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Sucesso do Santos na Libertadores começou com técnico forjado na várzea, criador dos 'Meninos da Vila' e que morreu de tristeza com o clube

O Santos pode se tornar o clube brasileiro com mais títulos da Conmebol Libertadores se derrotar o Palmeiras neste sábado (30), no Maracanã, coroando uma história internacional que deve muito a Era Pelé e a um técnico que está longe de ser reverenciado como merece.

O FOX Sports transmite ao vivo a final da Conmebol Libertadores, entre Palmeiras e Santos, no próximo sábado, 30 de janeiro, a partir das 17h (horário de Brasília). A decisão também terá cobertura em tempo real do ESPN.com.br, com VÍDEOS de lances e gols.

Luiz Alonso Perez, popularmente conhecido pelo apelido Lula, foi o grande mentor dos anos áureos da equipe santista, período que culminou com as duas primeiras Libertadores do clube (a terceira veio com Muricy Ramalho, em 2011). Chegou a equipe antes mesmo do garoto Pelé e a levou ao bicampeonato paulista (1955/1956) ainda sem o Rei do Futebol.

“Meu pai não caiu no Santos de paraquedas. Quando ele chegou, ele já era um campeoníssimo como técnico da várzea santista, das categorias de base da Portuguesa Santista e do próprio Santos”, disse Marcos Tadeu Alonso, 63, filho do treinador, à reportagem.

Descendente de espanhóis e nascido em Santos, Lula foi funcionário de uma distribuidora de leite e a experiência dele com o futebol foi construída na várzea santista. Primeiro como um esforçado jogador.

“Ele foi lateral, meio perna de pau”, disse Alonso. “Como jogador, ele já comandava o time de campo, já tinha olhar de técnico. Aí um problema no joelho fez ele parar de jogar muito cedo. Mas ele não quis parar”.

Aí surgiu o Lula treinador. Ainda na várzea na cidade, dirigiu o Palmeiras e a Americana. Depois assumiu o time amador da Portuguesa Santista. A bagagem fez com que o Santos o chamasse para assumir o cargo de diretor do departamento amador em 1949.

O bom desempenho o levou a ser nomeado técnico da base em 13 de maio de 1952. Em junho daquele ano dirigiu o time profissional duas vezes contra o São Paulo (vitória e derrota), substituindo temporariamente Aymoré Moreira. Depois voltou para a base.

“Quando ele foi chamado para o profissional em 1954, o técnico era o Giuseppe Ottina. Naquela época o futebol brasileiro valorizava muito os estrangeiros, como agora. Meu pai assumiu interinamente. A diretoria tinha em mente Aymoré, Oswaldo Brandão e outros nomes”.

A data que marcou o início definitivo de Lula no profissional foi 5 de junho de 1954, dia em que o Santos entrou em campo pelo extinto Torneio Rio-São Paulo. Ele ainda era um interino, que teve sequência e foi efetivado com o tempo.

“A estreia foi contra o Botafogo, que era um grande esquadrão, enquanto o Santos não era ainda esse time todo. Já tinha 20 anos que não ganhava um Paulista. Mas, contra todas as apostas possíveis, acabou ganhando no Maracanã [por 3 a 2]”, disse Alonso.

Algo pouco conhecido sobre o trabalho de Lula é que ele acabou iniciando a "filosofia" de “Meninos da Vila”, que recebeu este nome em anos mais recentes e é decantada há algum tempo como o DNA santista.

“Ele começou a implantar no Santos essa mentalidade de trazer os jogadores de base para mesclar com os veteranos. O Santos na época tinha o Jair da Rosa Pinto, que estava mais perto do fim de carreira e teve uma sobrevida por causa da molecada”, disse Alonso.

Os jovens mais famosos que foram promovidos ao profissional por Lula foram Pelé, 16, Coutinho, 14, e Edu, 16, que fizeram as estreias em 1956, 1958 e 1966, respectivamente. Vale dizer que Pelé chegou à Vila Belmiro pelas mãos de Waldemar de Brito.

Mas é possível que o caso mais especial para Lula tenha sido o ponta-esquerda Pepe, que em 1954 estava com 19 anos e já somava duas apresentações pelo profissional quando o treinador assumiu interinamente no lugar de Giuseppe Ottina. Lula e ele trabalharam juntos na base santista de 1952 até 1954, o que criou uma grande afinidade entre eles.

“Quando falamos do Santos, temos de falar do treinador. Ele fazia parte da equipe, foi a pessoa que me promoveu do juvenil. Sou muito grato ao Lula. Foi o grande comandante nas nossas conquistas e tinha olho clínico para ver jogadores”, disse Pepe ao repórter em 2013.

"Ele não era nada de tática, dessa numerologia que existe hoje, mas sabia escolher os 11 melhores de acordo com cada partida. Veja que foi o técnico mais vitorioso do futebol mundial. Sabia mexer no time, sabia motivar o jogador e era amigo do grupo", completou.

Filho e testemunha

Marcos Tadeu Alonso nasceu três anos depois que Lula assumiu o Santos. Na época, Pelé já era o jovem destaque da equipe, que acabaria para sempre tendo aquela fase áurea associada ao camisa 10 como o Santos de Pelé.

Mas Lula teve mais do que um único craque para contar. De 1954 até 1966 ele comandou nomes como Jair Rosa Pinto, Pagão, Vasconcelos, Mauro, Dalmo, Lima, Zito, Dorval Mengálvio, Coutinho, Pele e Pepe --este quinteto ofensivo tornou-se o mais famoso do Brasil.

Foi a união perfeita entre jogadores de alto nível técnico e um treinador capacitado.

Ainda garoto, Marcos Tadeu Alonso e o irmão Luiz Alonso, dois anos mais velho, acompanhavam o pai em dias de treinos na Vila Belmiro. Era comum eles brincarem no gramado do estádio e interagirem com os jogadores.

Alonso também era um dos garotos que entrava no gramado nos dias de jogos como representante mirim da torcida. As histórias desse período foram preservadas na memória dele e reúnem um pouco de tudo, especialmente do ambiente fraternal na Vila.

“Eu vi muita coisa acontecer na concentração. Havia uma união. Lembro do pessoal jogando baralho, uma fumaceira. Ali todo mundo fumava. O Zito, que tinha bronquite, fumava. Era outra coisa, outro mundo”, disse para então citar um dos momentos mais icônicos.

“O Pelé ia fazer uma propaganda do Biotônico Fontoura na Vila com um garoto. Naquele dia, eu estava brincando. Eu era o goleiro, estava com shorts preto, que tinha almofadas na lateral, e chuteiras. Como o garoto faltou, Pelé deu a ideia e me chamaram. Falou: ‘É aquele loirinho ali’. Tinha alguns fotógrafos para fazer a peça com o Pelé”, disse.

“Me lembro que ele falava para eu olhar para onde ele estava apontando, mas eu não via nada. Depois fizeram uma montagem, na qual ele aparecia apontando para um frasco do biotônico. Aí entendi tudo. A foto foi publicada na revista ‘O Cruzeiro’, em 1961”, disse.

Outra história surpreendente envolve o retorno do Santos de uma excursão para os Estados Unidos em 1966, na qual o Santos faturou o Torneio de Nova York, o último sob o comando de Lula.

“Essas viagens deixavam muita saudade. Às vezes eram três meses sem contato. A gente tinha notícias por telegramas ou postais. Eu costumava pedir brinquedos, gostava muito daqueles soldadinhos de chumbo. Uma curiosidade e que, após vencer o torneio em Nova York em 1966, meu pai trouxe um carro rabo de peixe desmontado no avião e montou aqui. A placa: dizia ‘Feira Mundial de Nova York’. Era capota conversível, uma nave espacial para a época”, disse.

Alonso é também uma testemunha sobre o trabalho de Lula. Algo importante para confrontar as lendas urbanas de que o treinador pouco conhecia de futebol, que se beneficiava por contar com um time de craques. Versões mais exageradas dessa história diziam que o técnico simplesmente atirava as camisas para o alto no vestiário e quem pegasse jogava e resolvia.

A prova maior da importância dele naquela engrenagem é que os títulos da era Pelé diminuíram consideravelmente sem Lula. De 1967 até 1974, foram 18 conquistas do clube, das quais apenas sete consideradas para contagem oficial.

“Havia muitos treinos específicos, não era apenas bate bola no gramado. Ele colocava algumas bolas penduras para os jogadores cabecearem. Treinava arranque. Goleiro ficava depois do treino batendo bola. Fazia treinos de dois toques. Ele se preocupava muito com condicionamento físico. Apesar de o Santos ter um toque de bola excelente, tinha muita velocidade também”, disse Alonso.

“Além de técnico, meu pai era amigo dos jogadores. Ele conversava, ele queria saber se o jogador tinha algum problema. Ele se preocupava com o aspecto psicológico. Foi diferenciado por isso também. Ele estava além do tempo dele", continuou.

"Uma coisa que ele falava e que o técnico não tem ficar à beira do campo gritando porque o jogador não escuta. O técnico tem de saber armar o time de acordo com o adversário. No intervalo corrige. No campo tem de ter uma pessoa, no caso o capitão, que era o Zito, que o represente. Eles se comunicavam por olhares quando era necessário mexer em algo”, acrescentou.

Uma cicatriz aberta

Lula trabalhou no Santos até o final de 1966, tendo reformulado a equipe pelo menos três vezes desde 1954. Sempre para manter o time no topo. Inclusive, estava caminhando para uma quarta mudança quando foi tirado do cargo.

Até hoje os motivos que levaram a diretoria da época a demitir o treinador não são totalmente claros. Na época, dizia-se que a mudança ocorreu por interferência de Pelé. Lenda ou não, a história atravessou as últimas décadas.

“Pelo que a gente sabe, o Pelé teve participação nisso. Chegou no Athié [Jorge Cury. presidente] e exigiu: ‘Ou ele ou eu!’ Os motivos que levaram o Pelé a fazer isso eu não quero nem comentar. São motivos extrafutebol. Acho que o Pelé não tinha na época a consciência e a capacidade de entender o quão importante meu pai foi para ele. Essa história foi dita pelo Athié para a minha mãe”, disse.

“Meu pai amava o Santos. Depois da família, acho que o Santos era a coisa que ele mais amava. Quando ele saiu do Santos, ele foi para o Corinthians, quebrou o tabu que ele ajudou a construir, ficou feliz e triste ao mesmo tempo, e, se você me perguntar porque ele morreu… Foi porque ele amava o Santos... Morreu com 50 anos, em 1972. Eu já vivi 13 anos mais do que ele viveu… Ele morreu por causa disso. Ele amava o Santos e queria voltar ao Santos e não voltou. Era uma outra época, dinheiro não era nada. Ele criou o Santos. Desculpe…”.

Lula morreu numa quinta-feira, 15 de junho de 1972, em São Paulo, com 50 anos completos. O último clube em que trabalhou foi o Santo André por apenas três jogos. No primerio deles, comandou uma vitória sobre o Santos dirigido por Pepe.

Tinha um histórico médico de hipertensão e não resistiu a um quadro de infecção generalizada decorrente de um transplante de rim. Deixou a vida com um currículo que até hoje é difícil de ser igualado no futebol.

Em doze anos, foram 21 títulos considerados oficiais, entre os quais dois Mundiais, duas Libertadores, cinco edições da Taça Brasil, quatro do Rio-São Paulo e oito do Campeonato Paulista. Mas a quantia chega a 38 somando-se se disputas famosas na época e contra grandes rivais, como o Torneio de Paris, o Quadrangular de Buenos Aires, o Pentagonal do México, entre outros.

É uma marca bastante incomum. O catalão Pep Guardiola, que completou 50 anos no último 18 de janeiro, soma 30 títulos oficiais. Já o escocês Alex Ferguson conseguiu 50 (sendo 38 em 27 anos no Manchester United) em 39 anos de carreira.

“Quando saiu do Santos meu pai deixou um timaço para o Antoninho [auxiliar] ganhar a Recopa e outros títulos até 1970. Lembro quando o Ferguson deixou o United fizeram uma baita festa e eu fiquei com uma p... inveja. Meu pai não recebeu nem um até logo do Santos. É uma história bonita e triste. O final foi muito dolorido, mas o legado do meu pai é muito forte”, disse Alonso.

História vai virar livro

O legado de Lula, tão bem cuidado e preservado por Marcos Tadeu Alonso, será retratado em um livro do jornalista Fernando Ribeiro. É ele quem está reunindo informações e pesquisando a vida do treinador para lançar uma obra tão inédita quanto necessária.

“É um livro sem pretensões comerciais. A única pretensão é mostrar quem foi Luiz Alonso Perez para o futebol brasileiro e mundial”, disse o filho, emocionado.

No Santos, muito além dos títulos e da relação com estrelas como Pelé, foram 945 partidas, das quais 619 vitórias, 144 empates, 182 derrotas, 2.858 gols marcados e 1.447 sofridos).

Lula ainda treinou Corinthians, comandando o time na vitória por 2 a 0 sobre o Santos em 1968, que encerrou um tabu de 11 anos sem triunfos no clássico pelo Estadual. Depois passou pela Portuguesa Santista e pelo Santo André. Em resumo, um homem vitorioso.