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Antes de ser Pelé, Edson fez golaço da Copa de 58 na várzea, foi campeão de salão e estreou em SP com 13 anos e 5 gols

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Pelé, 80 anos: 'Quando eu for para o céu, espero que Deus me receba como todos me recebem no querido futebol' (1:13)

Pelé completa 80 anos nesta sexta-feira (23/10) (1:13)

Muito antes de ser Pelé, Edson Arantes do Nascimento foi um menino travesso, capaz de matar aulas para fugir dos castigos físicos aplicados na escola e roubar amendoins com os amigos para comprar uniformes para o time, mas foi também um talento em transformação. Empilhou taças em torneios amadores, fez "gol de Copa do Mundo" e até ganhou uma viagem de luxo para São Paulo, onde estreou aos 13 anos com cinco gols, muito antes da fama.

Boa parte dessas lembranças do Rei do Futebol, que completa 80 anos nesta sexta-feira, 23 de outubro, são de um velho escudeiro: Aniel Chaves, quatro anos mais velho. Ele foi um dos primeiros amigos de Pelé em Bauru.

“Ele era um menino extremamente humilde, vindo de Três Corações com a família, e tinha o mesmo sonho de todos os garotos da época: ser jogador profissional, jogar em um grande clube”, disse Chaves à reportagem.

O amigo testemunhou a transformação do primogênito de dona Celeste e seu Dondinho, que foi atacante do Atlético-MG e do Bauru Atlético Clube, no maior jogador de futebol de todos os tempos.

Entre as muitas histórias que viu, Chaves relembrou quando Pelé marcou um gol idêntico ao que faria anos depois na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, sobre o País de Gales --o primeiro dos 12 gols do Rei nos Mundiais.

“Atrás do campo do Noroeste, todo sábado à tarde a gente fazia um treino jogando descalço chamado ‘Vai quem quer’. Ali o Pelé, fez a grande jogada que marcou ele na Copa de 1958, naquele único jogo que o Brasil ganhou de 1 a 0. Ele deu um chapéu, bateu em baixo e fez o gol da vitória. Quando ele não tinha como passar pelo adversário, ele enfiava o pé embaixo da bola, levantava ela e pegava a bola na frente ou de lado. Essa famosa jogada ele criou e aperfeiçoou lá”, disse.

Aniel Chaves foi companheiro em quase todos os times que Pelé defendeu em Bauru. O que é uma proeza, pois o menino defendeu várias camisas na cidade e quase sempre sendo goleador e campeão.

Começou pelo Sete de Setembro, um time de “pés descalços” e cujo nome era referência à rua que fazia esquina com a casa da família do garoto Edson Arantes do Nascimento. Depois veio o Ameriquinha, primeira equipe em que Pelé calçou chuteiras.

Em seguida, o mais famoso de todos, Baquinho, time infanto-juvenil do Bauru, onde Pelé foi bicampeão da liga local e ganhou a projeção para partir para o Santos.O responsável foi Waldemar de Brito, ex-centroavante de Palmeiras e São Paulo.

“Pelé aprendeu muito com o Dondinho, que era um bom jogador e tinha um apelido curioso: Maleável. Ele era muito habilidoso em jogadas de cabeça. Agora quem deu a grande formação para o Pelé no futebol foi o seu Waldemar de Brito. Ele viu as qualidades do menino e passou fundamentos que o Pelé levou para a vida inteira. Depois ainda o levou para Santos, ”, disse Chaves.

Ainda em Bauru, após o primeiro o título pelo Baquinho, Pelé e os demais garotos ganharam um prêmio especial. Aniel Chaves, que jogava como volante e lateral esquerdo do time, estava junto e relembrou com emoção.

“Nós recebemos como prêmio pelo título infanto-juvenil uma viagem para São Paulo no trem de luxo da Companhia Paulista. Fomos no carro pullman, com restaurante… [Pausa emocionada] Nós éramos meninos pobres, de repente a gente estava em um trem de luxo, viajando para São Paulo, para fazer um jogo na rua Javari, no campo do Juventus, como preliminar da decisão do Campeonato Paulista da Segunda Divisão, entre Araraquara e América de São José do Rio Preto”, disse Chaves.

“Nós enfrentamos o Flamengo da Vila Mariana, campeão infanto-juvenil em São Paulo. Esse jogo foi incrível. Terminou com vitória nossa por 12 a 1. Doze!. Foi o primeiro jogo que o Pelé fez na capital de São Paulo. Ele era um menino, com 13 para 14 anos de idade, e marcou cinco gols. Foi destaque aqui no jornal de Bauru. Ali já pintava aí o grande artilheiro que ele foi”, completou.

A partida ocorreu em 21 de março de 1954, mas é quase desconhecida. Para muitos, a estreia de Pelé em São Paulo foi em 26 de abril de 1957 contra o São Paulo, no Pacaembu, justamente no primeiro jogo oficial dele pelo Santos, que venceu por 3 a 1.

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Além da viagem para São Paulo e de inúmeras outras lembranças preservadas por Aniel Chaves, há uma outra história curiosa nos 80 anos do Rei do Futebol guardada pelo amigo. Poucos sabem, mas ele foi campeão também nas quadras, em Bauru.

“Quando acabou o Baquinho participamos do primeiro campeonato de futebol de salão, em 1954, pelo Radium de Bauru, que tinha esse nome em função do Radium de Mococa. A gente não tinha nome para por no time porque já existia São Paulinho, Corinthinha etc. Formamos nosso time e ficou Radium FC. Ganhamos tanto salão como campo. Este foi o último time que o Pelé jogou em Bauru. Do Radium ele foi para o Santos e aí todo mundo sabe o que aconteceu”, disse Chaves.

Foram dois títulos mundiais, dois títulos sul-americanos, seis taças nacionais, quatro regionais e dez estaduais, além de 1.116 jogos e 1.091 gols. Fora os três mundiais que conquistou pela seleção brasileira, único a conseguir tal feito.

Ainda assim, Aniel Chaves fica com as lembranças da vida simples em Bauru, do amigo antes do estrelato.

“Aqueles foram anos dourados das nossas vidas, tempos de nadar no rio, pescar, jogar futebol nos campos de terra. Tempos que não voltam mais. Sinto um misto de tristeza e emoção ao relembrar. Foram anos felizes e bem vividos”, finaliza.