, o que não ajuda em nada".

Das críticas à paz: como é a relação com LALIGA?

Se hoje Vinicius e sua equipe consideram que LALIGA tem atuado de maneira positiva no combate ao racismo, nem sempre foi assim. No dia dos ataques em Mestalla, o atacante atacou justamente a instituição em uma postagem nas redes sociais. Havia por parte do jogador um incômodo grande pela falta de apoio da organizadora do Campeonato Espanhol, a ponto de Vini escrever que a liga que antes era de Cristiano Ronaldo e Messi passou a ser dos racistas.

O desabafo do brasileiro irritou Javier Tebas, presidente de LALIGA e que decidiu rebater as acusações também via redes sociais. Nas palavras do espanhol, Vinicius estava deixando se manipular por opiniões de terceiros. O atacante não deixou barato e respondeu imediatamente. A revolta foi gigante: "Quero ações e punições, hashtag não me comove".

Dias depois, já menos enervado, Tebas recuou na discussão com o craque do Real Madrid. Em entrevista à ESPN, pediu desculpas ao brasileiro e afirmou que não tinha qualquer intenção de atacá-lo. Depois disso, as relações entre a liga e Vinicius Jr. cresceram a ponto de, hoje, o discurso entre eles sobre racismo estar alinhado.

Até relação com patrocinador mudou

A terrível experiência em Valencia ajudou Vinicius Jr. a reatar uma relação antiga com a Nike nos bastidores. Depois de ver o acordo sofrer um abalo na reta final de 2022, inclusive com a possibilidade de rescisão de contrato, as partes se aproximaram muito por conta do que ocorreu no Mestalla.

Dois dias após os ataques racistas, a empresa norte-americana divulgou peças de campanha em apoio ao craque brasileiro, algo visto como um "bom movimento" pelo estafe de Vinicius. A parceria rendeu outros momentos e acabou com uma aproximação para um novo acordo.

Em novembro de 2023, a ESPN publicou que as conversas entre Nike e Vinicius Jr. caminhavam para um acordo nos próximos meses. Nos novos termos do contrato, o brasileiro será um dos protagonistas da marca, ao lado de nomes como Kylian Mbappé, Erling Haaland, Kevin de Bruyne e Virgil van Dijk.

E agora?

Tudo indica um reencontro pesado na partida desta tarde em Valencia. Isso ficou ainda mais claro quando o clube mandante proibiu acesso de uma equipe do Netflix, que tem filmado cenas para um documentário sobre a carreira de Vinicius Jr.

"São decisões que cabem aos clubes", resumiu Javier Tebas, presidente de LALIGA, ao ser questionado sobre o veto do Valencia. "Eles decidiram que a equipe de filmagem não deveria entrar, então tenho que respeitar isso".

Tal atitude provavelmente não gerará mais ruído do que já existem. Todos que estiverem no Mestalla saberão o que vivenciarão nesta noite. A dúvida é apenas o tamanho do efeito disso.

Vinicius Jr., claro, está preparado como sempre. Se ele não espera mudanças em Valencia, o mesmo deveria valer para quem estiver nas arquibancadas. Em campo, estará um atacante sorridente, de drible muitas vezes imparável e capaz de gerar alegria a quem o venera, um sentimento muito superior aos poucos que preferem persegui-lo.

Onde assistir a Valencia x Real Madrid?

Valencia x Real Madrid terá transmissão ao vivo pela ESPN no Star+ a partir de 17h (de Brasília) deste sábado (2).

* Colaborou Mendel Bydlowski, repórter da ESPN