<
>

Sensação da NFL, Gardner Minshew já tentou quebrar mão com martelo e ganha milhares de fãs por seu bigode

O NASCER DO SOL só acontecerá daqui uma hora na Flórida. A única luz vem de um poste enferrujado sobre uma lixeira, e mesmo assim - mesmo assim - Gardner Minshew deixa seu apartamento sorrindo em Jacksonville.

E ele sai falando sobre como escapar.

"Estou aprendendo a tocar violão", diz o quarterback dos Jaguars ao apontar para o rádio que está tocando uma música dos Allman Brothers. Seu sorriso é maior que seu bigode. "Está acontecendo... devagar. Mas eu amo isso."

Enquanto cruzamos a ponte para chegar ao centro da cidade, Minshew pergunta se já ouvi falar sobre o Yousician. É um aplicativo criado na Finlândia que tem tutoriais de como tocar instrumentos. Todas as noites, depois de seus treinos, ele coloca seus fones de ouvido e começa a escutar o professor virtual de violão.

Minshew começou a estudar há cerca de um mês, mesmo momento em que sua vida se tornou um verdadeiro trem bala. Nick Foles se machucou na semana 1 dos Jaguars, e o técnico Doug Marrone chamou o nome de Minshew. Na estreia, acertou seus 13 primeiros passes - e 22 dos 25 que tentou - na derrota para o Kansas City Chiefs. A primeira vitória foi sobre o Tennessee Titans, seguida pelo primeiro milagre, contra o Denver Broncos.

Agora, camisetas e latas de cerveja com o rosto de Minshew estão por todos os lados. Prêmios e patrocínios se tornaram comuns. Os Jags já vencem ingressos com a cara do quarterback, e várias histórias se espalharam sobre seu bigode, seus shorts jeans, sua faixa no cabelo e até mesmo sobre os alongamentos no vestiário usando nada mais do que um protetor genital.

Em uma temporada em que quarterbacks reservas dominaram as manchetes, o fascínio por Minshew tem seu próprio universo. As questões agora são outras. Minhsew pode ser mais do que um bom reserva? Ele é pra valer? E se for, os Jags vão se abandonar Foles e seus US$ 50 milhões por um jogador que tem a cara da Flórida misturada com Peyton Manning?


É CLARO QUE Minshew tem alguns atributos físicos que ajudaram Minshew - que mal chega a 1,85 m de altura e passou por quatro faculdades até encontrar seu espaço em uma delas. Para equilibrar isso, ele se tornou forte o bastante para malhar com os linebacker, e ele é tão intenso nos treinos que um de seus treinadores, Alex Williams, lembra de quando Minshew deu um soco em seu próprio rosto depois de errar um passe.

Quase todos que tiveram contato com Minshew têm a mesma conclusão: sua principal arma é seu cérebro. Mike Leach, treinador nos tempos de Washington State, afirma que o quarterback tem "tendências de um gênio".

Minshew sempre teve a mentalidade para isso, mesmo antes do dia em que mostrou suas habilidades pela primeira vez na NFL. Depois de duas fracas temporadas em East Carolina, ele aceitou ser uma espécia de auxiliar do lendário treinador Nick Saban em Alabama. Quando foi liberado para jogar novamente, foi levado por Leach para Washington State depois de ouvir uma simples pergunta: "O que acha de ser o líder do país em passes?'. No ano seguinte, ele foi o 2º melhor dos EUA e se despediu do futebol americano universitário antes de ir para a NFL.


EM JACKSONVILLE, a simplicidade de Minshew tem efeito parecido com o que ele passa dentro de campo. Líderes do elenco como o running back Leonard Fournette elogiam sua autenticidade. Vários funcionários do time começaram a usar bigodes como o do quarterback.

Fora do time, o fascínio de Jacksonville por ele só aumenta. Parte disso, claro, por conta do que ele faz jogando. Minshew tem nove touchdowns e só uma interceptação na temporada, foi eleito o Calouro da Semana em três das cinco semanas até agora e se tornou o primeiro jogador da história a conseguir pelo menos 200 jardas e um rating superior a 95 em cada um de seus primeiros cinco jogos.

Mas isso é só uma parte da história. Dan Hicken, âncora e apresentador de rádio em Jacksonville, diz que também ama MInshew pelo que ele representa. Em uma cidade que sempre se sentiu insegura quando o assunto é NFL - o time vai ser levado para outro lugar? Os Jags serão respeitados nacionalmente? -, a descoberta de uma joia como Minshew é empolgante principalmente pelos pesadelos que já amedrontaram.

"É um time que foi de Blaine Gabbert no draft e deixou J.J. Watt passar", diz Hicken. "Não vimos muitos quarterbacks que conseguem liderar viradas no último quarto. Não vimos muitos caras que conseguiram fazer os grandes programas de TV falarem sobre nós. Gostamos que os bigodes estão em todos os lugares, que as pessoas estão notando Jacksonville. Os fãs daqui se importam com essas coisas."

Eles gostam da mistura de humildade e bravata. Gostam que Minshew foi uma estrela no Ensino Médio, mas teve problemas para encontrar seu caminho. Gostam que ele foi para a Universidade de Troy, depois para East Carolina, Washington State... "em busca de uma oportunidade", como o próprio quarterback define. Quando surgiu a história de que ele queria uma "desculpa" médica para ser afastado por um ano do futebol americano universitário só para não ser proibido de jogar - Minshew tentou quebrar a própria mão com um martelo -, os fãs dos Jaguars enlouqueceram. "Ele mostrou que quer o que todos querem: nunca parar de jogar", explica Hicken.

A decisão, inclusive, não foi feita por impulso. Houston Smith, melhor amigo de Minshew, garante que ajudou a elaborar ideias antes da escolha pelo martelo. "Bater a porta do carro na própria mão era a principal opção", conta Smith. "Eu não diria que apoiei, mas também sabia que não iria impedi-lo."

"Ele tem a nossa cara. Olhe para ele. É basicamente o tipo que 95% de Jacksonville gostaria de sair para tomar uma cerveja", completa Hicken.


UMA HORA E MEIA DEPOIS do jogos dos Jaguars contra o Carolina Panthers, Minshew vestiu um moletom e foi para a sala de imprensa em Charlotte. Os Jaguars perderam por 34 a 27, e ele, apesar de ter tido 374 jardas e dois touchdowns, estava arrasado.

"Culpa minha", disse ele sobre os três fumbles sofridos, apesar de que um deles foi causado por um jogador de linha ofensiva empurrado sobre ele já nos minutos finais de desespero. Ele volta para o vestiário e abraça o tight end James O'Shaughnessy, que estava de muletas depois de lesionar o joelho.

De certa forma, a imagem parece surreal. Meses antes, os Jaguars procuravam opções no mercado por não acharem que Minshew estaria pronto para ser reserva. Agora, ele parece confortável e seguro como o titular, fazendo tudo que deve fazer - no jogo, com a imprensa e no vestiário. Inclusive acenando para fãs que usavam faixas no cabelo e bigodes no caminho para o ônibus. Afinal, ele foi o único motivo que deixou estes torcedores esperançosos por uma vitória.

À frente de Minshew está Foles. Campeão do Super Bowl com o Philadelphia Eagles, ele não está dando entrevistas, mas continua treinando com os Jaguars enquanto se recupera de uma fratura na clavícula. Ele só poderá voltar a partir de 17 de novembro, contra o Indianapolis Colts, e Marrone não tem um plano para quando isso acontecer - pelo menos por enquanto.

É justo, na verdade, Marrone tem outras coisas para se preocupar. Mas é claro que as especulações continuam sobre a decisão dos Jaguars - que pareciam certos de que Foles seria o quarterback do futuro, tanto que garantiram US$ 50 milhões em salários, mas agora consideram usar Minshew, que não ganhará nem US$ 1 milhão nos próximos três anos.

Na liga, há uma ideia de que o dinheiro fará diferença, e que Foles voltará a ser titular. Mas os fãs não parecem concordar. "Se ele estiver jogando bem, vamos apoiá-lo 100%. Foles não teve a chance de criar uma conexão aqui", diz Hicken.

Minshew falou muitas coisas durante nossa viagem de carro, até admitindo que sua fama repentina é mais cansativa do que empolgante. "Fico feliz que as pessoas estejam empolgadas. Mas não ligo muito. Para ser honesto, estou um pouco cansado das questões sobre o bigode. Só quero focar nas coisas que são reais."

Por enquanto, esta lista não é pequena. Real é trabalhar em tomar decisões mais rápidas e não demorar antes de lançar seus passes. Real é que O'Shaughnessy, um de seus alvos favoritos, está fora.

"Tenho um senso de urgência o tempo todo. Nunca tive um motivo para não ser assim."