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NBA: Como Pippen ergueu Michael Jordan nos Bulls e foi mais do que apenas o número 2 no time

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HÁ ALGUNS ANOS, a filha de Jud Buechler, Reily, estava andando pelo Aeroporto Internacional de Los Angeles quando viu um dos colegas de longa data de seu pai: Scottie Pippen. Ela mandou uma mensagem para o pai. O telefone dela tocou.

"Reily", Buechler implorou à filha, "apresente-se agora. Diga a ele como você é agradecida pelo que ele fez ao seu pai“.

Ela se aproximou de Pippen.

"Ele foi ótimo com ela", disse Buechler. "E dizer a ela o que eu disse apenas mostra quanto amor eu tenho por esse cara".

Esse amor surge com frequência quando ex-colegas de equipe falam sobre Pippen - particularmente aqueles como Buechler, que foram ao Chicago Bulls durante a breve aposentadoria de Michael Jordan e permaneceram quando Jordan voltou. Randy Brown, que assinou com Chicago em 1995, diz a Pippen que o ama no final de cada ligação.

No jantar final da equipe, dias depois de conquistar o título da NBA de 1998, Phil Jackson levou os jogadores para uma sala privada, longe de treinadores e parentes, e pediu que cada um brindasse a um companheiro de equipe. Buechler brindou Pippen.

“Foi algo como: ‘Espero que Scottie vá para algum lugar e receba seu dinheiro, receba o que merece’", Buechler lembrou.

Os companheiros não se importavam com o fato de Pippen ter marcado sua cirurgia no pé de propósito para perder os dois primeiros meses daquela temporada. Eles simpatizavam com a situação de seu contrato. Pippen e 11 irmãos cresceram em uma casa de dois quartos na zona rural de Arkansas.

"Sabíamos por que ele aceitou aquele acordo", disse Will Perdue, companheiro de equipe de Pippen durante oito temporadas. "Ele era um bom homem de família".

"Sentimos a dor dele", disse Brown. "Queríamos que ele jogasse, mas entendemos".

Pippen havia construído boas relações para que pudesse ficar sentado. "Ele era amado por todos", disse Steve Kerr, membro dos Bulls de 1993 a 1998.

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"Ele é meu companheiro de equipe favorito dos Bulls", disse Bill Wennington, membro dos últimos três times de Chicago.

Parte do carinho decorreu do estilo de jogo de Pippen: muitos passes e ânsia para assumir as tarefas defensivas mais difíceis. Parte disso foi sobre a diferença do estilo de liderança de Pippen e de Jordan.

"Ele foi um complemento perfeito para Michael", disse Kerr no podcast Lowe Post. "Michael era o durão. Você tinha que estar pronto todos os dias para receber as críticas dele. Scottie te abraçava para garantir que você estivesse bem. Ele é uma alma gentil."

Colegas de equipe disseram que isso não é uma crítica a Jordan. "Você precisa dos dois", disse Buechler.

COMO FOI MOSTRADO NO DOCUMENTÁRIO da ESPN “The Last Dance” e no livro de Sam Smith "The Jordan Rules", as táticas de intimidação de Jordan serviam para deixar seus companheiros mais fortes para os playoffs. Até os colegas de equipe que não gostaram dos olhares e palavras ofensivas de Jordan admitem que seus métodos tiveram efeito.

Eles também se perguntam como o time poderia ter funcionado se o seu segundo melhor jogador não estivesse conectado da maneira que Pippen. E se Pippen tivesse sido tão impiedoso quanto Jordan? Os Bulls sobreviveriam à uma ditadura de dois homens? Essa versão de Pippen teria simplesmente aceitado o status de número 2?

Com Chicago perdendo o jogo 1 das Finais de 1998 contra o Utah Jazz por três pontos e com cerca de 3:00 restantes, Pippen tentou empatar a partida com uma bola de três. Um tempo foi pedido. Enquanto os Bulls se aglomeravam na linha lateral, Jordan deu uma palestra para Pippen, aparentemente irritado porque Pippen não tinha passado a bola para ele. Detalhe: Pippen acertara o arremesso. (As câmeras da NBC captaram Bob Costas gargalhando com a competitividade de Jordan.) Pippen ouviu e as coisas foram acertadas ali mesmo.

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"Sempre houve muita comunicação entre Michael e Scottie, e era quente, disse Kerr. "Mas nunca desrespeitosa. Sempre foi com a intenção de tentar vencer".

E se Pippen tivesse sido relutante em oferecer apoio a colegas de equipe que estavam inseguros?

Quando Brown estava tendo dificuldades para aprender o ataque do triângulo, Pippen o puxou de lado. "Você não vai jogar se não aprender", disse Pippen a Brown. "Eu sei o que você consegue fazer, mas o Phil tem que confiar em você." Pippen foi encorajador. Ele viu que o sistema do triângulo confundia os recém-chegados.

"Scottie foi paciente", disse Pete Myers, que voltou aos Bulls em 1993. "Caso contrário, teria sido difícil".

Pippen admitiu erros e protegeu colegas de equipe.

Durante um jogo contra o Indiana Pacers, Pippen instruiu Wennington a romper com o plano de jogo de Jackson e dobrar a marcação no pivô Rik Smits. Numa sessão de vídeo no dia seguinte, Jackson parou a fita: "Billy, que diabos você estava fazendo?" Jackson repreendeu, de acordo com Wennington.

Pippen falou: "Treinador, eu disse para ele fazer aquilo".

"Muitos caras na posição de Scottie teriam me deixado na mão", disse Wennington.

Durante o primeiro tricampeonato de Chicago, Jackson às vezes gritava com B.J. Armstrong por algum acidente que foi realmente culpa de Pippen. "Entendi que Phil não podia gritar com Scottie, então ele gritava comigo", disse Armstrong.

Pippen assumia a culpa no grupo ou pedia desculpas a Armstrong enquanto caminhavam pela quadra. "Ele não precisava dizer nada", disse Armstrong.

MESMO NAQUELES PRIMEIROS ANOS, Scottie parecia sentir que os Bulls precisavam de um equilíbrio para Jordan.

"Eu digo às pessoas o tempo todo que Scottie foi o melhor companheiro de equipe com quem já joguei", disse Stacey King, uma reserva do primeiro tri de Chicago. "MJ vinha e falava um monte para você, e Scottie dizia: 'Não se preocupe. Não dê ouvidos a ele. Vai ficar tudo bem.'"

Jogadores que assinaram com Chicago durante a aposentadoria de 17 meses de Jordan ficaram à vontade jogando com Pippen como peça central do time. O retorno de Jordan foi como um terremoto. Eles pediram orientação de Pippen.

"Os [jogadores dos times do primeiro tricampeonato] conheceram Michael como o cara", disse Armstrong, que permaneceu no Bulls entre 1994 e 1995. "Os caras novos não conheciam pessoa. Eles só conheciam o personagem da Air Jordan. Ele pulou e começou a jogar, então eles não puderam desenvolver esse relacionamento. Scottie sabia disso e sabia que tinha que ajudar os outros caras".

Isso incluía Toni Kukoc - símbolo da desconexão entre Pippen e Jerry Krause, gerente geral de Chicago, e a princípio o alvo da raiva de Pippen. Pippen se referiu ironicamente a Kukoc como "o garoto do Jerry" e zombou de sua defesa..

Kukoc apenas trabalhou. Ele detectou críticas construtivas sob todas as farpas. Pippen amoleceu.

"Eu amo o Scottie", disse Kukoc. "O cara que mais me ajudou nesses dois primeiros anos foi Scottie. Eu nunca senti que [as críticas] eram más. Ele estava tentando me apontar na direção certa".

As circunstâncias os testaram novamente em 1994, quando Pippen se recusou a jogar os 1,8 segundos finais no jogo 3 da série de playoffs de Chicago contra o New York Knicks, porque Jackson desenhara a jogada do arremesso final para Kukoc. Foi um ato desafiador que poderia ter tido consequências ruins.

Kukoc acertou o arremesso. No vestiário, Bill Cartwright, o líder veterano da equipe, repreendeu Pippen na frente dos colegas de equipe. Cartwright chorou ao contar a Pippen como estava triste, de acordo com colegas de equipe e relatos anteriores.

Pippen ficou em silêncio e absorveu, lembraram os colegas de equipe. "Ele ouviu e sabia", disse Armstrong.

Pippen pediu desculpas brevemente, de acordo com Grant e Wennington.

Os colegas de equipe estavam chateados, mas tentaram imaginar como poderiam ter reagido na posição de Pippen. "Ele era o nosso melhor jogador", disse Grant. "Ele provavelmente deveria ter dado o arremesso final. Phil deveria ter [desenhado a jogada para Pippen]. Isso não é desculpa para não entrar na quadra. Ficamos decepcionados com Scottie, e Scottie também ficou decepcionado". (Pippen e Jackson recusaram pedidos comentários durante "The Last Dance".)

Cartwright abordando o assunto da maneira que fez, com tanta emoção, foi vital para os Bulls seguirem em frente. "Nada poderia apodrecer", disse Perdue. Pippen tinha confiança o suficiente de nós para que todos pudessem esquecer o assunto quando saíssem do vestiário.

“Ok, o Scottie foi para a zona dele, mas agora ele está de volta,” disse Grant.

O GRUPO DE 1993-94 - aquele sem Jordan, com vários jogadores novos - tinha uma admiração particular pela maneira como Pippen lidou com aquela temporada. Eles chegaram curiosos se Pippen veria a ausência de Jordan como uma oportunidade de afirmar o controle e só se importar estatísticas individuais.

Pippen teve sua melhor temporada, terminando em terceiro na votação de MVP e levando os Bulls a 55 vitórias. Essa temporada mudou a percepção de Pippen como jogador. Ele fez isso sem se ausentar do ataque do triângulo ou de seu temperamento natural. Pippen teve uma média de 22 pontos - apenas um a mais que em 1991-92. Ele tentou 17,8 arremessos por jogo, contra 16,5 nas duas temporadas anteriores.

"Ele não jogou como se fosse o time dele", disse Grant. "Ele nos queria ali também. Ele aprendeu com MJ que precisava de nós".

Pippen havia trabalhado por seu momento como a estrela indiscutível de Chicago. Ele era quase tão competitivo quanto Jordan nos treinos. Perdue e Pippen - geralmente em equipes opostas – chegaram a bater cabeças, disse Perdue.

Quando Jordan voltasse, Jackson iria de vez em quando dividir suas duas estrelas. "Scottie iria marcar Michael", disse Jim Cleamons, um antigo assistente dos Bulls.

Pippen podia criticar o ponto fraco de Kukoc - defesa - porque ele havia trabalhado para refinar o seu próprio ponto fraco. "Scottie não conseguia arremessar de média-distância, mas ele trabalhou duro", disse Cartwright.

Pippen nunca se tornou um verdadeiro arremessador. Os Bulls de 1994 perderam na segunda rodada dos playoffs, deixando Pippen para sempre aquém do status imortal de "melhor jogador de um time campeão". Dito isto, os Bulls estiveram a uma marcação controversa da arbitragem de liderar por 3-2 a série contra os Knicks na segunda rodada, com o jogo 6 em Chicago e uma equipe de 47 vitórias do Pacers aguardando a final da conferência. Como uma possível ida às Finais sem Jordan - até mesmo uma derrota para o eventual campeão Houston Rockets - mudaria o legado de Pippen?

Pippen oscilou sob as exigências de ser o grande jogador do time, disse Perdue. Pippen não podia mais esquivar-se da mídia, assumindo que Jordan cuidaria disso. Quando os repórteres perguntavam sobre o desempenho de um companheiro de equipe, Pippen deixava escapar alguma coisa e se desculpava no dia seguinte.

"Não acho que ele tenha percebido como o MJ facilitava as coisas para nós", disse Perdue.

As limitações relativas de Pippen como pontuador e arremessador puro não permitiram que ele se tornasse o melhor jogador em um time campeão. Os oponentes colocavam defensores menores em Pippen, apostando que ele não os exploraria. Às vezes, eles estavam certos. Mas uma vez ou outra, Pippen foi para dentro deles.

(Ele acabou com Terry Porter no jogo 5 das Finais de 1992 contra o Portland Trail Blazers, uma das vitórias mais importantes daquele time de Chicago. Jordan e Pippen combinaram 70 pontos para colocar Chicago à frente na série: 3-2; Pippen terminou com 24 pontos, 11 rebotes e 9 assistências.)

Como número 2, Pippen era perfeito. Esses caras te levam longe. Eles lideram ataques excelentes. Mas, como protagonistas, eles geralmente ficam aquém do prêmio final.

Chamar Pippen de o maior número 2 da história não é um elogio. Isso não o torna um jogador menor do que algumas opções número 1 que tiveram números melhores, mas não se aproximaram de um título desempenhando o papel principal. Pippen teve a sorte de jogar com Jordan, a melhor opção número 1 de todos os tempos, mas Jordan teve a sorte de jogar com Pippen também.

NUNCA HOUVE um jogador como Pippen. Sistemas avançados cospem alguns similares insatisfatórios: alas que não tinham o poder de criação de jogadas e nem a defesa de Pippen (Shawn Marion, Khris Middleton); alguns pontuadores que não se encaixam no molde de Pippen (Paul Pierce, Clyde Drexler). O nome de Grant Hill aparece, mas ele foi um pontuador mais prolífico. O mesmo vale para Kawhi Leonard, que cresceu no topo da liga – com a qualidade defensiva de Pippen.

Jimmy Butler é uma comparação popular. E é bem próximo. Butler funciona um pouco mais como o pontuador número 1 e não tem a capacidade defensiva de Pippen. Paul George é provavelmente o principal número 2 da atualidade, mas é melhor que Pippen arremessando – enquanto deixa a desejar na criação de jogadas e perde por pouco na capacidade defensiva.

Pelo menos um desses jogadores será considerado melhor que Pippen. A maioria não. Independentemente disso, ninguém tem o mesmo estilo que ele.

Talvez se você juntasse George a Draymond Green - misturando seus arremessos tiros de 3 pontos - você conseguiria um Pippen. Há uma década, Andre Iguodala – um jogador de 20 pontos por jogo 0 chegou a ser comparado com Pippen em cenários teóricos que combinam Iguodala com um jogador top-5.

Alguns jogadores exercem um impacto desproporcional no jogo quando estão com a bola. O impacto de Pippen com a bola deixou a desejar, mas ele importava a cada segundo que estava na quadra. Ele era como uma corrente energizada com eletricidade.

"Scottie poderia marcar um ponto e pareceria que ele tinha feito 30", disse Brown.

Grandes partes das Finais de 1997 e 1998 entre Bulls e Jazz chegaram a um jogo dentro do jogo: John Stockton e Karl Malone fazendo o pick-and-roll na ala esquerda, Pippen girando do outro lado da quadra para pressioná-los enquanto diminuía os espaços para Stockton passar a bola.

"Ele foi o melhor jogador de meio de quadra que eu já vi", disse Kerr. "Ele marcava todo mundo."

Pippen é um dos únicos três jogadores - junto com Jordan e Hakeem Olajuwon - a ter 200 roubadas de bola e 100 bloqueios na mesma temporada.

"Ele assumiu um grande risco, mas conseguiu se recuperar", disse Armstrong. "Se fizessem um passe nas minhas costas, era cesta. Se acontecesse com ele, ele bloquearia o arremesso. "

Jackson identificou o ponto principal de cada adversário ofensivamente e mandou Pippen para lá: Magic Johnson nas Finais de 1991; Mark Jackson nas finais da conferência de 1998; às vezes Stockton. Ele até trocou Pippen pivôs apenas para vencer nas trocas de marcação.

"Se alguém estava causando problemas", disse Cartwright, "a resposta era colocar o Pip neles. "

Pippen também foi bem durável, aparecendo em pelo menos 72 jogos em cada uma de suas primeiras 10 temporadas.

Isso faz parte do que fez grandeza de Pippen desaparecer com o tempo. Os passes extras raramente fazem entravam nos destaques e, quando entravam, o foco estava no arremessador. Ao revisar antigos jogos de playoffs, uma dessas sequências esquecidas se destaca. Com 45 segundos restantes no jogo 4 das Finais de 1993 e Chicago com dois pontos à frente do Phoenix Suns – 2-1 na série - Charles Barkley interceptou um passe de Pippen e passou para Kevin Johnson.

Johnson tinha Dan Majerle à sua direita e apenas Pippen na frente deles - um 2 contra 1 para empatar o jogo, talvez a série. Johnson parou de driblar perto da marca de três pontos, talvez assustado por Pippen, e serviu Majerle, que tentou uma bandeja; Pippen girou para a esquerda e bloqueou o arremesso.

Na cobrança de lateral, Danny Ainge, armador dos Suns, achou Barkley. Pippen, marcando Ainge, foi rapidamente marcar Barkley no poste. Estamos falando do Barkley MVP, uma rara combinação de velocidade e força brutal. Barkley empurrou Pippen para trás. Ainge fez o passe. Pippen deslizou ao redor do ombro direito de Barkley e desviou a bola para fora da quadra.

Armstrong roubou o passe seguinte, vencendo a partida.

"Scottie conectou tudo", disse Armstrong. "Éramos um bom time, mas com Scottie nos tornamos um ótimo time. Você não pode dizer que gosta de basquete e que não é fã da maneira que Scottie Pippen jogava. “