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Contagem regressiva para o milésimo de Pelé: Arnaldo Cezar Coelho relembra 'festa de arromba' que nunca aconteceu em Salvador

Um trio elétrico, com dançarinas de axé, aguardava apenas que Pelé marcasse na Fonte Nova para invadir o campo, paralisar o jogo contra o Bahia e coroar o milésimo gol do Rei do Futebol com um desfile dentro do próprio estádio.

Dois dias antes daquela partida de 16 de novembro, o camisa 10 mais famoso do mundo havia declarado que não via a hora de chegar ao fim a corrida pelo gol mil da carreira e que gostaria de marcar em Salvador. A cidade não podia desapontá-lo.

A contagem regressiva iniciou em 28 setembro, na estreia do Santos no Torneio Roberto Gomes Pedrosa após o time retornar de uma excursão pela Europa, com passagens pela antiga Iugoslávia, pela Itália, pela Espanha e pela Inglaterra.

Quando Pelé desembarcou no Brasil para jogar a competição nacional, a maioria dos veículos contava 987 gols na carreira do Rei do Futebol. Julgando pela média de tentos, era possível que, em um mês ou um mês e meio, ele chegasse ao milésimo.

Na verdade, ele precisou de 52 dias corridos e 12 partidas para fazer os 13 gols que faltavam. No período, ele passou em branco apenas quatro vezes. E ainda lidou com uma contusão muscular que o tirou de três jogos do time.

Ocorre que a cada vez que ele aparecia para jogar a cobrança pela milésimo aumentava.

"Ele não costumava demonstrar ansiedade, embora a gente sentisse que ele estava querendo marcar logo aquele gol. Nós estávamos bem mais ansiosos do que ele, apreensivos, porque era muita cobrança. Vinham jornalistas de fora para perguntar do milésimo", disse o ex-ponta-esquerda Edu.

"A cada jogo do Santos a pergunta era a mesma: hoje é dia do milésimo? E ele já não aguentava mais. Queria marcar logo", disse o ex-goleiro Aguinaldo Moreira.

Quando Pelé fez dois gols na vitória santista sobre o Coritiba por 3 a 1, em Curitiba, em 22 de outubro, todos estamparam que faltavam apenas cinco e todas as cidades que estavam para receber o Santos começaram a fazer preparativos para festejar.

Ao marcar um gol diante do Botafogo-PB, no jogo em que teve "armação" (leia nos próximos dias), o camisa 10 declarou que gostaria muito de chegar ao milésimo em Salvador, diante do Bahia. Tudo isso fez aumentar a expectativa.

"Me escalaram para apitar o jogo e a recomendação foi a seguinte: 'Vai para Salvador no sábado de manhã'. Perguntei: 'Por quê?' Afinal o jogo era no domingo à tarde e eu costumava viajar na noite anterior. 'Você vai participar do ensaio da festa para o milésimo gol do Pelé", disse o ex-árbitro Arnaldo Cezar Coelho.

"Cheguei por volta do meio-dia. Fui para o estádio participar do ensaio. Botaram uns jogadores fictícios. Aí fizeram um gol, comemoração do gol... como se fosse um jogo normal. De repente, para tudo. Queriam para uma hora. Eu disse: 'A regra é clara, uma hora não pode, o máximo que a Fifa permite é meia hora", prosseguiu.

Diante da explicação do árbitro do jogo, a Federação local e os representantes da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) mudaram o roteiro.

"Aí modificaram algumas coisas e perfilaram por trinta minutos, dentro da lei. Armaram um festão e aí, de repente, entrou em campo um trio elétrico, com dançarinas e uma banda de axé. Tinha até um ator simulando que era o Pelé em cima do trio elétrico, com as criancinhas e tudo".

"Eu achei divertido e desejava ser o árbitro do milésimo gol do Pelé. Dormi com grande expectativa", disse.

Faltava Pelé marcar o gol.

O Rei do Futebol foi escalado como titular pelo técnico Antoninho naquele 16 de novembro, em que o Santos empatou por 1 a 1 com o Bahia diante de 37.378 pessoas. O camisa 10 foi bem marcado e teve dificuldades, o que resultou em vaias aos zagueiros do Bahia da torcida.

"Muitos torcedores que foram ao estádio torciam pelo Pelé e queriam ver o milésimo. Era natural que houvesse pressão para cima do time da casa", disse o ex-árbitro.

O jogador teve a chance de fazer o gol esperado no segundo tempo, quando tabelou com Manoel Maria, passou pelo zagueiro Baiaco, deixou o goleiro Jurandir no chão e chutou para o gol aberto. O chute foi rasteiro. A bola nem ganhou tanta velocidade, mas foi em direção ao gol e quando estava perto da risca da meta...

"No lance em que sairia o gol, um zagueiro do Bahia, o Nildo [também chamado de Birro Doido], salvou em cima da linha. Foi uma vaia geral no estádio. Os caras queriam ver o gol do Pelé, queriam ver o milésimo", disse Arnaldo, aos risos.

"Todo mundo queria matar ele. E a gente ficou sem entender nada. Pô, o cara salvou o próprio time. Deveria ser aplaudido", disse Edu, aos risos.

"Eu nunca vi isso na vida. O cara salvou o clube, mas ficou mal com a torcida. O Pelé ficou até sem graça. Não sabia se lamentava o gol perdido ou se consolava o zagueiro do Bahia", disse Aguinaldo.

A partida prosseguiu com o público ainda apreensivo, mas o resultado final foi mesmo 1 a 1. A festa preparada foi cancelada. Ficou para o Rio de Janeiro.

Já Arnaldo recordou que ficou chateado por não ter apitado o jogo que marcaria o milésimo gol de Pelé, embora, anos depois, entraria para a história como o primeiro brasileiro a apitar uma final de Copa do Mundo, em 1982.