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Criador de 'Gol, o Grande Momento' venceu poliomielite e agora inspira narrador a superar deficiência

Reunidos, os locutores Vagner Alves e Alexandre Santos (dir.) e o repórter Marcelo Gomes (centro) Arquivo Pessoal

Alexandre Santos: o renascimento de um gigante da narração. Um homem que supera o preconceito e a poliomielite há 80 anos. Ele foi um dos maiores narradores da história da crônica esportiva entre as décadas de 1960 a 1990. Estava sumido da mídia desde quando sofreu um AVC (acidente vascular cerebral), 20 anos atrás. Perdeu a voz por 4 anos e foi parar na cadeira de rodas Alexandre Santos só não perdeu a força de viver e seguir contando histórias de vida e de suas épicas narrações nos 50 anos de profissão.

A história de vida do narrador Alexandre Santos tem passagens que muitos fãs de esporte desconhecem. A primeira delas é o drama pessoal vivido por ele aos dois anos e meio de idade, no interior de São Paulo, quando foi diagnosticado com o vírus da poliomielite, mais conhecido no Brasil como paralisia infantil.

Na época do surto, Alexandre não tinha o nome que o tornou conhecido em todo o território nacional como o inventor do programa “Gol, o grande momento do futebol”, da TV Bandeirantes.

Na verdade, o nome de batismo de Alexandre Santos é Antônio Hélio Spímpolo. Ele só mudou de nome quando, em 1957, foi trabalhar como rádio escuta no grupo Bandeirantes de comunicação e porque lá já havia um narrador homônimo.

À época, outro ícone do rádio esportivo, o já falecido Fiori Gigliotti, chefe da equipe de esportes da emissora, sugeriu que Antônio Hélio criasse um novo nome para assumir os plantões da rádio, em 1958, mesmo ano em que o Brasil conquistou o primeiro de seus cinco títulos de Copas do Mundo.

Foi aí que Antônio Hélio escolheu ser chamado de Alexandre, em homenagem ao irmão mais velho que já havia morrido, Santos, por causa do dia 1º de novembro, o dia de todos os santos. Coincidentemente, foi também em um 1º de novembro que ele sofreu uma das pancadas mais duras de sua vida, a poliomielite.

Com a benção do Mestre

A exemplo de Alexandre Santos, Vagner Alves também é locutor. As semelhanças entre os dois não ficam apenas na profissão pela qual são apaixonados.

Vagner enfrenta até hoje as mesmas dificuldades que Alexandre encarou a vida inteira. Ambos tiveram poliomielite aos dois anos e meio.

Vagner tem 44 anos e há 18 trabalha como locutor de esportes, não só de futebol, como ele mesmo faz questão de ressaltar.

Morador da cidade de Valinhos, distante a 90 km da capital paulista, Vagner luta em busca de uma grande oportunidade, de preferência em uma grande emissora de rádio do Brasil.

Trabalhou em várias emissoras da região de Campinas e Jundiaí.

Sempre enfrentou o preconceito com a mesma força que teve quando pôde andar aos 16 anos, após várias cirurgias nas pernas.

A dificuldade para arrumar o trabalho dos sonhos esbarra inevitavelmente no olhar daqueles que eventualmente poderiam contratá-lo.

“Toda vez que eu mando um áudio com as minhas narrações, na maioria das vezes, os donos de rádio, ou os responsáveis por contratações sempre me elogiam. Eles ficam encantados com as minhas narrações, dizem que eu narro muito. Mas quando a entrevista é marcada pessoalmente a coisa muda de figura. Na maioria das vezes, o contratante fica assustado, diz não saber que eu era um deficiente físico e aí as conversas sempre terminam com um ‘Veja bem... A gente vai entrar em contato com você’. E isso nunca acontece, né”, afirma Vagner Alves.

O locutor nos procurou por causa de uma reportagem feita para o ESPN.com.br, chamando à atenção para a história de um outro grande nome da locução esportiva brasileira. Osmar Santos.

A reportagem: “Osmar Santos, o homem que me fez assumir a minha deficiência”, foi o ponto de partida para que Vagner nos procurasse.

No primeiro contato, Vagner nos pediu uma chance. Ele queria fazer um teste de locução para os canais ESPN.

E, como as habilidades de Vagner estão direcionadas para o rádio, propusemos então, além de contar a história de vida dele, leva-lo ao encontro com um mestre da locução esportiva, um homem que sentiu as mesmas dificuldades da paralisia infantil, Alexandre Santos.

O fantasma da poliomielite

Vagner nasceu em 1974. Viveu a infância na cidade de Mauá, região metropolitana de São Paulo.

Teve um início de vida tranquilo. Era uma criança serelepe. Já ficava em pé com apenas oito meses de idade.

Teve a história completamente alterada em 1976, quando um surto de poliomielite tomou conta de várias regiões do Brasil. No bairro onde morava, sua mãe Maruli Alves de Souza, relembra com tristeza o duro baque que levou.

“Eu tinha recém vacinado o Vagner, mas de repente seis crianças do bairro começaram a passar mal. Eu nem tinha ideia do que estava acontecendo, mas levei o meu filho ao posto de saúde, pois estava com uma febre altíssima. À época, a enfermeira do postinho me disse que poderia ser uma reação à vacina, mas que se ele continuasse com febre que era para eu leva-lo ao hospital. Naquele mesmo dia o Vagner vomitou treze vezes. Aí começou uma luta pela vida do meu filho”, afirma Dona Maruli.

A mãe de Vagner lembra que, daquelas seis crianças que foram diagnosticadas com a paralisia infantil, apenas o filho sobreviveu.

Está vivo até hoje simplesmente porque a mãe lutou até o fim.

Aliás, não faltam histórias de uma mãe guerreira quando sentamos para ouvir a saga de Dona Maruli, mais conhecida por familiares e amigos como Marilu.

A pernambucana 'arretada' não desistiu em momento algum da causa, muito menos do peso que iria carregar até os 16 anos de idade do filho.

Entre tantas histórias, uma das mais marcantes foi o dia em que recebeu do médico do Hospital das Clínicas, de São Paulo, a derradeira informação que o filho Vagner estava com a paralisia infantil.

“Lembro que, um dia o médico que cuidava do caso me chamou para subir com ele em uma sala grande, no hospital. Chegando lá, encontrei um monte de crianças se arrastando pelo chão. Elas me puxavam pela perna e me chamavam de mãe. E logo o doutor me disse: ‘A senhora está vendo essas crianças aí? O seu filho vai ficar igual. Todas que estão aqui foram abandonadas, rejeitadas pelos pais. Agora a senhora escolhe, vai levar o seu filho para casa ou vai deixar ele abandonado aqui?’”. Dona Maruli lembra dos tempos difíceis onde o preconceito imperava na sociedade, inclusive com os próprios pais que escondiam seus filhos dentro de casa com vergonha de apresentá-los em público.

A mãe de Vagner resolveu fazer o contrário, aliás, fez o que toda mãe deve fazer. Abraçou e lutou ao lado da família para que o filho adquirisse a dignidade de um cidadão como qualquer outro. Batalhou para que o filho pudesse andar com as próprias pernas e que fosse, acima de tudo, respeitado.

Não foram poucas as barreiras superadas por filho e mãe, inclusive na própria família, quando ela teve que ouvir conselhos absurdos e desumanos.

“Logo quando eu soube que o meu filho estava com paralisia infantil, eu caí no desespero. Cheguei em casa chorando, até que um parente próximo me disse o seguinte: ‘Olha, Maruli, você deveria estar feliz com a situação, pois se eu fosse você pegaria o Vagner e o levaria para andar no trem de Mauá à Jundiaí, com um pandeirinho na mão para pedir esmola. Você ficaria rica com isso’”, relembrou Dona Maruli. Mais uma vez a mãe guerreira reuniu todas as forças para provar a todos que seu filho teria a possibilidade de levar uma vida quase normal.

Mudou-se para o Vale do Ribeira, próximo a cidade de Registro, onde conheceu um médico que prometia o milagre que ela não conseguia encontrar nas mais variadas religiões que frequentou. Levou o filho em igrejas, centros espíritas, sempre atrás de um milagre que se apresentava cada vez mais improvável.

E depois de quatro cirurgias, enfim, quando Vagner tinha 16 anos de idade, Dona Marilu pôde ver o filho andando sem que ela tivesse que carregá-lo no colo.

Daí para frente, Vagner conseguiu terminar os estudos. Entrou na faculdade até se formar em administração de empresas.

Daí para frente, toda a família acompanhou a saga de um menino muito mais eficiente do que deficiente. Vagner virou e vem virando o jogo da vida, inclusive tornando-se um talentoso locutor esportivo de rádio.

Mas Vagner quer mais, quer a chance de ser reconhecido na profissão com a oportunidade de provar para si mesmo que é capaz de assumir as transmissões em uma grande rádio.

O teste final

Para saber se Vagner tem ou não talento para ser o locutor que sempre sonhou se tornar, seguimos com ele de Valinhos até a zona sul de São Paulo, mais precisamente em direção à casa de Alexandre Santos.

Marcamos a entrevista com o locutor e criador do “Gol, o grande momento do futebol”, mas não o avisamos que levaríamos Vagner para um bate-papo e um eventual teste.

Foi uma alegria rever o locutor que há quase duas décadas sumiu dos microfones da TV Bandeirantes.

Alexandre está afastado das narrações porque sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) que o deixou por quatro anos sem voz e o colocou definitivamente em uma cadeira de rodas.

No encontro entre os dois locutores e portadores de poliomielite, a princípio, Alexandre não entendeu nada.

Explicamos a ele que a nossa intenção era trocar experiências sobre uma doença que tinha sido erradicada nos anos 90 e que agora, em pleno Século XXI, volta a dar as caras no nosso combalido país.

Sabíamos que para Alexandre a Pólio era praticamente um assunto tabu, já que nos quase 50 anos de profissão ele nunca tinha assumido a paralisia infantil em público.

Foi uma tarde, um encontro para entrar para a história.

Alexandre falou com entusiasmo dos tempos em que criou 59 bordões, muitos deles usados até hoje pela nova e velha geração de narradores.

Lembrou de eventos e narrações épicas, não só no futebol como também nas inesquecíveis lutas de boxe de Maguila e a derrota de Mike Tyson, quando o Show do Esporte alcançou números impensáveis de audiência para a TV Bandeirantes.

Contou que aos 80 anos está mais vivo do que nunca. Faz natação, dirige o próprio carro adaptado. Viaja sempre ao sítio que tem no interior e leva os netos à escola.

Alexandre Santos abriu o coração.

Falou sobre o preconceito que enfrentou, da luta para provar onde um "entre aspas" deficiente poderia chegar. E aproveitou para falar de outros tipos de deficiência que temos que prestar atenção.

“O pior tipo de deficiência não é a física, mas a de caráter. Todo mundo tem um tipo de deficiência, mas a deficiência de caráter, de moral, é a pior de todas”, afirmou o locutor.

Frente a frente com Vagner Alves, Alexandre contou sua história de vida. Falou que quando criança jogava bola como goleiro, se arrastava em campo e mesmo assim conseguia ser melhor em campo do que muitos ditos normais.

Aproveitou para ensinar os caminhos das pedras para que Vagner encontre a oportunidade que tanto luta.

Falou que a caminhada deles, por causa da poliomielite é mais árdua, mas que as vitórias são sempre mais gratificantes e valorosas.

E no meio da conversa entre os dois, propusemos que fizessem um dueto para que a gente matasse saudade das grandes narrações do ídolo Alexandre.

E ele não só topou como também colocou na roda o Vagner Alves para improvisarem com jogos antigos do Santos e com as lutas de Adílson “Maguila” Rodrigues.

Foi um belo dueto, com um fechamento para lá de inusitado.

Como Vagner Alves trabalha em uma rádio Web de Campinas, sempre nos jogos da Ponte Preta e do Guarani, pela série B do Campeonato Brasileiro, sugerimos que Vagner fizesse um teste para que Alexandre o avaliasse.

O resultado dessa investida?

Só assistindo ao vídeo com a reportagem que fizemos para os canais ESPN que está lá no começo dessa matéria.