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'Juiz ladrão' na Urca, discussão na Globo e Retiro dos Artistas: como Arnaldo Cezar Coelho salvou amigo Sérgio Noronha

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Retiro de Noronha: O novo 'lar, doce lar' de Sérgio Noronha, o jornalista de muitas histórias e que foi salvo pelo amigo Arnaldo Cezar Coelho (10:23)

Ex-comentarista hoje vive no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro (10:23)

Sem trégua, os gritos de "juiz ladrão" eram repetidos de maneira exaustiva e cada vez mais fortes, algo que incomodava o jovem Arnaldo Cezar Coelho, perto dos 30 anos de idade e começando a carreira com árbitro, ao mesmo tempo em que o obrigava a fingir que nada ouvia nas areias da praia da Urca, zona sul do Rio de Janeiro. O local era pouco amigável e não oferecia rota de fuga caso houvesse uma confusão.

Em Copacabana ou Ipanema, quando uma partida de futebol na praia terminava mal, o juiz fugia pelo mar, nadando. Na Urca não era uma boa ideia. “Teria que nadar muito e acabaria saindo na baía de Guanabara”, relembra hoje Arnaldo, aos 76.

A provocação sofrida na Urca décadas atrás ficou marcada em sua memória por razões específicas. O juiz lembra que apitava um jogo do Guaíba, tradicional time do bairro, que tinha entre seus torcedores homens como Mario Vianna, ex-árbitro profissional e famoso brigador.

Arnaldo recorda também que a maioria dos torcedores eram lutadores de jiu-jitsu e judô, donos de boa estatura e fortes. Aqueles do Guaíba gostavam de brigar.

A ironia dessa história é que os gritos de provocação vinham do jogador de menor estatura daquele time e, pior, reserva. Mesmo assim, o sujeito era provavelmente o mais conhecido do time. Era jornalista, fã de praia, mulheres e apreciador de boa bebida. Nada mais, nada menos do que Sérgio Noronha, perto dos seus 35 anos.

“Sérgio jogava no time reserva do Guaíba, mas mesmo no banco ele ficava gritando: ‘O juiz ladrão, o juiz ladrão, o juiz ladrão’. E a torcida era brava. O chefe da torcida era ele. [Por causa daquele episódio] fiquei na bronca com ele”, contou Arnaldo para a ESPN.

Aquele episódio vivido no fim da década de 60 só foi apaziguado alguns anos depois, quando Arnaldo e Noronha ficaram frente à frente na Alemanha.

“Nós viajamos para a Copa do Mundo de 1974. Eu para apitar e ele para trabalhar pelo 'Jornal do Brasil' [como chefe de reportagem]. Foi durante a viagem para a Alemanha que conversamos, ficamos amigos e somos amigos até hoje”, diz Arnaldo, com orgulho.

Discussão ao vivo

Ambos nascidos na cidade carioca, a amizade foi crescendo entre a dupla a medida que o convívio aumentou.

Eles se encontraram novamente nos Mundiais de 1978 e 1982, quando Arnaldo tornou-se o primeiro árbitro brasileiro a apitar a final do torneio. Noronha já ocupava espaço como uma referência entre os jornalistas, não apenas do Rio, mas do país.

“Existe uma geração de jornalistas das antigas, como Carlos Lemos, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, José Trajano. Muitos jornalistas daquela época que faziam o verdadeiro jornalismo, puro, escreviam textos maravilhosos. E o Sérgio foi um deles. Tinha um texto maravilhoso, escrevia bem, era um cara sincero e dizia: Arnaldo, se você não quer que eu publique, não me conte. Era o lema dele”, lembra.

Essa aproximação aumentou no final dos anos 1980, quando Arnaldo foi contratado pela TV Globo para ser assistente do jornalismo em assuntos que envolvessem dúvidas sobre as regras do jogo. Agradou e ficou de forma definitiva.

Ele se tornou o primeiro comentarista de arbitragem da televisão nacional. Trabalhou em oito Copas do Mundo pela TV Globo, começando em 1990. Praticamente todas --exceção feita as três últimas-- com Noronha também na equipe.

Algumas rusgas existiram e uma acabou sendo ao vivo.

“A gente estava comentando um Fla x Flu em Volta Redonda e ele estava criticando o árbitro. Eu olhava para ele assim, como quem diz, deixa a arbitragem comigo. No final do jogo, o juiz fez uma lambança e teve que expulsar dois ou três jogadores. Aí ele disse: ‘Falei que esse juiz era um banana”. Eu respondi: ‘Sérgio, ele não é um banana. Ele tentou levar o jogo até o final e teve de expulsar dois ou três’. Devia ter parado aí, mas acrescentei: ‘Outra coisa, se mete na parte técnica do jogo. Deixa que eu cuido da arbitragem’. Depois fiquei calado e fui embora. Mas levei uma bronca do meu chefe. Não foi legal aquilo no ar, ao vivo”, lembra.

Das praias para o Retiro dos Artistas

Desde o ano passado, Noronha está morando no Retiro dos Artistas, no bairro de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro. Acabou indo para lá devido ao progresso do Mal de Alzheimer, doença que se manifestou em 2015, e também problemas financeiros que o fizeram perder tudo.

“O que aconteceu com o Sérgio é o que acontece com muitos aposentados: gastam mais do que recebem. Ele tinha uma boa vida, morava de aluguel, mas gastava mais do que ganhava e o dinheiro acabou”, disse Arnaldo, que foi justamente quem estendeu a mão ao amigo e o levou ao Retiro.

“O Arnaldo Cezar Coelho é um anjo na vida do Sérgio Noronha. Ele nos procurou e explicou as necessidades do Sérgio e disse que ele de um lugar para ter descanso e tranquilidade e também fazer outras atividades”, explica Maria Aparecida Cabral, Administradora Geral do Retiro dos Artistas.

“O Arnaldo transformou uma casa aqui no Retiro em quase um palácio. Reformou o piso, colocou ar condicionado, TV e deu tudo que o amigo gostaria de ter. É um anjo”.

Para quem não conhece o Retiro dos Artistas, trata-se de um local centenário criado por iniciativa do ator Leopoldo Fróes para dar abrigo aos artistas estrangeiros que ficaram no Rio por causa da Primeira Guerra Mundial devido à falta de comunicação e a impossibilidade de retornarem para suas pátrias.

Irineu Marinho, pai do jornalista e empresário Roberto Marinho (homem responsável pelo crescimento de “O Globo” e pela criação da Rede Globo), divulgou a ideia do Retiro nas páginas do jornal “A Noite”, conseguindo a doação de um terreno para receber as casas e os artistas.

Ainda que tenha casas com cobrança de aluguel, o local abriga muitos artistas sem condições financeiras e sobrevive até hoje com ajuda e doações. Até porque muitos que lá moram não tem como arcar com os custos básicos. A Rede Globo banca mensalmente os gastos com energia elétrica, na casa de R$ 30 mil.

“A gente está sempre trabalhando no vermelho, mas procurando vencer. Está difícil para todo mundo, não só para o Retiro. Tem dezenas de instituições que passam pelo mesmo problema. Nosso objetivo principal é dar amor e dignidade para essa turma que vem parar aqui’, disse Maria Aparecida.

O local aceita todo o tipo de auxílio em seu site, inclusive visitas aos moradores.

O veterano jornalista e suas lições

Aos 86 anos, Sérgio Noronha tem uma rotina pacata no Retiro dos Artistas. Acorda cedo e gosta de assistir programas sobre futebol até o horário do almoço, especialmente os debates. Também vê noticiário em geral. Depois que almoça, costuma descansar.

No fim da tarde ou à noite, pede para assistir alguma partida de futebol.

Como passa a maior parte do tempo numa cadeira de rodas, ele conta o auxílio de dois cuidadores, que se revezam e procuram levá-lo para dar voltas no Retiro dos Artistas durante o dia. Assim, ele também interage com outras pessoas.

O espaço conta com piscina, cinema, teatro, refeitório, área verde e até um salão de beleza.

“Com a chegada da idade, você passa a ver a vida um pouco mais, com algumas coisas especiais que fazem parte do seu convívio, da sua profissão. Amizades mais fortes. Tudo faz parte”, diz Noronha.

“Eu acho que a espera não é mais tão importante [nesse meu estágio da vida]. [O importante] É viver. Enfrentar os problemas. E conviver com os amigos, os antigos e os novos”.

“Já não sonho com a mesma disposição de alguns anos atrás, mas eu tenho alguns sonhos. [De que tipo?] Sonho coisas da minha profissão...”.

“[O jornalismo sente saudade de Sérgio Noronha!] Acho que eu sinto mais dele do que ele de mim. porque era... não tem nem hora marcada, dia definido. Todo dia tem alguma coisa para você fazer”.

Assim, mesmo com a saúde abalada e dificuldades para falar por muito tempo, Sérgio Noronha ainda dá lições da profissão que exerceu por mais de 60 anos e da qual foi uma referência para muitos repórteres.

Bastidores de um encontro

Nosso encontro com o Arnaldo Cezar Coelho, homem que ajudou a salvar Sérgio Noronha, aconteceu na sede principal de sua rede de emissoras, afiliadas da TV Globo, a Rio Sul.

Da sede em Resende, na região sul-fluminense, o ex-árbitro e hoje empresário comanda uma equipe de 180 profissionais. A TV Rio Sul cobre 24 cidades do interior do Rio de Janeiro, com um alcance de uma população de 1,4 milhão de pessoas.

Chegamos em Resende para entrevistá-lo a fim de conhecermos histórias da relação dele com o jornalista Sérgio Noronha.

Lá descobrimos a grande paixão de um empresário que adquiriu há 30 anos um canal de televisão.

O terreno onde está situada a sede do canal mais parece uma fazenda encravada na cidade do que uma televisão em meio à uma cidade com 130 mil habitantes.

Logo na entrada, árvores fazem parte de um belo corredor de ruelas que nos leva até o casarão, onde fica a televisão de Arnaldo.

Ao chegar à sede, ainda a olhando do carro, nos deparamos com a arquitetura do ímovel, uma lembrança dos áureos tempos do Brasil colonial.

Ao estacionarmos o carro, logo encontramos com a secretária do empresário que nos levaria até a entrada do gigantesco casarão.

Na porta principal Arnaldo Cézar Coelho já estava esperando, em pé, brincando com a nossa equipe, dizendo que não tinha vaga para a gente na emissora dele e que os nossos salários eram altos demais. Doce ilusão, meu querido; também brincamos com ele.

Ali mesmo, encantados com a construção da sede Arnaldo nos contou que, inspirado na casa sede da fazenda São Fernando, propriedade do irmão dele, Ronaldo, ele copiou apenas a casca do casarão para construir dentro da sede uma das mais sofisticadas e projetadas televisões do país. Com salas, equipamentos, estúdios e departamento operacional de última geração.

A verdade é que, enquanto a gente estava preocupado em entrevistá-lo para ouvir suas histórias com o amigo que ele banca no Retiro dos Artistas, Sérgio Noronha, ele queria nos mostrar o grande orgulho que ele carrega como homem, empresário de comunicação.

Foram duas horas e meia ao lado do ex-árbitro que aprendemos a admirar depois que ele apitou uma final de Copa do Mundo, a de 1982, na Espanha. Foi uma tarde onde tivemos a honra de conhecer, na essência, um cara simples, engraçado e super generoso, não só com o amigo jornalista Sérgio Noronha, como com todos os funcionários aos quais tivemos o prazer de conhecer ao lado dele.