Em texto publicado no site The Players Tribune, o lateral Danilo Avelar, atualmente no América-MG, falou abertamente pela 1ª vez sobre o caso de racismo que levou à sua saída do Corinthians, em junho de 2021.
Na ocasião, o então atleta do Timão estava disputando uma partida do jogo Counter Strike: Global Offensive quando chamou outro jogador de "fih de rapariga preta" durante chat.
Na mesma noite, um print com a frase de Avelar viralizou nas redes sociais, levando o Timão a abrir uma investigação sobre o tema. Posteriormente, o jogador assumiu a autoria da mensagem.
Na manhã seguinte, o Corinthians agiu de forma rápida e anunciou que iria afastar o atleta e rescindir seu contrato, que ainda era válido até dezembro de 2022.
O afastamento de fato ocorreu, com Danilo ficando sem jogar por meses. No entanto, ele seguiu ligado à equipe paulista.
A situação só terminou em abril de 2022, quando ele foi emprestado pelo Timão ao América-MG. Posteriormente, o lateral acabou contratado de forma definitiva pelo Coelho.
No texto divulgado nesta terça-feira (5), Avelar disse que se sente "envergonhado" e "arrependido" pelo ato racista cometido em 2021.
O jogador, atualmente com 34 anos, revelou que passou a se engajar em "projetos que dão voz" a pessoas negras e disse que tem como principal objetivo educar seus filhos para que eles jamais repitam sem comportamento.
"Não tem um dia que eu não me envergonhe e não me arrependa", escreveu.
"Pouco importa se aquilo não condizia e não condiz comigo, com o que meus pais me ensinaram, com os meus valores. O fato é que eu fiz. E foi grave. Mas reconhecer o erro nunca me pareceu suficiente. Eu precisava tentar repará-lo de alguma maneira", seguiu.
"No turbilhão que se seguiu, eu só pensava em entender por que eu fui capaz de fazer algo assim. Compreendendo isso talvez eu tivesse uma chance de me mudar, pra não repetir. Então passei não só a me engajar em projetos que dão voz e oportunidades a pessoas negras, como também contratei uma professora, a escritora e ativista antirracista Winnie Bueno, e venho estudando com ela", contou.
"Não posso esperar que me perdoem. Mas posso esperar que meu processo de aprendizado contribua para uma transformação social abrangente e efetiva", explicou.
"Por que no dia em que um colega negro que jogava comigo na Ucrânia foi xingado na rua, do meu lado, eu não soube o que fazer?", questionou.
"Por que outro dia, na França, eu achei legal que o gerente do banco fosse um homem negro e não me perguntei por que no Brasil eu nunca tinha visto um gerente de banco negro?", prosseguiu.
"Só hoje, depois de estudar a fundo a nossa história e permitir que essas perguntas latejem dentro de mim, eu consigo responder: porque o racismo estrutura a sociedade brasileira. Somos um país construído nessas bases cruéis. E a minha condição de homem branco me deu o privilégio de não sentir a dor, não estranhar, nem me preocupar com tal sistema de opressão e dominação. Esse privilégio deveria ser o nosso maior motivo de vergonha", salientou.
"A Winnie Bueno tem sido fundamental e eu queria deixar um agradecimento pra ela. Acho que eu progredi, mas tenho muito que aprender ainda", admitiu.
"Um dos pontos que a gente debateu bastante é o seguinte: como eu faço pro meu filho crescer uma pessoa diferente do que eu fui? Querendo ou não, ele também é fruto do privilégio. A nossa vida não condiz com a realidade brasileira, com o dia a dia da maior parte da população. A Winnie me indicou livros infantis pra gente ler juntos, desenhos animados pra assistir. Eu quero que o meu menino cresça respeitando e valorizando as diferenças. E que faça tudo o que estiver ao alcance dele pra gente ser um país menos desigual e injusto", disse.
"O caminho é longo, mas eu tenho fé que nós vamos conseguir. Prometo continuar vigilante. E as minhas cicatrizes jamais me deixarão esquecer", finalizou.
