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NBA: Quem é e como se prepara o 'alien' Wembanyama antes de entrar na liga

É o fim de uma manhã cinzenta no inverno de Paris, e Victor Wembanyama, maior promessa do Draft de 2023 da NBA, tinha acabado de acordar. O que faz com que várias pessoas em sua família fiquem felizes pelo garoto ter descansado.

A arena pequena localizada próxima ao Arco do Triunfo, que 'Wemby' chama de lar, está muito escura e foi transformada em um espaço para fotos. Vários flashes e câmeras estão por todos os ângulos naquele espaço.

Seu time, o Metropolitans 92, estava esperando que todas as fotos fossem tiradas para poder treinar naquela quadra. Há um policial nas primeiras fileiras, sentado e tomando nota no seu caderno. Os detalhes de segurança estão sendo escritos, para planejar o que será feito na próxima partida. Vários representantes da NBA, incluindo alguns dos principais administradores das equipes da liga, vão participar, e todo o esquema de segurança precisa ser bem feito.

É mais um dia da jornada única de Wembanyama: um talento cativante que está em preparação para a NBA, da maneira mais especial e única possível, nunca antes vista por um europeu. A estrela francesa é a promessa mais esperada por toda a liga desde LeBron James, em 2003, e é favorito para ser a primeira escolha geral no Draft.

Wembanyama já está rodeado pelo clima de NBA, com vários torcedores, celebridades da mídia e até representantes de algumas marcas que estão interessadas em sua imagem. Enquanto isso, o jovem tem um grande cuidado e inteligência para tratar de todos estes assuntos, tentando converter todas as chances que tem em sucesso.

Porém, mais uma vez, Victor deveria estar dormindo. O treinador físico que contratou nesta temporada, Guillaume Alquier, é extremamente cuidadoso com o atleta e espera sua mensagem todas as manhãs, para entender o quanto descansou. Eles não gostam de tecnologia e, por isso, o preparador cuida do sono desta maneira tão manual.

Alquier quer que Wembanyama tenha 10 horas de sono por dia, mas aceita oito ou nove horas. Jeremy Medjana, agente de Victor, também quer saber o quanto ele está dormindo e, francamente, preferia, no mínimo, 11 horas. Medjana cuida da agenda do seu jogador com muito cuidado, para que tenha sonecas na parte da tarde.

Wembanyama vive este momento de celebridade. Ele está estudando as câmeras, olhando os computadores dos fotógrafos e entendendo como isso funciona, além de procurar o melhor ângulo para si, brincando com o que via. Victor amava a novidade daquele ambiente.

Enquanto esperava para que as fotos fossem tiradas, ele fazia algumas bandejas e seus dedos quase tocavam o aro enquanto estava apenas em pé. Em seu perfil, é listado com altura de 2,25m, porém, com tênis ele chega a 2,26m e uma envergadura de 2,43m.

E é possível que cresça mais ainda.

"Eu nunca fiz algo tão grande quanto isso", comentou Victor, se referindo ao que aquele dia significava para ele.

Mais eventos como este vão acontecer na vida de Wembanyama. Em outubro do ano passado, em Las Vegas, Victor fez grandes amistosos contra o G League Ignite, que possui outro grande prospecto: Scoot Henderson. Com apenas 19 anos, o jogador francês teve uma atuação brilhante e está vivendo as consequências deste sucesso.

Wembanyama somou 37 pontos naquele primeiro jogo, com direito a sete bolas de 3 pontos, que impressionou mais ainda todos os olheiros. Todos os presentes ficaram maravilhados pelo que aquele jogador, daquele tamanho, conseguia fazer.

Na segunda partida, a situação foi diferente. Suas jogadas se concentraram mais no garrafão e forçando contato, além de utilizar sua altura para conseguir 36 pontos. Sua inteligência também foi colocada em cheque neste momento, afinal, precisou entender onde estava o espaço para seus arremessos quando o G League Ignite subiu a marcação, na tentativa de inibir os chutes de fora do arco que acabaram com a equipe no jogo passado.

Dentro de alguns dias, a NBA comprou os direitos de transmissão dos jogos do Metropolitans 92, para que os jogos da equipe francesa sejam transmitidos na plataforma da liga.

Seus pais, Elodie e Felix, assistiam quietos a este momento de fotos, produzido pela grande atuação de seu filho em Las Vegas. Estavam na escuridão, atrás das câmeras na arquibancada. Eles sempre apoiam seu filho e tentam protegê-lo, mas não se sentem confortáveis com este tipo de situação. Mesmo assim, Wembanyama tem se mostrado independente na sua trajetória: se mudou de Le Chesnay para as proximidades de Paris e tem o mesmo foco no basquete desde os 14 anos.

Mas a mãe e o pai ainda se preocupam que tudo isso seja um pouco demais, principalmente pela demanda de propagandas, torcedores e das ligas que tomam seu tempo. Segundo os pais, ele deveria gastar no desenvolvimento de sua saúde e bem-estar. O estresse e a necessidade de ir jogar nos Estados Unidos, em outuburo, os deixaram desconfortáveis.

"Eu nem pensei no risco. Essa não é minha função, mas meus pais provavelmente pensaram", comentou Wembanyama, dando uma risada: "Não é a minha maneira de pensar. Tudo que eu for fazer e tudo que eu me proponho, eu vou com a certeza de que terei sucesso."

Entender como aquela experiência em Las Vegas impactou a marca de Victor é algo incalculável. O reconhecimento cresceu. O desejo das empresas e equipes para ter Wembanyama aumentou exponencialmente desde aquele dia. Em 2003, quando LeBron ainda tinha 18 anos, um jogo do jovem atleta foi televisionado e o ajudou a ter um contrato com uma marca de tênis. Nele, o ala, que depois seria o maior pontuador da NBA, já se tornava milionário. Victor, que chegou aos 19 anos no dia quatro de janeiro, fez o mesmo com 20 anos de diferença.

As marcas esportivas estão se jogando em Wembanyama, na tentativa de fechar uma parceria antes do atleta chegar na NBA. Não há como saber o quanto estes jogos contra o G League Ignite o ajudaram a ganhar um montante de dinheiro, mas os agentes acham que esse valor pode chegar a U$100 milhões (R$518 milhões na cotação atual).

Mas, o montante pode ser menor, porque Wembanyama está declinando a maioria das ofertas no momento.

"Primeiramente, estamos tentando torná-lo raro", comentou Bouna Ndiaye, agente de Wembanyama em Dallas, que representa outros atletas franceses como Rudy Gobert, Nicolas Batum e Evan Fournier: "Nós não o queremos em todos os lugares. Nós não queremos que ele tenha 20 marcas. Não é isso que faz ele ser um jogador de basquete famoso. Victor sempre diz que quer ser o melhor e, quando você quer isso, precisa focar no basquete. Victor está rejeitando vários negócios milionários agora porque quer focar no seu desempenho como atleta."

Isso é a vontade do jogador. Há uma corrente, inclusive, dizendo que Wembanyama deveria passar estes últimos meses antes da NBA treinando e se preparando para o Draft, para fugir de qualquer chance de contusão. Victor é contra esta ideia e por isso continua jogando pelo Metropolitans 92.

"Muitas pessoas da NBA me ligam, de agentes até administradores e me dizem: 'O que vocês estão fazendo?'" disse Medjana: "Eles querem saber o porquê de deixarmos Victor correr este risco. Ou até questionam o problema da visibilidade, caso ele comece jogar mal. Afinal, para eles, já é um consenso que Wembanyama é a primeira escolha geral do Draft. Seus pais não são os únicos preocupados, eu acho. Mas, olhe para ele agora. É isso que ele quer."

Wembanyama ainda não conhece LeBron, mesmo que ambos sejam patrocinados pela Nike. Victor ainda não recebeu um conselho direto do maior pontuador da história da NBA, apenas se conheceram em um jogo de pré-temporada. Recentemente, LeBron destacou como Victor transcende a ideia de "unicórnio" e que seu talento é de outro mundo, o chamando de 'Alien'.

Além disso, na mesma entrevista o ala dos Lakers destacou algumas coisas que podem ajudar Wembanyama, afinal, LeBron é o único atleta que conhece toda essa atmosfera e pode falar sobre expectativas, desejos e até frustrações deste caminho da adolescência até chegar na liga, com todo este peso ao redor.

Porém, uma das coisas que Victor pegou para si, e que LeBron disse em uma entrevista (de maneira indireta), é que o adolescente francês precisa continuar evoluindo seu basquete, muito antes de lidar com o mundo dos negócios.

"A parte mais importante [para Wembanyama] é continuar com sua mente no jogo", disse LeBron sobre a promessa francesa: "E isso é algo que digo por mim, até hoje sempre falo para mim mesmo: 'Eu vou me comprometer com o jogo. Eu vou treinar. Eu vou me preparar fisicamente, mentalmente e espiritualmente para dar tudo de necessário se eu quero ser grandioso.'"

"A segunda coisa", continuou LeBron: "É não esquecer de se divertir, porque isso vai se tornando um negócio. O esporte vai se transformar em muita coisa séria demais. Ele vai passar por isso e tudo vai ficar... Não quero dizer difícil, mas vai exigir muito dele e demandar algo além na vida que vão exigir."

Wembanyama está sendo bastante elogiado pelos jogadores, como LeBron, Giannis Antetokounmpo e Kevin Durant. Victor reduziu seu tempo em público por ter se tornado um dos atletas franceses mais reconhecidos no país. Seus preciosos jogos em casa se tornaram eventos com várias celebridades. Travis Scott, Kylian Mbappé e até Michael Douglas já estiveram na arena para ver o Metropolitans 92.

Quando Wembanyama esteve no jogo do Chicago Bulls contra o Detroit Pistons, em Paris, no mês de janeiro, um encontro foi feito para que a jovem promessa francesa conhecesse Magic Johnson, porque admirava a capacidade brilhante de enxergar a quadra que o armador cinco vezes campeão da NBA tinha.

Tudo isso continuará por alguns meses. Wembanyama será escolhido na primeira posição geral do Draft, mesmo se não entrar em quadra até aquela noite. Mas não há horizonte em que isso vá acontecer.

"Se Victor não jogar basquete, ele não será uma pessoa feliz", comentou Medjana: "O que o faz feliz é jogar. Não é sobre o dinheiro. Ele vai ter os seus ganhos no futuro e isso não o preocupa. Ele quer jogar, apenas isso."


Todo o preparo para as noites de jogo começa bem cedo.

Wembanyama normalmente é um dos primeiros jogadores na quadra, porque passa por um extenso preparo para ativar todo o seu corpo. Não é como o que Stephen Curry faz com vários arremessos de 3 pontos, mas continua sendo intrigante e singular. Alquier o faz passar por alguns circuitos, o que inclui uma espécie de malabarismo com uma bola de tênis, alguns alongamentos e coordenação dos olhos e mãos neste aquecimento.

Em janeiro, aconteceu um jogo contra o campeão francês, ASVEL, um time de Lyon que Wembanyama jogou na temporada passada antes de voltar para Paris. Antes da partida, um presidente de uma organização da NBA estava no meio de uma conversa com um olheiro, quando viu Wembanyama começar sua rotina pré-jogo. O representante parou a conversa e disse: "Eu quero ver isso aqui [mostrando o aquecimento]".

Outro gerente geral da NBA foi para Paris, com alguns administradores da organização, para conhecer mais do jogador que poderá escolher no próximo Draft. Se posicionou, no segundo nível da arquibancada, onde poderia ver o banco e registrou toda a rotina de Wembanyama por vídeo, com o seu celular.

Mais do que o sono, Alquier se preocupa com o pé de Wembanyama. Proteger os pés é algo vital para um jogador alto da NBA e há poucos atletas no planeta com aquele pé de formato longo (de 36,4 centímetros), fino e curvado. Victor é tão único que precisa de um tênis maior que o tamanho 50.

"Nós temos uma experiência extremamente diferente sobre como evitar contusões de estresse, principalmente pensando nesses pés longos que Victor tem", comentou Ndiaye, que é representante de outros grandes pivôs do basquete mundial: "É algo que você precisa trabalhar muito. Nós tivemos todo um cuidado especial com Wembanyama nos últimos três anos... Nós estamos trabalhando especificamente no seu corpo, para torná-lo mais seguro e ter uma abordagem diferente que dará mais saúde para ele."

Desde seus 15 anos, Wembanyama está trabalhando para alinhar seus joelhos e aprender a pousar em cada passo, tentando suavizar todo o seu peso. Suas técnicas "fora da caixa" tem atraído multidões.

Descalço, Alquier pede para ele rastejar na ponta dos dedos das mãos e dos pés, num esforço para fortalecer seu quadril, abdômen e lombar. Então, vem o ponto mais especial: o treinador passa muito tempo preparando seus dedões.

Alquier passa bandagem em cada um dos dedões que Wembanyama tem e os alonga, para criar resistência. Victor faz careta ao passar por este aquecimento, enquanto empurra todo seu corpo para trás, tentando criar tensão.

"Nós fazemos isso para melhorar a estabilidade do corpo e aquecer suas pernas", disse o treinador sobre o aquecimento: "Nesse exercício, você coloca uma grande pressão no dedão, puxando todos os ligamentos no movimento (contrário) do corpo."

Depois dos treinos e das sonecas que tem, nos dias sem jogo, Wembanyama passa mais duas horas com Alquier na parte da tarde. Nestes exercícios, Victor usa pesos, mas não é para criar músculos, e isso é um tópico sensível para todo o staff ao redor do jogador.

Wembanyama tem um tipo físico esguio, oficialmente registrado com 104kgs. Já é um ponto em que os olheiros discutem sobre o atleta. Para alguns, seria uma reação automática insistir que ele deveria ficar mais musculoso para chegar na NBA, mas não é uma prioridade. Por hora, é, inclusive, um tópico não-negociável para os treinadores de Victor.

Tudo isso foi fortemente apoiado por Holger Geschwindner, que trabalhou com o lendário Dirk Nowitzki. Quando Victor passou 10 dias treinando na Alemanha com o treinador, Geschwindner disse para Wembanyama ignorar esta história de ter que aumentar o peso, porque isso pode ser um risco para sua carreira.

"O peso vai vir com o tempo, você sabe como é. Mas caso o foco fosse o peso, seria um erro", disse Ndiaye: "Eu tenho 100% de certeza sobre isso. Se você fizer Victor ficar mais pesado, em um espaço muito curto de tempo, algo de ruim vai acontecer. Com certeza. Ele se tornaria um jogador propenso a contusões."

Wembanyama tem uma dieta rígida: tem a rotina de se alimentar cinco vezes por dia nos últimos cinco anos, para que seus músculos continuem dando conta de sustentar seu corpo inteiro. O plano é que ele ganhe força, mas não necessariamente um peso enorme rapidamente.

"Eu não me vejo... Grande... Como um cara muito grande", revelou Wembanyama.

Seu tipo físico não é a única coisa que alguns representantes da NBA estão prestando atenção. Quando começaram a acompanhar Wembanyama, eles questionaram o porquê do jogador deixar a equipe do ASVEL, que Tony Parker, antigo armador do San Antonio Spurs e MVP das Finais em 2007, é dono. A última superestrela adolescente da Europa, Luka Doncic, queria dominar o continente antes de tudo e conseguiu: venceu a EuroLeague e ainda foi Jogador Mais Valioso da Competição com o Real Madrid, em 2018.

A resposta: Wembanyama não teve uma grande experiência com aquela equipe na última temporada. Victor teve três contusões diferentes, o que deixou tudo mais difícil para que ele conseguisse tempo na rotação to time. Além disso, sua agenda era mais cheia e tinha menos tempo para treinar, desenvolver e, claro, se recuperar. Na pressão para conquistar um campeonato continental e a liga francesa, há menos tolerância para algum erro juvenil.

"Com o time, você sabe, tem alguns veteranos, mistura com alguns jovens... O entrosamento é diferente", comentou o armador do Asvel David Lighty, que jogou no universitário estadunidense e está na França há 10 anos: "Victor ir para Paris é algo que faz mais sentido para o seu próprio basquete, pensando em se preparar melhor para a NBA."

Esta é uma maneira gentil de dizer que: o ASVEL não estaria empenhado na preparação de Wembanyama. Com os Mets - como o Metropolitans 92 é conhecido - essa é a missão primária e não é surpresa para ninguém.

Os Mets estão com vários jogadores jovens e estadunidenses no primeiro ano fora do seu país de origem. Isso não é construído para aumentar as chances de conquistar um título. Mesmo não ganhando, é uma fórmula que torna os treinos mais regulares, mais vigorosos, com energia e com mais empenho em ajudar Victor a ter repetições de qualidade. Com veteranos e jogadores mais consolidados, estariam interessados na competição interna e não em desenvolver Wembanyama.

Além disso, Vincent Collet poderia ser o técnico de Wembanyama. O treinador é um dos mais respeitados na história do país. Conquistou o prêmio de Melhor Treinador da Liga Francesa por cinco temporadas diferentes e foi técnico da Seleção dos Blues nos últimos 14 anos. Ano passado, com o Metropolitans 92 entrando em falência e com o perigo de cair para a segunda divisão, Collet deixou os Mets para focar no time do país. Até o momento em que ouviu de Ndiaye e Medjana indicando que Wembanyama poderia jogar por ele nos Mets, então voltou atrás em sua demissão.

Nesta temporada, com o Metropolitans 92, Victor Wembanyama tem médias de 22,2 pontos, 9,5 rebotes, 2,3 assistências, 3,1 tocos por jogo e um aproveitamento de 47,2% nos arremessos totais e 28,9% na linha de 3 pontos.

Collet está com um estilo de time diferente do que fez com Nicolas Batum, Alexis Ajinca e Frank Ntilikina. O treinador permite mais erros, deixa Wembanyama procurar arremessos, independentemente de serem ruins ou não. Está nutrindo algo maior do que se preocupar com outro título da Liga Francesa.

Wembanyama gosta de arremessar, seja com uma perna, seja de costas para a cesta ou até criando seu chute na média distância. Ele tem médias de quatro arremessos em um jogo, que não é normal para uma pessoa com um corpo tão grande. Collet admitiu que, se Batum, há 15 anos, tentasse algo parecido no meio de um jogo, ele teria colocado a promessa francesa da época no banco.

Essa liberdade é algo que Wembanyama prefere. Afinal, agora ele entende o quão poderoso é seu talento.

Em 2019, quando tinha apenas 15 anos, Victor teve um apagão em um jogo na Espanha, na frente de vários olheiros. Wembanyama estava fora de sua posição favorita e não era o principal jogador do ataque. Seu esforço e objetivo estavam um tanto quanto perdidos naquele momento.

"Eu literalmente não tinha responsabilidade. A bola nunca chegava para mim, nem nos treinos. O treinador sempre me colocava de pivô", relembrava Wembanyama: "Eu estava realmente frustrado por tudo isso, até no jogo. Eu sabia que não daria certo e não consegui dar o meu melhor."

Isso não é uma preocupação no time atual, porque tudo foi construído para que Victor se sinta confortável. Não apenas para que se sinta bem ou ajude os Mets, mas porque Collet sabe que seu trabalho principal é fazer Wembanyama ficar pronto para a NBA.

"Muitas vezes há alguns problemas com jogadores muito talentosos. Algumas vezes se apegam às suas habilidades e movimentos que tem, muito mais do que ao time e isso é um problema", comentou Collet: "Os oponentes começam a exigir mais deles em força física. Às vezes fica difícil até em receber a bola. Quando isso acontece, ele não pode ir para o garrafão. Ele precisa achar uma maneira de ter a posse onde é mais eficiente."

É isso que Collet trabalha com Wembanyama antes e depois dos treinamentos. Mais ainda nas salas de vídeo.

Sim, isso tudo também é para ajudar o time, mas também para o que enfrentará na NBA, jogando contra os maiores, mais fortes e rápidos jogadores do planeta. Victor precisará sair destas armadilhas.

É algo que se aprende apenas quando está sob o comando de um grande treinador. Mais ainda quando o foco deste treinador é construir tudo ao seu redor, para que beneficie sua promessa e aprenda muito mais, mesmo que deixe o time no fim da temporada.

"Collet não está nos treinando assim só porque somos especiais, sabe?", comentou Wembanyama: "Ele é a bíblia do basquete... Ele não me dá tanta liberdade assim, então isso me permite pensar um pouco sobre o meu impacto e o que posso fazer para deixar as coisas melhores aos meus companheiros de time. Já errei um milhão de vezes, fiz milhares de coisas erradas nesta temporada, mas sinto que estamos melhorando como time. E nós conversamos muito. Muito mesmo. O técnico Collet sempre explica as coisas calmamente comigo, mesmo quando está nervoso."

Porém, o que aconteceu é que Wembanyama se tornou o melhor jogador da liga. Ele lidera a Pro A League em pontos (22,2 por jogo), rebotes (9,5) e bloqueios (3,1) e está entre os melhores em outras categorias. Os Mets são uma surpresa e agora brigam pelo título, mesmo com essa construção ao redor da maior promessa francesa.

As equipe estão tentando diferentes estratégias para segurar o ataque de Wembanyama. Fazem marcação dupla, mesmo quando não está com a bola. Não colocam mais pivôs grandes para marcar ele e estão preferindo alas fortes como primeiro defensor, esperando que a força consiga conter o jogador daquele tamanho.

É um sentimento um tanto quanto diferente para seus companheiros de time, porque não é assim que equipes da Europa normalmente funcionam. A missão ainda é vencer. Mas, desenvolver e proteger Wembanyama é, normalmente, a maior prioridade e todo mundo sabe disso.

"Victor [Wembanyama] é geralmente o 'elefante na sala', mas nós aprendemos a nos adaptar e entender isso", disse o armador titular dos Mets, Tremont Waters, que está em seu primeiro ano na França: "Eu sei do que sou capaz, mas como armador dele, sei do que o time precisa. Todos estão de olho nele. Quando ele se sente livre, nós entregamos a posse nas mãos dele e deixamos ele fazer o que sabe. No fim, basquete é sobre entretenimento e as pessoas querem ver Victor."

Essa abordagem centrada em Wembanyama é maior do que o próprio time. A final da Liga Francesa está marcada para o dia do Draft da NBA, que conta com Victor como estrela do show. Já há várias discussões sobre mudar o calendário caso o Metropolitans 92 consiga chegar nesta última e decisiva fase. Principalmente pela intenção de prover a ele mais tranquilidade e, claro, presença no dia mais esperado pelos fãs.

"Sempre joguei bem, por isso sempre fui o cara mais jovem na equipe mais velha, que esperam defender com força", comentou Wembanyama: "Mas, agora, eu sou considerado um bom jogador. Poucas vezes na minha vida tive oportunidades sólidas como essa."

Na manhã seguinte do seu aniversário de 19 anos, Wembanyama e Medjana se encontraram para almoçar em um restaurante italiano, quieto e aconchegante que ficava no Rio Sena, próximo de onde Victor morava.

É época de trufas, um tipo de raro que Wembanyama ama, por isso, está presente na pizza que a estrela francesa pediu. Seu apetite é grande, então também pega um pouco do carpaccio de Medjana. Eles mudam o tópico da conversa e falam sobre o Draft da NBA, que será no meio do mês de maio.

Este é um assunto que não aparece nas conversas entre os dois. Wembanyama está assistindo a maioria dos jogos da NBA nesta temporada. Estuda algumas estrelas, especialmente Durant, para entender como usar todo o seu tamanho e conseguir vantagem para pontuar na melhor liga do planeta.

Além disso, Victor prioriza os melhores times: "Vamos dizer que eu estou acompanhando tudo, mas é mais fácil ver os melhores times. É difícil ver o que está acontecendo com as equipes da parte de baixo da tabela."

Wembanyama não se permite projetar para onde vai, segundo ele. Mas sabe quais são os times que podem tê-lo para a próxima temporada: San Antonio, Detroit, Charlotte e Houston.

Enquanto comia e girava o garfo na sua boca, Wembanyama diz sem rodeios: "Não há time errado. Não estou preocupado. Não tem organização ruim. Eu jamais diria não para algum time."

E a conversa termina.

Há um certo tipo de pressão se construindo. Enquanto ele trabalha rotineiramente controlando seu sono, alimento, estudo em vídeo, treinamento, dia após dia, se preparando para a NBA, seu time pensa também nos troféus que podem conquistar.

Várias informações estão sendo construídas pelo time de observadores das equipes da NBA que estão indo para França conhecer Wembanyama. Entrevistas são requisitadas, mas a maioria é recusada. Há um documentário sendo produzido neste momento. As empresas querem chegar até ele, para usá-lo na promoção de seus produtos. Enquanto isso, Victor aprende tudo o que pode antes de dar o próximo passo, afinal, todos estão interessados em vê-lo no melhor basquete do mundo.

Quando sobra algum tempo em sua rotina, o atleta tenta ler. Nas salas de espera dos hotéis, Victor faz o que ama desde criança, que é desenhar. Quando chegou de Dallas na temporada passada, em sua primeira viagem para os Estados Unidos, ele queria viajar para comprar instrumentos de desenho e pintura.

"Algumas vezes, eu desenho por cinco minutos. Às vezes, por algumas horas", comentou Wembanyama: "Se eu fosse outra pessoa, eu acho que gostaria de ir para uma universidade [nos Estados Unidos]."

Não é algo esporádico. Seus companheiros de time e treinadores confirmam isso. Dizem ainda que quando ele está indo para os jogos, Victor passa mais tempo com seu livro do que com seu celular. Ele gosta de música clássica e estuda arte. Passar tempo com ele, nestes momentos, deixa claro como é seu pensamento: ele aproveita o presente e é grato pelo que aparece em sua frente.

"O basquete não mudou para mim. É algo mais exterior: mais responsabilidades, mais expectativas... Mas é o mesmo jogo e eu ainda me divirto muito", comentou Wembanyama: "A única coisa que eu posso te falar é que eu amo vencer e odeio perder. Eu quero construir algo que será lembrado, mas sei que isso é algo que se faz todos os dias, aos poucos, tijolo por tijolo."