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Em casa de repouso, jornalista Roberto Petri, 83 anos, quer voltar a trabalhar

“O tempo passa, torcida brasileira”, a frase do saudoso locutor Fiori Gigliotti, ícone do rádio brasileiro e morto em 2006, serve para todo mundo. Afinal, o tempo passa mesmo, rápido e muitas vezes impiedoso, e deixa marcas e sequelas.

Se o tempo passa para todos nós, imagine então para um senhor que carregou, durante 50 anos, a responsabilidade de informar trabalhando em jornal, rádio e televisão.

Foi o que aconteceu para o grande Roberto Petri, o paulistano mais argentino que o jornalismo esportivo brasileiro já viu atuar.

Nesse meio século exercendo a profissão, Petri foi a referência do futebol argentino em nossas terras.

Tudo começou ainda na infância quando ele, vez ou outra, ajudava a tomar conta de uma banca de jornal na Avenida Consolação, onde o pai, italiano de nascimento, montou um comércio.

Ali, o garoto Roberto começava a se encantar com os jornais e revistas que chegavam da Argentina para serem vendidos. Lendo o noticiário e de olho nas histórias de um River Plate que ganhava tudo no final da década de 1940, Petri se rendeu aos encantos do nosso maior rival do futebol sul-americano e mundial.

Contato mesmo com a cultura do país vizinho Petri só veio a ter em 1959, depois da conquista do primeiro título mundial, quando o Brasil foi para a Argentina para a disputa do Sul-Americano, o mesmo que os donos da casa ficariam com o título.

Daí em diante, Petri tornou-se o jornalista mais especializado em futebol argentino da história de nossa crônica esportiva.

Fez parte de, no mínimo, 15 empresas de comunicação. Começou no rádio, em 1954, onde passou em um concurso para ser comentarista.

Trabalhou em grandes da mídia impressa. Foi, inclusive, dono de um jornal que mais deu prejuízo do que lucro durante quatro anos, fez parte de grandes equipes do rádio e brilhou durante muitos anos em várias emissoras de televisão.

Participou, também, da primeira transmissão ao vivo de futebol e da primeira transmissão a cores, na extinta TV Tupi. Descobriu talentos do jornalismo esportivo brasileiro em concursos de rádio, nomes que se tornariam consagrados como Galvão Bueno, Flávio Prado, Eduardo Luís (o “Ligeirinho”), entre tantos.

Petri, que não admitia que o chamassem de “Petrin”, com “N”, sempre foi um sujeito exigente nas redações. Sempre foi defensor do português perfeito e da informação precisa. Mesmo sem ter feito uma faculdade de comunicação, o jornalista prezava pela importância dos cursos de retórica e, quando encontrava com companheiros mais jovens de profissão nas redações, os presenteava com livros.

As dores da vida

Fazia pouco mais de uma década que o cronista havia sumido da grande mídia. Aliás, depois de uma tragédia que abalou a família, Petri praticamente deixou a profissão para cumprir com uma promessa que ele mesmo fez depois da morte trágica de sua filha mais velha, Claudia Regina Petri.

Há pouco mais de uma década que Petri e toda a família foram chamados a uma delegacia da Baixada Santista para receber a trágica notícia do assassinato de Claudia.

Hoje, tanto Roberto, quanto o filho caçula Bruno conseguem falar sobre o assunto, que deixou marcas irreversíveis na família.

Segundo Bruno, a irmã era uma pessoa que adorava estudar, havia se formado em Direito na USP e tornou-se oficial de Justiça Federal concursada. Claudia levava uma vida tranquila, ganhava um bom salário e se destacava na profissão, mas quase nunca apresentou à família um namorado ou um candidato a um relacionamento sério.

Isso até o dia em que ela conheceu um salva-vidas no Guarujá.

Foi um relacionamento sério e rápido, mas que não contava com o apoio da família, que nunca entendeu a razão do envolvimento dela.

Acontece que o caso amoroso com o ex-policial militar (bombeiro) ficou sério, com uma gravidez e um casamento realizado às pressas.

Pouco depois, segundo informações dos próprios familiares, Claudia foi encontrada morta, jogada no poço do elevador do edifício onde ela morava no oitavo andar.

A partir daí, Roberto Petri gastou o que tinha e o que não tinha para esclarecer o caso e, consequentemente, colocar o assassino na cadeia.

A verdade é que, depois de muita luta e de muito dinheiro investido em advogados, Petri conseguiu reunir prova suficientes para condenar o ex-marido de Claudia a 28 anos de prisão.

Em meio a esse período de muito sofrimento, Roberto perdeu a esposa, um ano após a morte da filha.

Depois de tudo, Petri perdeu a vontade e a força para continuar trabalhando na TV e no rádio. Enfrentou ainda dois AVCS (Acidente Vascular Cerebral), perdeu os movimentos das pernas e teve a pronúncia, então irretocável por toda a vida, um pouco comprometida.

Lar doce lar

Faz dois anos que Roberto Petri decidiu, por conta própria, viver em uma casa de repouso.

Não que ele esteja nadando em dinheiro, pelo contrário, a aposentadoria não é das melhores. Mas Petri conta com um grande imóvel que o pai deixou de herança, próximo ao Cemitério da Consolação, região muito valorizada da capital paulista. É com o dinheiro do aluguel do imóvel que ele segue na vida com o mínimo de cuidado e dignidade.

Pelo fato de ter sofrido dois AVCs, Petri perdeu os movimentos das pernas e, na casa de repouso, na Zona Norte da capital, conta com a integral assistência de fisioterapeutas e cuidadores, 24 horas por dia, em um intenso trabalho de fisioterapia com a intenção de voltar a andar.

O local não é nada parecido com a imagem criada dos asilos, onde os internos são tratados como animais na reta final de suas vidas.

Na casa de repouso, encontramos um jornalista feliz ao lado dos amigos e amigas que adquiriu nesses últimos dois anos. Lá, não observamos nenhum vestígio de falta de higiene, muito menos de descuido com os pacientes. E foi nesse ambiente acolhedor que o velho comentarista abriu o coração, contando histórias que nos remeteram aos grandes momentos do futebol e da crônica esportiva brasileira.

No papo, pudemos refletir sobre o quanto a vida passa rápido. Para mim, pra você, para Roberto Petri e para toda a humanidade.

Que dia foi esse e que honra foi passar algumas horas para ouvir tanta lição de vida, esporte e jornalismo com Roberto Petri.