O Botafogo escreveu um roteiro inédito nas edições de pontos corridos do Campeonato Brasileiro. Para a torcida, um verdadeiro conto de fadas que terminou em filme de terror.
De líder absoluto e campeão do primeiro turno - com direito a melhor campanha da história da competição - o Alvinegro viu o título escapar e perdeu o campeonato ''mais ganho'' de todos os tempos.
Como ''prêmio de consolação'', o ex-líder, que chegou a abrir 13 pontos de vantagem no topo, vai disputar a fase prévia da CONMEBOL Libertadores em 2024, depois de um segundo turno para esquecer.
Com a ''taça na mão'', o Botafogo teve uma oscilação inesperada, combinada ainda a quatro trocas de técnicos, que abalaram o psicológico dos jogadores e culminaram em derrotas de viradas inacreditáveis e empates difíceis de engolir, principalmente na reta final.
Diante deste cenário, o ESPN.com.br separou 10 atos que contribuíram para que o filme dos botafoguenses não tivesse final feliz. Veja abaixo.
1- A saída do Luís Castro
Tudo começou a desmoronar em junho, quando Luís Castro deixou o Botafogo na liderança disparada do Brasileirão para assumir o Al Nassr, da Arábia Saudita.
O que o torcedor botafoguense jamais imaginaria é que Cristiano Ronaldo teria papel fundamental nisso... O astro português ligou para o treinador para convencê-lo a treinar a equipe. Somado ao pedido de CR7 ainda teve uma proposta milionária para lá de tentadora. E a permanência do ''Mister'' ficou insustentável.
Só que Castro tentou esconder a sondagem dos árabes e fez com que a negociação se arrastasse. Tal ''novela'' irritou e abalou a torcida alvinegra, que se sentiu traída com a saída do comandante.
No fim, o português deixou o Alvinegro no topo da tabela de classificação do Brasileirão, com 30 pontos conquistados de 36 possíveis e sete pontos de vantagem do vice-líder, que na época era o Grêmio.
2- O doloroso 'adeus' de Caçapa
Com Castro fora, Cláudio Caçapa foi a solução imediata. O treinador assumiu a equipe de forma interina em uma parceria colaborativa com o Lyon, clube que tem John Textor como sócio-majoritário.
Em uma espécie de ''empréstimo'' até que a diretoria alvinegra contratasse um técnico efetivo, Caçapa contou com a ajuda de Lúcio Flávio, que até então estava à frente do sub-23, e logo conquistou o elenco.
Ele se despediu com 100% de aproveitamento e com a sensação de dever cumprido, afinal foram 4 vitórias em 4 jogos, 8 gols marcados e zero sofridos.
Na partida em que marcou a sua despedida, contra o Red Bull Bragantino no Nilton Santos, Caçapa foi ovacionado pela torcida com gritos de ''Fica, Caçapa''.
No fim, o interino saiu de cena e deu lugar ao ''experiente'' Bruno Lage.
3- O 'chororô' contra o Flamengo
Só que a experiência de Bruno Lage na Europa não foi suficiente para que o treinador aguentasse a ''pressão'' no Brasil.
A derrota por 2 a 1 para o Flamengo, lá na 22ª rodada do Brasileirão, já dava indícios de que o treinador não duraria muito tempo à frente da equipe. Não pelo revés para o maior rival e sim por sua personalidade.
Dentro de campo, Bruno Henrique brilhou, anotou o segundo gol do Rubro-Negro, que deu fim a invencibilidade alvinegra no ''tapetinho'' do Nilton Santos, e ainda provocou na comemoração com o ''chororô''.
No entanto, mesmo com a derrota para o rival, o Botafogo continuou liderança isolada do campeonato, a 11 pontos de distância do então vice-líder Palmeiras. E ainda assim, Lage protagonizou um episódio inusitado após o clássico.
Em entrevista coletiva, o treinador chegou a colocar o cargo à disposição.
''Sobre essa coisa de só olharem para o meu percurso no Botafogo, acho que é uma pressão muito grande sobre os jogadores. E isso eu não admito. Só há uma forma de libertá-los dessa pressão. E por isso estou aqui perante vocês. Não falei com ninguém, pensei muito e neste momento coloco o meu lugar à disposição do diretor, à disposição do presidente'', afirmou.
Um dia depois, após uma conversa com a diretoria, Lage decidiu continuar no Botafogo. Mal sabia que por poucos dias...
4- Bruno Lage, a decepção
Atraído pelo projeto de Textor, Lage assumiu o Botafogo em julho e ficou apenas três meses no clube.
A princípio, ele chegaria para continuar o trabalho construído por Luís Castro. Mas na prática não foi bem assim...
Somada à falta de resultados positivos, Lage ainda barrou Tiquinho Soares, destaque, líder e artilheiro do time. Tal decisão incomodou o elenco, irritou a torcida e gerou atrito até com Textor, que também foi contra a decisão do treinador.
No fim, o renomado português com experiência em Premier League deixou o Brasil com cinco vitórias, sete empates e quatro derrotas em 16 jogos disputados. E ainda teve um ônus aos cofres alvinegros, já que o Botafogo teve que pagar pouco mais de R$ 4 milhões na multa rescisória.
5- Lúcio Flávio, a 'solução' que não deu certo
Com a demissão de Lage, Lúcio Flávio assumiu o posto, com Joel Carli como auxiliar.
O treinador foi um pedido dos próprios jogadores que o viam como uma pessoa de confiança e que conhecia o dia a dia do clube. A vitória por 2 a 0 contra o Fluminense logo na estreia dava indícios de que a boa relação do ex-meia com o elenco poderia dar certo... mas não deu!
Depois de um começo positivo, o nível das atuações do time despencou de forma grotesca. O treinador assumiu a equipe após a 25ª rodada, com oito pontos de vantagem na liderança e foi demitido após o empate em 2 a 2 com o Red Bull Bragantino, na 33ª rodada, quando o Alvinegro viu o Palmeiras assumir o 1º lugar, ainda que com um jogo a menos em relação ao Alviverde.
6- Protagonistas em baixa
A sequência ruim do Botafogo no 2º turno coincidiu com má fase de alguns de seus protagonistas.
A começar pela maior estrela: Tiquinho Soares. A queda de desempenho do artilheiro do time começou após a lesão que ele sofreu no joelho esquerdo, na partida contra o Cruzeiro, na 18ª rodada, que o tirou de campo por quase um mês. Desde então, o brilho de Tiquinho se apagou: foram quatro gols em 15 jogos. Números bem diferentes do 1º turno praticamente irretocável do camisa 9, onde balançou as redes 13 vezes e chegou a ser o maior goleador do campeonato.
Para piorar, no início de novembro, Tiquinho ainda recebeu a notícia do agravamento do estado de saúde de seu pai e chegou até mesmo a perder a titularidade para Diego Costa em algumas ocasiões.
Outro jogador fundamental no setor ofensivo do Glorioso, Eduardo teve atuações apagadas na reta final e chegou até mesmo a ser barrado.
A parte defensiva do Botafogo, que foi um dos principais expoentes no primeiro turno, também teve uma queda brusca. O time levou 18 gols nos últimos dez jogos. Para se ter uma ideia, no primeiro turno, a zaga foi vazada 11 vezes em 19 oportunidades.
Nomes que antes eram destaques como Cuesta, Marçal, Adyelson e até mesmo o goleiro Lucas Perri, caíram de rendimento.
7 - As viradas doloridas
Em um jogos mais memoráveis do campeonato, tido por muitos como uma espécie de final antecipada, o Botafogo recebeu o Palmeiras no Nilton Santos lotado pela 31ª rodada.
O Alvinegro abriu 3 a 0 em um primeiro tempo de tirar o chapéu com gols de Eduardo, Júnior Santos e Tchê Tchê. O que nem o botafoguense mais pessimista esperava era que o time levaria uma virada épica. E levou.
O Palmeiras reagiu depois do intervalo com dois gols de Endrick e um de Flaco López. Tiquinho Soares teve um pênalti defendido por Weverton e não soube segurar a pressão do time de Abel Ferreira, principalmente após a expulsão de Adryelson.
Nos acréscimos, Murilo fez o quarto do Palmeiras e sacramentou uma virada histórica em pleno Nilton Santos. A vitória levou o Alviverde a 56 pontos, três a menos que o ainda líder Botafogo, que ainda tinha um jogo a menos.
O golpe abalou o psicológico dos jogadores e começou a estremecer a confiança da torcida alvinegra. Afinal, será que a equipe conseguiria se recuperar?
Se o clima com a torcida já estava ruim, ficou ainda pior com mais uma virada poucos dias depois. Dessa vez contra o Grêmio em São Januário.
Diego Costa abriu o placar para o Alvinegro, Everton Galdino empatou, Júnior Santos e Marlon Freitas colocaram o placar em 3 a 1. Foi então que começou um verdadeiro show de Suárez. O ''Pistoleiro'' anotou três gols e decretou a vitória de virada do Grêmio por 4 a 3.
Mais uma derrota amarga para os botafoguenses, que ainda assim deixaram o campo líder por conta do saldo de gols.
8- As polêmicas de John Textor
O dono da SAF do Botafogo John Textor foi um dos responsáveis pela crise alvinegra. Não só por não ter contratado pouquíssimos reforços na janela de transferências do meio do ano e sim por suas atitudes contra a arbitragem e até mesmo contra a torcida.
Para o empresário norte-americano, o Alvinegro foi prejudicado pela arbitragem em algumas partidas. Na derrota de virada para o Palmeiras, ele criticou durante a expulsão de Adryelson, fez duras críticas à CBF, acabou suspenso pelo SJTD e processado pela entidade. E não parou por aí.
O empresário divulgou um "estudo de uma empresa independente" que supostamente mostra que o Glorioso deveria ter 68 pontos no Brasileirão e o Palmeiras 50, restando duas rodadas para o fim da competição.
Por fim, Textor também rebateu a torcida alvinegra, aumentando ainda mais a crise no clube. O norte-americano repostou a postagem de uma organizada que pedia o afastamento de alguns jogadores do elenco e fez duras críticas nas redes sociais:
''Sério? Isso é uma piada? Vocês são a menos respeitada e mais inútil das nossas maravilhosas torcidas organizadas. A família Botafogo sente dor, mas não se levanta com vocês. Respeite os homens que deram a esperança de sonhar de novo'', escreveu no Twitter.
9 - O apagão com o Athletico-PR
De fato, há coisas que só acontecem com o Botafogo...
A partida entre Botafogo e Athletico-PR-PR válida, pela 28ª rodada, começou às 21h de um sábado e terminou às 15h45 de um domingo, sem público. Por conta de uma queda de luz no Nilton Santos, o duelo teve que ser adiado para o dia seguinte. No fim, o placar dos dois dias se repetiu: 1 a 1, com gols de Tiquinho e Pablo.
Só que a alteração na data acabou atrapalhando o time carioca. Isso porque o jogo seguinte, contra o Fortaleza, que seria em uma terça-feira, teve que ser adiado para respeitar o prazo mínimo de 66 horas para uma equipe entrar em campo.
Seria o último compromisso do Laion antes da CONMEBOL Sul-Americana e certamente Vojvoda pouparia grande parte de seus titulares contra o Botafogo. No fim, o Alvinegro encarou o Fortaleza com força máxima na última data Fifa, em novembro, e ficou no empate em 2 a 2 no Castelão.
10 - O empate com o rebaixado Coritiba
Após liderar o Brasileirão por 31 rodadas, o Botafogo chegou para a partida contra o Coritiba ocupando a 3ª posição e poderia pular para a vice-liderança, ficando a um ponto do Palmeiras. Isso até aconteceu, mas durou apenas dois minutos.
Depois de um jogo apático contra o time já rebaixado, Tiquinho Soares marcou de pênalti nos acréscimos, mas tudo se desfez quando Edu empatou o jogo no último lance.
Um empate com gosto de derrota para os botafoguenses, que viram o jejum chegar a 9 partidas sem vencer e o título ficar ainda mais longe...
