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NBA: Um debate sobre o legado deixado por LeBron ao definir Miami como seu destino em 'The Decision'

Há 10 anos, a agência livre mais esperada na história da NBA começava. Em 8 de julho de 2010, com ‘The Decision’, LeBron James anunciava que estava levando seus talentos para South Beach.

Pedimos aos nossos repórteres da NBA que refletissem sobre o programa, as consequências e o tempo de LeBron no Miami Heat – que teve quatro idas às Finais e dois títulos antes de ele voltar para Cleveland - e o que tudo isso significou para a liga.


1. O que você se lembra sobre o ‘The Decision’ de 10 anos atrás?

Kevin Arnovitz: Como foi produzido. James e seu time pessoal tornaram sua agência livre em um reality show de competição, e o anúncio foi o ponto culminante. Em muitos aspectos, sem o conhecimento de ninguém na época, The Decision foi piloto de uma década de programas produzidos por atletas. Aquela noite quase parece distante agora.

Chris Herring: Eu estava trabalhando no The Wall Street Journal e fui enviado a um bar em Nova York para cobrir a reação local à escolha de LeBron. Foi uma reação adequada para a maior parte dos últimos 20 anos: os torcedores dos Knicks ficaram decepcionados. Havia especulações de que LeBron, que iria anunciar sua decisão nos arredores de Connecticut, estava mandando um sinal para os Knicks. Não aconteceu.

Jackie MacMullan: Eu estava em Bristol no SportsCenter nos dias que antecederam The Decision. Embora a ESPN fosse transmiti-lo, a maioria de nós achou uma ideia horrível, e eu me lembro de dizer no ar: "LeBron, não é tarde demais. Não faça isso!" Liguei para David Stern um dia antes do programa, e ele deixou claro que não faria comentários sobre. Mas, quando perguntei, "Você tentou convencer LeBron a desistir?", ele retrucou: "O que você acha?"

Dave McMenamin: Eu estava cobrindo o camp de Kobe Bryant em Santa Barbara no dia anterior, e tudo o que todos queriam saber era o que LeBron iria fazer. Saí para jantar naquela noite com alguns treinadores do camp e assistimos Chris Broussard dizer no SportsCenter que Miami seria o destino. Então, ligando no programa no dia seguinte, tratava-se apenas de ver LeBron dizer com sua própria voz. E assim que ele pronunciou a frase "levando meus talentos", imediatamente me fez pensar em um Kobe de 17 anos anunciando sua decisão de pular a faculdade e ir direto para a NBA.

Royce Young: A antecipação. Uma vez anunciada, a máquina de especulação girou em velocidade altíssima. Mas, mesmo com histórias sobre LeBron indo jogar em outros lugares, o sentimento geral não era de que ele iria à TV e partiria o coração de sua cidade natal. A coisa toda foi desconfortável, mas as 24 horas antes disso foram realmente o nascimento da era em que vivemos hoje.


2. Olhando para trás, o que foi mais surpreendente: o programa de TV do LeBron, a cara de Dan Gilbert ou o “Nós conseguimos” do Heat?

Young: A carta é a mais chocante das três, apenas porque as possíveis consequências eram muito óbvias. Foi uma reação emocional, com certeza, e no final não impediu o retorno de LeBron, mas certamente foi um obstáculo. Agora, um anúncio parecido com o de LeBron é uma espécie de norma, e exagerar em negócios gigantescos não é incomum. Mas um proprietário criticar tanto um jogador publicamente - um ícone de franquia - é algo impensável em 2020.

MacMullan: A manifestação do Heat. ‘The Decision’ foi incrivelmente mal aconselhada e autoindulgente, mas todos sabíamos que seria assim. A reação contundente de Gilbert foi um tanto previsível, pois ele descobriu que LeBron iria sair mesmo tempo que o resto de nós. Mas a apresentação do Heat foi muito exagerada. Nunca esquecerei o olhar no rosto de Pat Riley quando eles se aproximaram dele nas arquibancadas. Ele parecia mortificado. Riley me disse anos depois que estava tão ocupado se certificando de que todos os contratos de LeBron e Chris Bosh estavam em ordem que não se preocupou com o que o time planejou. E isso ficou claro.

McMenamin: A carta de Gilbert. O especial de TV arrecadou milhões para caridade. A apresentação foi exagerada e prematura, mas foi feita em cima de alegria e entusiasmo. A carta continha ódio e frustração.

Arnovitz: A carta de Gilbert, porque foi o único dos três que foi um evento espontâneo. Com algumas exceções, os diretores da NBA são como androides extremamente filtrados. A carta de Gilbert era pura e ressentida, escrita por alguém sem nenhum tipo de aconselhamento.

Herring: Provavelmente a apresentação. Algum dia, consigo ver outro astro anunciando sua decisão em um programa de TV. Eu consigo ver um proprietário disparando contra um jogador. Mas outra apresentação como aquela me chocaria.


3. Fato ou ficção: LeBron James deveria ter vencido o MVP em 2010-11.

Herring: Fato. Algumas narrativas da épica claramente desempenharam um papel. A equipe de Derrick Rose venceu um pouco mais e teve a melhor campanha da NBA. Mas LeBron tinha estatísticas superiores de eficiência, liderou a NBA em vitórias compartilhadas e foi muito superior em defesa, que ele demonstrou ao marcar Rose em momentos importantes durante as finais do Leste. Ainda assim, LeBron terminou em terceiro na votação, atrás de Dwight Howard, que também tinha um argumento mais forte que o de Rose.

MacMullan: Ficção. Agora, se você quiser reformular a pergunta para “LeBron poderia ter vencido em 2011? ”, a resposta é sim. Ele teve um PER melhor que Derrick Rose, e sua marca no jogo foi clara. Mas acredito no processo de votação e, na época, Rose, de 22 anos, que ainda não havia sofrido sua horrível lesão no joelho, era dinâmico, emocionante e prolífico, e liderou sua equipe dos Bulls para 62 vitórias. LeBron, que terminou em terceiro atrás de Dwight Howard, foi vítima de como anunciou sua ida ao Heat? É muito provável que sim.

Arnovitz: Fato. É difícil encontrar qualquer critério - além das vitórias da equipe - que coloque Derrick Rose acima de LeBron James. Foi um voto baseado na narrativa que puniu James por, aos olhos dos eleitores, formar uma ‘panela’?

Young: Ficção. Rose era uma escolha perfeitamente aceitável. Os Bulls tiveram a melhor campanha do Leste, vencendo 62 jogos. Pode ter havido reação à decisão de LeBron, mas não é como se Rose não merecesse. Ele seguiu a votação padrão de MVP: a nova estrela em ascensão liderando uma franquia em um grande mercado para a melhor campanha da liga. LeBron foi sensacional, porque ele sempre é, e todos sabemos que ele poderia ter vencido praticamente todos os MVPs a partir de 2008. Mas, operando com a ideia de que outras pessoas também podem vencer, Rose foi um vencedor merecedor.

McMenamin: Fato. Ele tem quatro MVPs, o que é notável, mas ele provavelmente deveria ter cerca de seis.

4. Na sua maior parte, os times de LeBron no Heat fizeram menos, mais ou atenderam às expectativas?

McMenamin: Atendeu às expectativas, que era vencer vários campeonatos. Pensamos que isso começaria com uma derrota para os Mavs e terminaria em apenas quatro anos? Não. Mas também não prevíamos a sequência de 27 vitórias, uma virada incrível contra San Antonio ou a vitória dominante sobre o Thunder.

Arnovitz: As equipes de LeBron serão para sempre sinônimo de passar por temporadas regulares com um esforço excepcional, mas dois títulos e quatro idas às Finais não me soa ruim. O Heat de 2010-11 perdeu para um time com menos talento e jogando muito mal.

Herring: Se soubéssemos de antemão que ele passaria apenas quatro anos em Miami, ganharia dois títulos - enquanto chegava nas Finais em todos os anos - seria uma previsão bastante razoável. Considerando a tensão que uma campanha como essa pode causar nos corpos dos jogadores (as lesões de Wade destacaram isso), ou o desafio de tentar adicionar talento em torno de um núcleo caro, sem nunca ter espaço para fazer isso, esperar algo a mais seria irracional.

Young: Foi dentro das expectativas, sim. É fácil zombar da época por causa das proclamações "Nem um, nem dois, nem três", mas olhe para o que aconteceu em quatro anos: quatro Finais, dois títulos, 70% de aproveitamento. Eles eram o time de basquete mais odiado do mundo, mas também o mais famoso. Se eles tivessem derrotado Dallas, seriam uma dinastia. Se a bola de três de Ray Allen não caísse no jogo 6, eles seriam um fracasso. Então, acho que estão no meio disso tudo.

MacMullan: Considerando que LeBron insistia que o Heat venceria "nem um, nem dois, nem três, nem quatro, nem cinco, nem seis, nem sete ..." Acho que, no final, você diria que eles não tiveram sucesso. Para começar, eles deveriam ter derrotado Dallas em 2011; foi o momento mais baixo da carreira de LeBron, mas também um ponto de virada. E assim que os Spurs os espancaram em 2014, jogando basquete quase perfeito para isso, LeBron foi para o próximo desafio. Quem sabe o que teria acontecido se ele tivesse ficado por lá.


5. Qual é o legado final da ida de LeBron para Miami?

MacMullan: Empoderamento dos jogadores. Quer você tenha gostado ou odiado The Decision, foi uma prévia de LeBron assumindo o controle de sua própria carreira de uma maneira que nunca vimos qualquer outra superestrela fazer antes. Treinadores, GMs ou proprietários não poderiam mais determinar quanto tempo seus jogadores ficariam. O poder foi para o atleta, graças a LeBron. Seus irmãos da NBA nunca devem se esquecer disso.

Arnovitz: A ida de James para Miami representou uma profunda mudança de poder na maneira como as equipes são construídas. James percebeu que ele e outros grandes jogadores impulsionavam o valor do produto da NBA e alavancou seu patrimônio para criar uma situação adequada às suas preferências.

Herring: Eu acho que é bem claro, e foi reforçado pela decisão de Kevin Durant em 2016 e novamente por Kawhi Leonard e Paul George no ano passado: na cultura dos anéis, os jogadores podem flexionar seus músculos e encontrar maneiras de se unir, criando ou juntando situações que lhes permitem ganhar instantaneamente.

McMenamin: O legado duradouro é que os times agora planejam suas mudanças anos antes do tempo e fazem ofertas perspicazes de contratos para garantir que seu teto salarial lhe permita perseguir grandes agentes livres em conjunto quando estiverem disponíveis, como aconteceu em 2010.

Young: Ele criou a verdadeira mentalidade dos ‘supertimes’. Já tivemos supertimes antes, mas todos foram feitos de maneiras muito diferentes. O Heat foi construído por trás da independência e estratégia dos jogadores, redefinindo a mentalidade do que um grande agente livre pode fazer. A decisão de LeBron abriu o caminho para Carmelo Anthony exigir de Denver, o que abriu o caminho para Kevin Durant e os Warriors, que abriu o caminho para Anthony Davis e os Lakers, que abriu o caminho para Kawhi Leonard Clippers, que pode abrir caminho para Giannis ...