Ao lado do banco de reservas do Portland Trail Blazers, com uma jaqueta clássica da Adidas - preta e com duas listras brancas -, Damian Lillard Jr., de 4 anos, corre até o seu pai.
Quando chega ao maior jogador da história dos Blazers, agarra nas suas pernas como se fosse o tronco de uma árvore. Damian Lillard levanta seu joelho e fica de lado, para se proteger daquele ataque de fofura.
Toda essa cena acontece 90 minutos antes de um jogo contra o Orlando Magic, em janeiro. As arquibancadas ainda estão vazias. Tem uma ala dedicada para crianças de uma igreja que Lillard dá assistência. Após a entrevista pré-jogo, o astro foi para o banco de reservas e assistiu a seus companheiros de time no aquecimento, com seu filho enroscado na sua perna.
Lillard Jr. é extremamente protetor com relação ao pai. Sempre avisa o armador dos Blazers quando um estranho fica próximo, seja para um autógrafo inocente, ou até uma palavra. Lillard não acha isso ruim e sempre traz o filho para ficar próxima da equipe, quando possível. A criança de quatro anos sempre está no centro de treinamento, junto com seu pai, para os exercícios noturnos.
Damian o levou para Nova York, quando sua equipe jogou contra os Knicks, na semana de Ação de Graças. Na primeira visita do filho ao lendário Madison Square Garden, ele esteve próximo de Lillard Jr., em todos os momentos, desde a coletiva pré-jogo até o começo da partida. Não é uma tarefa fácil para o armador de Portland, já que há várias questões de negócio, fama e, claro, o preparo para a partida, exigindo muito tempo do jogador.
Os atletas da NBA que não se adaptam a esta realidade e não compreendem tudo que ela pode consumir podem se tornar ausentes na questão paterna, no casamento e na vida familiar. É normal que percam aniversários, nascimentos, festas, primeiros passos e, infelizmente, últimos suspiros. Esse é o preço. Estar presente, unido e próximo exige muito esforço.
Em dezembro, os Trail Blazers enfrentaram o Denver Nuggets na casa deles, dois dias antes do Natal. Um dia antes da partida, o Centro Meteorológico Estadunidenses registrou a temperatura de -31ºC no Aeroporto Internacional de Denver, com sensação térmica de -40ºC. Mais de 500 voos foram cancelados e 700 tiveram seus horários modificados.
"Não tínhamos ideia se conseguiríamos", disse Lillard para a ESPN, mas ele estava determinado.
Quando seus filhos, Damian Jr. e as gêmeas de dois anos, Kali e Kalii, acordaram na manhã de Natal, viram o pai presente em casa. Lillard conseguiu um voo privado. O avião do time também decolou, mas a determinação de Lillard foi sentida por toda a organização.
"Eu ia para casa", disse Lillard, depois do acontecido: "De um jeito, ou de outro".
As gêmeas ainda estão em estágio de formação, mas Damian Jr. já cresceu o bastante para criar memórias, e Lillard quer que todos os aspectos de sua carreira estejam presentes em seu filho. Não apenas sobre os jogos, mas a preparação e tudo que envolve: fazendo que Damian Jr. compreenda a vida que tem e de onde ela vem.
"É importante que ele veja tudo isso", disse Lillard sobre suas prioridades: "Mas é também importante que ele tenha esse laço comigo, saiba quem eu sou e porque eu faço tudo isso."
Laços são sagrados para Lillard. O armador usa a letra ''O" em algumas camisetas por conta da sua cidade natal, Oakland, na Califórnia. Mas, ao mesmo tempo, tem um vínculo grandioso com Portland, onde os Trail Blazers estão. E, hoje, se percebe como esta ligação é eterna.
O gerente geral da organização, Joe Cronin, chama seu armador de "melhor Trail Blazer que já vestiu o uniforme da equipe" e o técnico do time, Chauncey Billups, disse que Lillard será "para sempre a cara dos Blazers".
A lealdade de Lillard é extremamente recompensada. No último verão, o armador assinou uma extensão de dois anos em seu contrato, até a temporada 2026-2027. No último ano, receberá U$63,2 milhões (R$328 milhões). Ao todo, desde a 2012-2013, quando chegou à equipe, o jogador somará quase meio bilhão de dólares (mais de dois bilhões de reais) ao fim do acordo.
Mesmo com todo este dinheiro, o que sempre faltará em seu currículo da NBA é um título, apesar de ser o maior pontuador da história de Portland e ter sido escolhido como um dos melhores 75 jogadores que já atuaram na liga. É por isso que Cronin descreveu um "senso de urgência" para ajudar o armador a vencer um campeonato, antes que seu declínio se inicie.
Lillard está com suas maiores médias na carreira: em pontos (31,4), aproveitamento de arremessos (46,7%) e chutes de 3 pontos por jogo (4,2). No domingo, 26 de fevereiro, o armador se tornou o oitavo jogador na história da NBA a anotar pelo menos 70 pontos em uma partida.
A questão é: por quanto tempo Lillard aguentará ser dominante assim?
Segundo o ESPN Stats & Info, em apenas 10 oportunidades um jogador de 1,88m (6'2) ou menos, com 32 anos ou mais, teve média acima de 20 pontos por jogo. E esta temporada de Lillard é uma dessas ocasiões.
O armador ainda joga um basquetebol maravilhoso e poderia conseguir seu título em várias outras organizações, mas fazer algo desse tipo é totalmente contrário aos seus valores.
Por hora, existem incertezas com este time de jovens, que está no meio da tabela da Conferência Oeste. Não está claro o que todos eles podem fazer. Na 11ª temporada com Portland Trail Blazers, seu único time na NBA, é hora de Dame dar tudo que pode, mais uma vez.
Os Trails Blazers perderam três jogos seguidos e sete das nove partidas anteriores até o duelo contra o Magic, no dia 10 de janeiro. No começo do segundo tempo, Portland permitiu uma sequência de 15 pontos de Orlando sem qualquer resposta do ataque. Mas, com o Moda Center calado, Lillard os acordou com mais uma atuação primorosa.
Começou na zona morta do lado direito, quando Lillard driblou Moritz Wagner e converteu o arremesso atrás do arco. Infiltrando, anotou mais dois pontos contra Cole Anthony, com uma cravada feroz na cabeça do armador. Antes de acabar o quarto, o astro dos Blazers ainda converteu uma bola de 3 pontos de muito longe, com aquele requinte de delírio e confiança que apenas Dame consegue passar aos torcedores.
Portland perdeu aquela partida por 109 a 106, chegando à quarta derrota consecutiva. Os Blazers não converteram nenhuma das chances que tiveram para empatar o jogo. E mais: a bola não chegou nas mãos de Lillard em nenhuma das oportunidades.
Após o jogo, quando Lillard apareceu no vestiário dos Trail Blazers, o armador estava diante de uma foto sua gigante, em um painel acrílico. Se tratava do momento em que atingiu 18.040 pontos, passando o lendário ala-armador Clyde Drexler para se tornar o maior pontuador da franquia. Depois, ao ir para a coletiva de imprensa, passou por mais duas fotos: uma do buzzer-beater contra o Houston Rockets, em 2014, e contra o Oklahoma City Thunder, em 2019.
Há 11 fotos nestes corredores. Cada uma delas captura um grande momento na história da organização. Lillard passou por elas várias vezes nos últimos anos e, até hoje, a foto de Drexler com Michael Jordan, nas Finais da NBA de 1992, chama sua atenção. Ela está um pouco distante de outra imagem icônica: 5 de junho, de 1977, quando os Blazers venceram o Philadelphia 76ers, por 109 a 107, e se tornaram campeões da NBA. Na foto, a torcida invade a quadra, eufórica.
Um dia depois, no centro de treinamento da equipe, Lillard admitiu que pensa no título "o tempo inteiro". Ele começou a pensar sobre isso há seis ou sete anos, quando Portland começou a chegar longe na pós-temporada. O auge foi em 2019, com uma presença nas finais da Conferência Oeste.
"E se a gente realmente conseguir?", Lillard pergunta para si. Mas, ao mesmo tempo, confessa: "Eu tenho este medo... 'E se não acontecer?' ... Se não acontecer, eu não me sentiria bem com isso. Mas eu sempre vou dizer que investi na jornada, porque vários momentos, mesmo não sabendo o que iria acontecer, eu aproveitei o máximo que pude e dei o meu máximo durante todo o caminho."
Lillard pensa em tudo que pode acontecer. O armador não foi convidado a jogar por uma grande universidade, até que foi para Weber State, em Utah, em 2008. Sonhava em jogar na NBA: conseguiu em 2012. Queria ser Calouro do Ano: foi eleito em 2013. Gostaria de estar entre os melhores jogadores da temporada, vencer séries de playoffs e ser decisivo nos momentos finais para ajudar seu time: conquistou tudo isso.
Existe sim a conversa sobre a falta de títulos. Por um momento, Lillard pensa que todos seus sucessos e conversões decisivas trouxeram uma energia diferente para este time na última década.
"As pessoas desvalorizam todo seu trabalho caso você não ganhe um título", disse Lillard: "Eu tenho mostrado isso nos últimos 11 anos. Pense quanto tempo é isso. São 11 anos seguidos dando tudo que tenho para que Portland tenha pelo que torcer. Nós ganhamos vários jogos emocionantes. Eu nunca dei desculpa alguma. Sempre dei o meu melhor. Nestes últimos 11 anos, eu estive disponível para jogar em mais jogos que qualquer um. Ano passado, estive em apenas 29 partidas, porque estava com um problema abdominal. Essa ausência aconteceu pela primeira vez na minha carreira, mas foi algo incomum. Eu sempre estou aqui."
E continuou em sua declaração: "Eu venho representando esta organização e este time tão bem quanto qualquer um. Todo dinheiro suado que alguém gasta para ver esta equipe jogar, eu faço valer a pena. Os torcedores vÊm para cá me ver jogar. Eles querem um show. Querem ficar eufóricos. Ficaram sempre satisfeitos com as vitórias, com os jogos de pós-temporada. A única coisa que eu não consegui, ainda, é um título. Eu acho que as pessoas não dão o crédito certo por tudo isso. Nós estamos em uma era de: 'Quantos títulos você consegue', e, bem, 'Essa pessoa não tem um sequer'. É por isso que eu quero vencer, para coroar tudo isso pelo que passamos. Eu acho sim que as pessoas me desvalorizam pela falta do título. Eles falam desse jeito maluco sobre Charles Barkley. É o Charles Barkley! É loucura."
Lillard respirou e continuou.
"Dar essa experiência para as pessoas de uma maneira consistente, por anos e anos, exige muito. Eu olho para todos os lados e há camisetas minha. O amor não acabou. Não é como: 'Ah, nós amamos Dame por seis anos'. Não é isso. Eu vejo meu uniforme consistentemente há uma década. Mais do que o título, o que mais eu posso dar para esta organização?"
Lillard está navegando pela costa da ilha de Capri, na Itália, um centro de luxo e requinte gastronômico, cheio de hotéis grandiosos. É outono de 2021 e ele está em sua lua-de-mel. Sua mente ainda está na recente história de que ele gostaria de ir para outra equipe.
O autor desta fofoca foi confrontado por Lillard, e o armador ressaltou que tudo isso se tratava de uma mentira. Manchetes foram criadas, e o astro do Portland continuou sua postura, inclusive fazendo várias declarações sobre a situação. Mas, meses depois, em um barco no Mediterrâneo, ainda estava incomodado.
Como é de conhecimento mundial, Lillard é rapper e seu nome artístico é "Dame D.O.L.L.A". Naquele momento, ouvia uma batida ritmada específica e começou a escrever algumas letras no seu celular.
"Dame Lillard, DeMar DeRozan, Bradley Beal seguem...
Não quero me juntar a um supertime, que talvez possa ser meu calcanhar de Aquiles...
Hector, eu estou no meu casulo...
Tentando ficar próximo de Giannis e Dirk nessa caminhada solitária...
Agora meu objetivo está revelado, então que se f***, principalmente estes repórteres que não entendem meus parceiros"
Lillard invoca Giannis Antetokounmpo e Dirk Nowtizki com total sentido: admira os dois jogadores por se manterem no mesmo time por anos e ainda conquistar um título com a organização. Mesmo que não fossem grandes mercados do basquete e depois de anos difíceis sem sucesso na pós-temporada, conseguiram. Os dois poderiam ter saído do time, mas fizeram a escolha que Lillard ainda sustenta: permanecer com a equipe e tentar vencer com ela.
"As pessoas diziam que Giannis tinha que sair de Milwaukee porque estavam indo mal nos playoffs e até perdendo na primeira rodada. Essas coisas", disse Lillard: "Eu tenho certeza que ser campeão é algo recompensador, que te preenche internamente. Tenho certeza que ele se sentiu livre depois disso. Giannis agora joga em um ritmo diferente e de uma maneira muito mais confortável."
Lillard pensa o mesmo sobre Nowitzki.
"Eu lembro de Dirk jogando muito, ainda quando estava ao lado de Steve Nash", conta Lillard: "Depois, naquele uniforme antigo do Dallas Mavericks, naquele cabelo clássico dele, foi MVP em 2007, e eles eram os melhores do Oeste. Mas perderam na primeira rodada para o Golden State Warriors."
Lillard ainda morava em Oakland, quando Dallas, em seu melhor momento na história, com um recorde de 67 vitórias na temporada e o 1º lugar do Oeste, perdeu para o oitavo colocado. Ele lembra do improvável histórico e da campanha "We Believe (Nós Acreditamos)",dos Warriors. Nowitzki estava tão furioso no final do jogo que lançou uma lata de lixo na parede da Oracle Arena.
"E Dirk simplesmente continuou", comentou Lillard.
Nowitzki chegou nas Finais na temporada seguinte, mas eles perderam para o Miami Heat de Dwayne Wade, depois de vencer as duas primeiras partidas da série. Não retornaram para o palco máximo da NBA até 2011, quando enfrentaram, novamente, o Heat.
"Depois, em 2011, enfrentou aquele supertime do Heat que tinha LeBron James, Wade e Chris Bosh", Lillard continuava: "Qual a chance? E, bem, venceu."
Lillard considera a incerteza nestes dois ângulos, pensando na parte boa e ruim.
"Então você olha para Phoenix", comentou Lillard: "Eles perderam o título em 2021, voltaram no ano passado, tiveram uma grande temporada e não conseguiram traduzir isso nos playoffs. Agora estão com alguns problemas, parecido conosco. Boston perdeu no ano passado e está em boa forma, mas e se perderem? E se alguém acabar com eles na primeira ou segunda rodada dos playoffs e encerrar essa grande temporada? Nós estamos com problemas agora, mas e se a gente conseguir encontrar o nosso melhor?"
Aquele time de Boston realmente dá esperança. No dia 21 de janeiro de 2022, os Celtics perderam para os Blazer, por 109 a 105, mesmo sem Lillard. Chegaram a 23 vitórias e 24 derrotas. Após isso, venceram 28 das 35 partidas no resto da temporada e chegaram a abrir 2 a 1 nas Finais da NBA, antes de tomarem a virada dos Warriors.
"Eu não estou dizendo que isso significa algo para nós", disse Lillard sobre a reviravolta de Boston: "Mas mostra que nós nunca sabemos o que pode acontecer."
No centro de treinamento, os olhos de Lillard sempre estão nos seus companheiros de time, tentando enxergar a parceria que constroem. Pode deixá-los sem tanta proximidade, mas precisará deles para ir longe. Enquanto considerava suas palavras na Itália, sobre não se juntar a um supertime, nessa "jornada solitária", como Giannis e Dirk, Lillard parecia estar mais sério.
O armador acredita na jornada. Aprecia tudo que conquistou. Sabe que tem muito mais para alcançar, faz contato visual, deixando claro qual o seu objetivo e toda a postura que emprega para isso.
"Por conta disso", Lillard finaliza: "Eu estou disposto a morrer nessa jornada."
Lillard tem a seguinte ideia sobre si: se ele confia, vai fazer acontecer. Com os recentes problemas do time, se sentiu encurralado. Quando ele acordou de uma soneca antes do jogo do dia 12 de janeiro, contra o Cleveland Cavaliers, seu mental estava diferente.
"Eu sabia", disse Damian Lillard depois: "Eu teria que me impor."
Em um dos seus arremessos, Lillard caiu sobre o pé de outro jogador e torceu seu tornozelo. A situação já estava complicada desde o jogo de Orlando, mas ele estava pronto Não pareceu ser grave e, mais tarde, Lillard conseguiria fazer oito dos 12 primeiros pontos da equipe, anotando algumas bandejas e chutes de 3 pontos, para deixar sua equipe com 14 pontos de vantagem no começo do segundo quarto.
Lillard, mesmo com seus tornozelos não tão firmes, parecia motivado a vencer e encerrar aquela seca. Terminou o primeiro tempo com 25 pontos. No segundo, mais 25 para alcançar sua maior marca na temporada em seu 13º jogo na NBA com 50 pontos - oitavo maior número na história da liga.
Damian Lillard é responsável por cada um dos últimos dez jogos de 50 pontos de Portland na NBA. É o nono jogador na história a ter este feito e se junta a grandes atletas da NBAcomo Wilt Chamberlain, Kobe Bryant, Michael Jordan, Kareem Abdul-Jabbar e Allen Iverson. Nas últimas dez temporadas, apenas três jogadores conseguiram dez ou mais jogos com 50 pontos: Lillard, James Harden e Stephen Curry.
Porém, os Cavaliers conseguiram aplicar a virada e vencer por seis pontos, aumentando a sequência de derrotas para cinco partidas. A derrota deixou Portland com o recorde de 19-22 na metade da temporada. Quando o apito final foi ouvido, Lillard colocou sua mão atrás da cabeça, olhou a quadra e rapidamente saiu para o vestiário.
"Nós temos que ser melhores para ele", comentou o ala dos Blazers Jerami Grant depois da derrota: "Especialmente quando ele joga desse jeito."
O ponto é: como?
Os Trail Blazers fizeram uma série de movimentações na intertemporada, para construir um time ao redor de Lillard. Renovaram com Anfernee Simons e com o pivô titular Jusuf Nurkic, além da troca com o Detroit Pistons para ter Grant.
Eles selecionaram Shaedon Sharpe como sétima escolha geral para tentar suprir a ausência de C. J. McCollum, que foi negociado com o New Orleans Pelicans na temporada passada. Portland está em um lugar complicado na NBA, e vários dirigentes olham isso de maneiras distintas.
"O Toronto Raptors estava no meio da tabela, em 2019", comentou um gerente geral da NBA: "As pessoas falaram: 'Qual o plano?' E negociaram com o San Antonio Spurs, para receber Kawhi Leonard e conquistar o título. Os Blazers podem brigar por título caso consigam outra estrela."
Outros dirigentes ofereceram visões diferentes sobre Portland e a função de Lillard. Um deles chegou a dizer que "é fácil você ser tão legal assim quando estão te dando tanto dinheiro".
Outro fez um adendo similar, alegando que os Blazers poderiam sonhar com o título utilizando este elenco, mas precisariam de um desenvolvimento considerável e, talvez, uma paciência de Lillard, que já está com uma idade bastante avançada.
"Se ele conseguir dar suporte para esta evolução", disse um outro administrador: "ele será o único com uma idade tão avançada a conseguir este feito."
Vários disseram que a produção de Lillard continua fazendo Portland ser competitivo, mas pensam que talvez seja interessante colocá-lo no banco para que outros se desenvolvam neste ritmo. Será que ele aceitaria? No fim, um gerente geral disse que é algo quase impossível.
Após a derrota para Cleveland, Billups foi perguntado sobre o objetivo da temporada.
"Bem, estamos tentando chegar nos playoffs e sermos perigosos, cara", disse o treinador.
Cronin descreveu o equilíbrio em não ser tão apressado nas decisões tomadas e ainda ter uma característica de olhar para o futuro. O gerente geral da franquia disse que sua relação com Lillard é colaborativa e respeitosa, com uma dinâmica firme que existe entre as estrelas do time e os administradores. Eles passam horas conversando sobre os contratos, com Lillard aprendendo bastante com as piadas que Cronin faz sobre o impacto do salário do armador na organização.
Cronin e Lillard se conheceram na entrevista antes do Draft, há uma década. Cronin, que era olheiro e analista na época, tinha feito várias entrevistas até aquele momento. Cronin sabia o que tinha que fazer e como tudo era desafiador para um jovem atleta, especialmente com o antigo dono do time, Paul Allen, que ainda estava presente no dia a dia. Por horas, Cronin estava impressionado pela confiança de Lillard e seguiu maravilhado.
"Você pode dizer que ele foi construído para lidar com tudo isso", comentou Cronin.
Como Lillard, Cronin tem um vínculo forte com os Trail Blazers. Ele está em sua 17ª temporada com o time. Entrou para a administração da equipe em 2006. Foi olheiro e analista de contratos, além de diretor dos funcionários e assistente da gerência geral, até chegar onde está. Sua ascensão foi diferente dos outros times da NBA, mas, como Lillard, é a única equipe que conhece. Por isso, entende que há uma responsabilidade no seu legado e, principalmente, no de Lillard.
"Eu sou o sortudo aqui", comentou Cronin: "Eu vi tudo, desde o começo."
No vestiário, depois da derrota para Cleveland, Lillard estava com um agasalho que tinha uma frase escrita: "Natureza não é um lugar para visitar. É a nossa casa." Depois, andou pelas fotos da história do time - incluindo a com ele mesmo - até chegar na coletiva de imprensa.
Atrás dela, havia uma foto da carreata pós-título de 1977, em Portland. Na foto, uma multidão tomava a cidade. Alguns estavam em cima de alguns postes. Alguns em caminhões. Era tudo de mais disperso, alegre e eufórico. A imagem que Lillard tem sonhado e, a cada temporada, tenta repetir.
Uma chuva, de um inverno frio, caía sobre o carro na frente do ginásio da escola Parkrose, em Portland. Nele, mais de mil pessoas nos dois lados, em uma sexta-feira. Molly Ouche, diretora, estava no meio da quadra.
"Se você pode me ouvir, bata palma uma vez!", ela gritava, fazendo um eco no ginásio.
"Se você consegue me ouvir, bata palma duas vezes!", e o barulho crescia.
Então, a diretora revelou a razão para todos estarem no ginásio naquele momento.
"Obrigado, pessoal! Eu gostaria agora de dar as boas-vindas para... Damian Lillard, do Portland Trail Blazers!"
Antes que terminasse a frase, várias pessoas se juntaram à diretora.
"É ótimo estar de volta", disse Lillard aos estudantes, 12 horas depois de seu jogo de 50 pontos contra os Cavaliers: "Faz alguns anos que eu não venho."
Lillard estava presente por conta do seu Programa Respeito (Respect Program), uma iniciativa anti-bullying dele desde 2012. Seus parceiros ao redor de Portland fazem visitas pessoalmente e ainda ajudam com equipamentos, além de alguns ingressos para vê-lo nos Trail Blazers. Mas o mais importante para Dame é que encorajar os alunos a participarem das aulas (tentando melhorar as notas), trabalhar mais e aproveitar o tempo. Este é só uma das ações de caridade de Portland.
Quando Lillard se tornou o maior pontuador da história do time, Portland doou U$18.041 (R$94.538 na cotação atual) para uma causa que o armador escolhesse. Os selecionados foram: as Olimpíadas Especiais e o Programa Respeito, que Lillard explicou aos estudantes que estavam naquele ginásio.
O armador dos Blazers pontuou que, hoje, a maioria dos estudantes se preocupam com quem são seus amigos, onde vão se sentar no recreio e até quem estão namorando.
"Não é sobre o dinheiro", disse Lillard: "Não se trata de ser popular. Não é sobre essas coisas. Mas, por conta de ter as pessoas certas ao meu lado, eu sempre tive gente me ajudando e encorajando na minha vida, me direcionando ao sucesso. A razão pela qual eu estou aqui é muito simples: quero encorajar todos vocês."
Lillard continuou falando sobre seus ideais: "Não importa quantas pessoas te conhecem. Não importa quantos pontos você vai fazer no jogo. Ninguém liga. Isso é pouco."
Dr. William Johnson, presidente da Moda Health, estava presente. Johnson conhece Lillard desde o dia do Draft. Tal como o armador de Portland, veio de Oakland e, depois de um jantar com ele, em 2012, os dois se tornaram amigos. Johnson disse que sua companhia queria ajudar algumas escolas, desde que tenham notas boas e estejam qualificadas. Lillard o queria ali. Mostrou tudo o que fez, ficaram por horas e depois brincou um pouco com ele.
"Ele [Damian] ama ser motivador", disse Johnson.
No centro da quadra, Lillard olhava para todos os estudantes: "Uma das coisas mais importantes é ser uma pessoa boa". Passou minutos dedicando seu tempo e falando para todos que ser bondoso é uma coisa e ser legal é outra. Principalmente porque nunca se sabe o que se passa com o outro.
"Se você tiver todas estas coisas, já será uma grande pessoa e con uma grande chance de ter sucesso", comentou Lillard: "Isso acontece no esporte. Longe do esporte. Esta é a vida. Apareça, trabalhe duro, seja bom. Estes são meus valores que me acompanham até hoje."
Quando saiu da quadra, o coro era um só.
"NÓS TE AMAMOS, DAME!"
Várias pessoas perguntam para Johnson se Lillard deixará a equipe. Ele balança sua cabeça. Talvez Johnson conheça toda a família. Esteve no casamento e diz que o armador não sairá de lá. Todos estão por perto. Mas as perguntas continuam, mesmo que a resposta não mude.
Portland é a casa de Dame.
Talvez a jornada para o título fosse mais fácil em outro lugar. Mas Lillard retoma isso com um velho ditado: a grama do vizinho nem sempre é tão verde quanto a gente acha. As pessoas dentro da organização já ouviram isso de Dame mais de uma vez. É uma crença que ele tem desde Oakland, onde sua família e amigos faziam questão de lembrar.
"Olhe para a NBA", dizia Lillard: "Se você olhar para Kevin Garnett [ao trocar os Timberwolves pelos Celtics], deu certo, mas é algo único e especial."
E Dame continuou: "Vamos olhar para Russell Westbrook. Deixou OKC por Houston. Depois, James Harden foi trocado. Russ foi negociado para os Wizards. Mais tarde, para os Lakers. Agora, está em seu quarto time em quatro anos e em seu segundo time em um ano. Todo mundo só fala que deveriam se desfazer dele. Agora é que ele deveria estar no banco. O cara foi MVP, é Hall da Fama. É um exemplo de conduta e um exemplo de que a grama nem sempre é tão verde assim."
Os comentários de Lillard foram antes de Westbrook ser trocado para o Utah Jazz, ter negociado o buyout e assinar com o LA Clippers. Porém, a lógica se mantém.
Billups, apenas o segundo técnico que comandou Lillard na NBA, sabe o quão difícil esta jornada pode ser. O antigo armador jogou por sete times em 17 temporadas na liga. Foi trocado no meio de seu ano de calouro e passou várias temporadas entre o banco de reservas e a titularidade, até que achou espaço no Detroit Pistons. Naquele time, com 27 anos, conquistou seu único título, contra o estelar Los Angeles Lakers de Kobe Bryant, Gary Payton, Shaquille O'Neal e Karl Malone, em 2004.
Na quadra de treinamento dos Trail Blazers, em uma tarde de janeiro, Billups lembrou daquele momento e teve aquele sentimento da situação.
"Além de ter filhos e meu casamento, nada é comparável com aquilo", comentou Billups: "Porque aquele foi o meu primeiro amor. Eu nunca trouxe muita coisa para o mundo como o basquete, então conseguir este feito foi algo sensacional."
Billups e Lillard conversam sobre o título de 2004 e o que ele significa.
"Eu apenas sinto que validei tudo o que eu acreditava, sobre o jogo e sobre mim", concluiu Billups.
Chauncey olha hoje e vê como a NBA mudou. Há muito a decifrar. Primeiro, assim como Lillard, acredita que há muita ênfase sobre o título.
"Eu não diferencio grandeza com títulos", comentou Billups: "Apenas times podem fazer isso. No basquete atual, um jogador pode ser o melhor de toda a série, dominar várias rodadas, mas, se seu time não estiver jogando bem, você não vai ganhar... Isso não é tênis. Não é golfe. Isso é um esporte coletivo."
Billups olha para aquele banner do título de Portland de 1977. Ele acredita que este é só o começo. Os Trail Blazers cresceram por conta daquele time, a equipe mais jovem na história a ganhar um título, com 24 anos de média de idade.
Bill Walton, MVP das Finais e pilar da organização, tinha apenas 24 anos naquele momento. O futuro de Portland parecia ser brilhante, com um começo arrasador do que poderia ser uma dinastia. Na temporada seguinte, Portland venceu 50 dos seus primeiros 60 jogos, e a glória parecia esperada no final da temporada. Até que Walton quebrou seu pé.
O time perdeu na primeira rodada da pós-temporada e Walton nunca mais jogou pelos Blazers. Pensando nisso, Billups pensou sobre seu único título, relembrando a jogada de Tayshaun Prince, ao conseguir um bloqueio sensacional contra a bandeja de Reggie Miller a dois minutos do fim do Jogo 2 da decisão da Conferência Leste. Sem isso, o empate aconteceria e "talvez não teríamos ganhado", comentou Billups, enquanto balançava sua cabeça.
"Eu sei o que ele merece", comentou Billups, sobre Lillard: "Ele é um vencedor. Dame tem um espírito vitorioso e joga para vencer. Como técnico, eu vou dar o meu melhor em todas as noites e estarei preparado para quando ele precisar de mim."
Billups deixa claro que o legado de Lillard já está feito: entre os melhores 75 jogadores da história da NBA (e só 10 deles ainda jogam na liga) e maior pontuador do time.
"Ele vai ter uma estátua e tem muito basquete ainda para jogar", comentou Billups: "Nós vamos fazer tudo o que pudermos para que Dame tenha um título. Mas, caso não consiga, não muda nada em seu legado. O jeito que joga, a maneira como persegue o título, para mim, vale muito mais do que qualquer outra coisa. É respeitoso e é difícil acompanhá-lo. Ele é diferenciado, só por não ir para outro time. Porque eu sinto, pessoalmente, que é dessa maneira que ultimamente tem sido feito, indo atrás do melhor time, formar supertimes... Eles não vão entender o sentimento que eu tive quando conquistei aquele título. Eles vão ter o título, mas vão pensar como seria se fosse de outro jeito, com aquela construção."
Pivôs estão se tornando dinossauros na NBA e cada vez é mais difícil ver um jogador que fica na mesma organização por pelo menos uma década. Lillard é um dos quatro atletas em atividade que tem, pelo menos, 700 partidas pela mesma equipe. Udonis Haslem, Curry e Draymond Green são os outros três e somam 11 títulos.
Lillard sabe que faz parte de uma pequena tribo em processo de extinção. Mas quer entrar em outro grupo seleto: apenas 10 jogadores estiveram 10 temporadas (ou mais) com um time e conseguiram um título. A lista inclui Giannis e Dirk. Quando perguntamos sobre sua perspectiva diante disso, Dame disse que agora não é o tempo.
"Eu estou no meio dessa batalha", comentou Lillard: "Ainda não acabou e eu estou em luta."
