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Como corrida pelo milésimo fez o primeiro gol de Pelé ser eternizado na história

Pelé precisou fazer quase mil gols para desvendar o mistério da primeira vez que balançou as redes como jogador profissional e eternizar aquele momento na história.

A contagem de gols do Rei do Futebol começou em 7 de setembro de 1956, mesmo dia em que estreou como profissional pelo Santos, tendo apenas quinze anos. O jogo foi no já inexistente estádio Américo Guazelli, no bairro da Vila Alzira, em Santo André, na Grande São Paulo.

Pelé entrou aos 30 minutos do segundo tempo de um amistoso contra o Corinthians de Santo André, time amador, e, seis minutos depois, marcou o sexto gol da vitória por 7 a 1. A partida fez parte dos festejos de aniversário da Independência do Brasil.

Ele não era apenas um garoto em um time que tinha destaques como Manga, Urubatão e Zito e que ostentava a faixa de campeão paulista de 1955. Ele era também um total desconhecido. Até para a própria torcida.

Magro, baixo e tímido, mas rápido, muito rápido com a bola nos pés. Por isso, alguns colegas de Santos o chamavam de Gasolina, embora o apelido Pelé já estivesse consagrado desde os tempos de Bauru.

"Me chamavam de Gasolina porque eu era muito rápido com a bola nos pés. Tinha um belo arranque", disse Pelé para a ESPN Brasil.

Foi justamente por ele não ser conhecido que o gol marcado naquele dia acabou "escondido". O mesário da partida era Nelson Cerchiari, na época com 32 anos e hoje com 92. Ele foi o responsável por fazer as anotações dos fatos ocorridos em campo. Acabou anotando o sexto gol para outro jogador.

"Seu Nelson não reconheceu Pelé e foi até o banco de reservas perguntar quem era o garoto que acabara de entrar. Perdeu de vista o sexto gol santista e perguntou para quem estava em volta: 'Quem marcou?'. Alguém respondeu: 'Raimundinho', que também tinha acabado de entrar. E ele anotou para o Raimundinho.Esse erro passou por muita gente e assim ficou por mais de uma década. Foi corrigido somente em 1969, felizmente pelo próprio mesário", disse o jornalista Celso Unzelte.

"Ninguém conhecia o Pelé. Ele era recém chegado ao Santos e a escalação naquele jogo foi feita de improviso. Perguntei a quem estava próximo ao banco do Santos quem tinha feito o gol e alguém respondeu o Raimundinho. Por isso, eu confundi", disse Nelson Cerchiari, quase cinco décadas depois, para a ESPN Brasil.

"Depois de muitos anos, já em 1969, um jornalista francês, entrevistando o Pelé, perguntou se ele lembrava onde ele tinha feito o primeiro gol. Faltavam 40 para ele chegar ao milésimo. E o Pelé respondeu: 'Eu marquei meu primeiro gol quando eu tinha 15 anos contra o Corinthians de Santo André'. Ao ver aquela entrevista, percebi meu engano. E dei um jeito de acessar os arquivos da Liga Andreense e corrigir a informação. Infelizmente, a correção foi feita após 13 anos".

Cerchiari tinha acesso à Liga porque durante muitos anos participou da vida esportiva da cidade, tendo sido um dos fundadores do atual EC Santo André, como sócio de número 15. Também presidiu o Corinthians da cidade anos depois.

O mesário descartou a súmula original e a substituiu por outra feita totalmente à mão, com as informações corretas. Nesse novo documento, Pelé não é mais Gasolina, mas é o autor do sexto gol do Santos na goleada por 7 a 1.

"O seu Nelson teve um senso muito aguçado como historiador. Ele corrigiu uma informação que poderia, anos mais tarde, colocar em dúvida outros fatos históricos na biografia do Pelé, inclusive altera a contagem para o milésimo gol", disse Unzelte.

Memória perdida

Não foi apenas a súmula original que se perdeu.

Para quem tem curiosidade de conhecer o local onde Pelé marcou o primeiro de seus 1.282 gols, é bem frustrante. O estádio Américo Guazelli deixou de existir em 1984, quando a diretoria do Corinthians o demoliu.

No local, foi construído o parque aquático do clube e dois campos menores. Há também um edifício, com vestiários, banheiros e espaço para refeições. Hoje, as piscinas também estão sendo aterradas, e não há nenhum vestígio de que ali teve um estádio.

A meta em que Pelé marcou não existe há muitas décadas. Nem mesmo as traves ou a rede foram preservadas. No lugar onde a "história real" começou há um pequeno portão amarelo, usado para acessar um dos campos de grama sintética.

Não há um busto nem mesmo um placa.

"Foi um trabalho que tanto a prefeitura como as diretorias antigas do Corinthians não fizeram. Caiu no esquecimento e o próprio clube não tem uma condição financeira para fazer algo", disse José Orlando de Moura, o Jarrão, presidente do Corinthians de Santo André há quatro anos.

Outra memória que também está se perdendo é como foi marcado o primeiro gol de Pelé. O goleiro Zaluar, que foi quem sofreu aquele tento, morreu em 1995. Muitos outros que estavam naquela partida também. Mas há um homem que ainda preserva na memória os detalhes daquele dia.

"Hélvio, zagueiro do Santos, deu a bola de cabeça e ela veio para o meio do campo para o Pelé. Eu dei combate porque era o volante do time. Ele pegou a bola e me driblou. Depois passou pelo Zito [zagueiro do Corinthians], passou pelo Dati [outro zagueiro] e chutou por baixo do Zaluar", disse Antonio Schank, o Antoninho.

É ele quem lamenta a falta de qualquer referência ao que aconteceu na sede do Corinthians andreense em 1956.

"Infelizmente, o brasileiro é curto de memória. Fosse qualquer país da Europa e haveria uma placa, um busto, visitas ao local do primeiro gol do Pelé. Aliás, todos os campos em que ele se apresentou e marcou deveria ter uma placa. Mas a memória do brasileiro é curta. E a história cai no esquecimento", disse Schank.