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Há 50 anos, milésimo gol de Pelé causou polêmica e 'guerra' entre jornalistas por causa do Corinthians e do Paulistão

Foi da entrada da área, e não da marca do pênalti, aproveitando um lançamento longo de Edu, e não uma cobrança de penalidade, com a bola morrendo do lado direito do goleiro Aloísio, e não do lado esquerdo de Andrada, que Pelé chegou ao milésimo gol da carreira, há exatos 50 anos.

Ao menos, assim noticiou "A Gazeta Esportiva", um dos mais importantes jornais esportivos, considerando que a marca foi alcançada na goleada do Santos sobre o Santa Cruz por 4 a 0, na Ilha do Retiro, em 12 de novembro de 1969. No dia seguinte, estampou: "Recife aplaudiu o 1.000º de Pelé".

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Para o restante da imprensa nacional e internacional, o feito ocorreu naquele ano, mas sete dias depois, na noite de 19 de novembro, na vitória santista sobre o Vasco por 2 a 1, no Maracanã, com 70 mil presentes. A capa de "A Gazeta Esportiva" foi "Maracanã de pé consagrou Pelé", contrariando todos os outros jornais.

Por trás dessas duas manchetes do jornal está uma longa história de bastidores na cobertura do milésimo gol do Rei, uma "guerra" entre dois jornalistas muito conhecidos na época, que teve como pivô um jogo contra o Corinthians e duas edições do Campeonato Paulista. Até a CBD virou mediadora do debate.

Os personagens

De um lado da história estava o italiano radicado no Brasil Thomaz Mazzoni (abaixo, à esquerda), 69, na época chefe de redação de "A Gazeta Esportiva" e uma referência sobre história do esporte no país. Tinha um acervo próprio, com dados e estatísticas da seleção e dos grandes jogadores.

Apelidou todos os clássicos envolvendo os grandes de São Paulo: Dérbi (Corinthians x Palmeiras), Majestoso (Corinthians x São Paulo), Choque-Rei (Palmeiras x São Paulo) e SanSão (Santos x São Paulo). Foi ele também quem vinculou o Corinthians ao Mosqueteiro, em 1929.

Mazzoni foi ainda o primeiro jornalista a chamar à atenção, já no início de 1969, para a possibilidade de o Rei fazer o milésimo.

Do outro lado, estava Adriano Neiva da Mota e Silva, o De Vaney (abaixo, à direita), 62, de "A Cidade de Santos". Filho e neto de políticos, ele era natural de Ribeirão Preto. Os primeiros anos de carreira foram escrevendo sobre política para jornais como "O Globo". Ingressou no esporte após fazer uma entrevista com Leônidas da Silva e pegar gosto. Em 1944, ao passar em um concurso público, mudou-se para Santos e deu sequência na profissão, especialmente em "A Tribuna".

Julgava-se um especialista em Pelé. Dedicou muitos textos ao Rei, mas, ironicamente, terminou a vida como inimigo dele. Chegou a publicar o livro "A verdade sobre Pelé: as fantasias, os exageros, o mito e a história de um desertor", em 1975. A obra confronta todos os feitos do jogador, inclusive a marca de mil gols...

A conta não bate

Foi em outubro de 1969, após Pelé marcar quatro vezes na goleada do Santos sobre a Portuguesa por 6 a 2 e ficar mais próximo do milésimo gol, que o real número de tentos dele transformou-se em debate entre "A Gazeta Esportiva" e "A Cidade de Santos".

Nas contas de Mazzoni, Pelé tinha alcançado 995 gols, enquanto para De Vaney, 993.

Em seus editoriais, o jornalista italiano atacava aqueles que o contrariavam: "Quando falamos no início do ano que faltavam 68 gols para o milésimo ninguém deu bola". Em outra: "Ainda bem que se discute apenas dois gols de diferença num total de quase mil, marcados em 16 anos de carreira".

A conta deles não batia por causa de duas edições do Campeonato Paulista. Mazzoni computava dois gols a mais, um referente ao torneio de 1957 e outro em 1960: 37 e 33 gols, respectivamente. De Vaney considerava 36 e 32, pela ordem.

O debate foi parar nas páginas da "Folha de S.Paulo", em setembro daquele ano, com a manchete "Quantos gols Pelé já marcou?".

"Nesta terra sem estatística, a Confederação Brasileira de Desportos resolve comemorar 100 partidas de Gilmar na seleção brasileira, quanto todo mundo sabe que ele disputou 94", disse Mazzoni ao jornal. "As súmulas arquivadas na Federação Paulista indicam a soma de 433 gols marcados por Pelé até hoje, em sua carreira dentro do Campeonato Paulista. São os mesmos que constam das nossas estatísticas. Aqueles que afirmam que esses gols foram 435 devem provar", rebateu De Vaney.

O gol no Corinthians

Para acalorar ainda mais a discussão, Pelé enfrentou o Corinthians em 19 de outubro daquele ano e fez um gol, mas a partida durou apenas 45 minutos e foi suspensa por causa da forte chuva que castigou o gramado do Pacaembu. O confronto foi adiado para 4 de novembro.

A CBD decidiu desconsiderar o encontro inacabado, desconsiderando também os gols de Pelé e Rivellino (o placar estava 1 a 1).

Mazzoni não fez o mesmo. Nas contas dele, aquele foi o gol 996 do Rei. E "A Gazeta Esportiva" de 20 de outubro estampou: "Valeu sim, faltam quatro".

"Os 44.501 torcedores que estiveram no Pacaembu viram o gol. Mais alguns milhares que foram ao Estádio sem pagar ingresso, também assistiram ao lance. Os 'tapes' levaram a imagem do feito a um número incontável de residências. O gol existiu. E conta para o arquivo individual de Pelé, muito embora não possa ser computado nos gols dos artilheiros do Robertão. No entanto, estamos registrando apenas e unicamente o feito individual de um goleador. E o que ele fez é válido", justificou no jornal.

Não foi assim que o restante da crônica esportiva viu. Pelé continuava com 993 gols. Nova revolta nas páginas de "A Gazeta Esportiva": "Para a CBD o gol vale".

"A CBD houve por bem registrar em seus arquivos a súmula dos quarenta e cinco minutos da partida entre Corinthians e Santos. Assim, para efeitos estatísticos, foram considerados válidos os gols anotados por Rivellino e Pelé. Como qualquer jogador expulso incorreria em pena, a partida (45 minutos jogados) praticamente existiu."

A palavra final

Diante de tamanha celeuma, os números foram encaminhados para a CBD em 20 de outubro, na expectativa que a Confederação desse a palavra final.

Quem recebeu os dados foi Antônio do Passo, diretor de futebol da entidade. Passados sete dias, ele respondeu que a CBD não poderia decidir nada nem oficializar as contas dos jornalistas por não possuir "estatísticas próprias".

Três dias depois de ser criticada por se omitir, a CBD voltou atrás e se pronunciou. Decidiu chancelar os números usados pelo Santos, levantados por De Vaney, ou seja, Pelé tinha 993 gols. E desconsiderou o tento marcado contra o Corinthians no jogo inacabado. Mais pano para manga...

Fim da polêmica?

Mazzoni não se deu por vencido. Publicou textos criticando os "entendidos" e manteve "A Gazeta Esportiva" na rota que julgava a correta. Por isso, quando o Santos foi enfrentar o Santa Cruz, noticiou que bastava um gol para o milésimo, enquanto todos os outros veículos diziam que faltavam três.

A expectativa fez a Ilha do Retiro receber um público acima do que as autoridades previam. Oficialmente, foram 34.132 presentes, mas bem mais torcedores estiveram lá. Antes do jogo, a polícia teve de controlar uma tentativa de invasão.

Em campo, Pelé fez dois gols para o Santos. Ou seja, chegou a 1.001 pelas contas de Mazzoni, que, talvez frustrado com os que o desacreditaram seu trabalho, nem sequer mandou um fotógrafo do jornal para acompanhar aquele dia histórico. E o texto do jogo ocupou uma coluna, com cinco parágrafos, além da ficha técnica.

Para a história, escrita por todos outros jornais, o milésimo só sairia mesmo em 19 de novembro, dois jogos depois.

Até hoje controverso

Não foi bem assim. Ao longo das décadas muitos "encontraram" gols esquecidos de Pelé. Até que, em 14 de maio de 1995, a "Folha de S.Paulo" publicou a sua descoberta, fruto de uma pesquisa de três meses.

Para ela, o gol mil foi em 14 de novembro, na vitória santista sobre o Botafogo-PB por 3 a 0, em um amistoso em João Pessoa. A manchete do jornal foi "Paraíba viu o verdadeiro milésimo gol; erro de contagem consagrou o Maracanã".

A justificativa do jornal foi um jogo esquecido em 1959, quando Pelé defendeu a seleção das Forças Armadas do Brasil no Campeonato Sul-Americano Militar, em 18 de novembro. Ele fez um dois gols na vitória sobre o Paraguai por 4 a 3.

Mesmo com a publicação e a discussão gerada, a data de 19 de novembro prevaleceu como o dia da consagração do milésimo gol para todo mundo. E até hoje ninguém conseguiu descobrir quantos gols exatamente Pelé fez. Se foram 1.281, 1.282 (como ele costuma usar), 1.283 ou 1.285.

Ao menos ninguém dúvida que foram mais que mil!!!