"É engraçado. Muitos gostariam de ser Michael Jordan por um dia ou uma semana. Mas tentem ser Michael Jordan por um ano para ver o que é bom para tosse".
A frase foi dita pelo próprio Jordan, conforme retratado no documentário "The Last Dance", produzido pela ESPN dos Estados Unidos. E apesar de todo o sucesso e glória nas quadras, a vida do camisa 23 de conviver com a pressão que ser um grande astro exigia não foi fácil.
Um dos fatores que aumentaram a pressão em Jordan como figura foi a publicação do livro "Jordan Rules", em 1992, após o segundo título do Chicago Bulls na NBA.
O livro foi escrito por Sam Smith, jornalista do Chicago Tribune que cobria os bastidores dos Bulls.
"Com um livro assim, você precisa obviamente ter controvérsia, coisas que as pessoas suspeitem ou não saibam", diz Jordan, ao documentário.
"Eu fiquei chocado com a repercussão, mas o livro é popular por mostrar que Michael Jordan é imperfeito. Nem todos o amavam, até certos companheiros de time. Fui cercado quando saiu, cheguei a receber ameaças. O jornal me fez ficar em casa por uma semana, me afastaram", diz Smith.
O livro detalha momentos de grosseria de Jordan com ex-companheiros, ameaçando quem passasse a bola para o pivô Bill Cartwright, dizendo que se isso acontecesse eles não receberiam mais a bola do camisa 23. Outro trecho do livro diz que o astro dos Bulls teria trocado socos com o reserva Will Perdue.
"Jerry (Krause, gerente-geral do time) me chamou na sala dele e havia marcado umas 25 citações do livro. Ele queria que eu escutasse enquanto lia. E começou com 'quem acha que faria parte disso?'", disse Phil Jackson, técnico do time, ao documentário.
Mas quem poderia ter passado informações tão sigilosas a um jornalista? Jordan tem sua convicção de que foi o ala-pivô Horace Grante.
"Não contribuí para isso, foi o Horace. Ele contava tudo que acontecia dentro do grupo", diz Jordan. Na visão de outros membros do time, Grant tinha ciúmes que o nome de Jordan levava mais glórias do que o restante pelo sucesso do time, algo que o ex-jogador nega.
"Não, nunca contei nada ao Sam Smith sobre meu relacionamento com ex-colegas de time. Como Sam e eu temos uma bela amizade, muita gente me usou de bode expiatório...que seja", explica Grant.
As polêmicas de apostas
Na final do Leste de 1993, os Bulls enfrentaram o New York Knicks de Patrick Ewing, John Starks e companhia. Nos dois primeiros jogos, no Madison Square Garden, vitória dos Knicks, colocando Chicago contra a parede.
E após o jogo 2, Jordan saiu do ginásio e foi direto para Atlantic City e seus cassinos. Ele ficou lá, segundo jornais da época, até 2h30 da manhã.
"Meu pai falou 'vamos sair de Nova York, vamos para Atlantic City'. Pegamos uma limosine, apostamos umas horas e voltamos. Todos ficaram malucos, mas nós não ficamos até tarde, voltamos era 00h30, 1h", explica Jordan, no documentário.
"Fui lá espairecer do basquete", disse Jordan, em 93. No retorno, o astro teve que se explicar ao técnico Phil Jackson, que revelou o que ouviu do camisa 23: "Isso não vai afetar meu basquete, vai me ajudar com a pressão dos playoffs". De fato ajudou, os Bulls viraram a série e carimbaram o passaporte para as finais.
Mas o ato foi visto de forma negativa pela imprensa.
Na mesma época, Jordan teve que se explicar perante as autoridades por um cheque de US$ 57 mil a James "Slim" Bouler, que foi preso por diversos crimes, entre eles lavagem de dinheiro.
Jordan teve que testemunhar nos tribunais sobre o caso e disse que estava pagando em dívidas de apostas, que não era um empréstimo. Uma outra polêmica surgiu quando ele foi acusado de dever mais de US$ 1,2 milhão por apostas em jogos de golfe.
Os dois casos geraram críticas da imprensa e fãs sobre um possível vício em apostas de Jordan. Ele foi investigado e interrogado pela NBA e seu comissário, David Stern. Mas as suspeitas não prosseguiram.
"Vocês vão tirá-lo do esporte se continuarem assim, pois ele se cansou, ele se cansou de pegarem no pé dele", disse Magic Johnson, à época.
Lei do silêncio e tragédia
Jordan até deixou de atender a imprensa, mandando seu pai, James em seu lugar. Ele abriu apenas uma exceção durante o resto dos playoffs, para a NBC.
E o silêncio deu a tranquilidade que ele precisava para conduzir o Chicago Bulls ao terceiro título consecutivo da NBA, passando pelo Phoenix Suns na final, ganhando o terceiro MVP da decisão de sua carreira.
Um mês depois, porém, o pai do camisa 23 foi assassinado. Cansado da "perseguição" na NBA, dizendo estar "sem vontade" e com o agravante da morte do pai, cujo sonho era ver o filho como jogador de beisebol, Jordan anunciou sua aposentadoria em outubro de 1993.
