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Ozil deixa o Arsenal e vai para o Fenerbahce: afinal, o que deu errado para o meia na Premier League?

O "Rei das Assistências" se foi. Mesut Ozil vai defender as cores do Fenerbahce, depois de concordar em rescindir seu contrato com o Arsenal faltando seis meses para o fim.

Não era para ser assim. Na verdade, os torcedores do Arsenal esperavam que ele ficasse para sempre. A chegada de Ozil por 42,4 milhões de libras em setembro de 2013 e seu subsequente contrato de 350 mil libras por semana para ficar no clube, assinado cinco anos depois, foram anunciados como momentos marcantes para os Gunners em sua busca pelo retorno às antigas glórias.

No início, Ozil teve um efeito unificador sobre uma base de torcedores cujo descontentamento com Arsène Wenger estava apenas começando. Mas, com o tempo, o meia se tornou uma das figuras mais polarizadoras da história do clube.

No final, Ozil, anunciado como o novo Dennis Bergkamp, acabou tão importante quanto Denis Suárez, emprestado do Barcelona. Ozil se tornou um pária incrustado de diamantes; uma grande fatia de bolo no clube da dieta.

Ozil ainda tem um apoio feroz nas redes sociais. Um dos motivos pelos quais o Arsenal lhe ofereceu um salário tão alto foi seu poder de marketing e influência online. No momento em que esta matéria foi escrita, o Arsenal tinha 16,9 milhões de seguidores no Twitter; Ozil tem 25,8 milhões. No Instagram, os Gunners ostentam 18,8 milhões de seguidores; Ozil tem 23,5 milhões.

No entanto, em vez de uma relação simbiótica e mutuamente benéfica, Ozil recorreu cada vez mais às redes sociais para comunicar seu status de pária, enquanto o Arsenal procurava cortar laços com um jogador outrora visto como o talismã de uma nova era, mas agora uma relíquia de erros do passado.

Cada lado culpa o outro pelo resultado final, mas como chegamos até aqui?

Ozil tem sido um assunto que desperta emoções desde que chegou ao Arsenal, há sete anos e meio, e é difícil subestimar a comoção que ele causou quando vestiu a camisa dos Gunners. Foi mais do que uma transferência. Um ano antes, em 2012, o Arsenal havia vendido Robin van Persie para o Manchester United, o último de uma longa linha de talentos que se aproximava ou estava no auge de suas carreiras e que cumpriria essa promessa em outro lugar. Van Persie conquistaria a Chuteira de Ouro com 26 gols e levaria o United ao título da Premier League na última temporada de Sir Alex Ferguson. Antigamente rivais amargos, ali estava Wenger entregando a Ferguson a peça que faltava em seu quebra-cabeça.

O Arsenal se tornou um clube incapaz de competir no topo do mercado de transferências, especialmente um inchado pelos bilhões do Manchester City, que seguiu o Chelsea em um caminho rápido para o sucesso por meio de gastos extravagantes. A seca de troféus do Arsenal datava de 2005, pesando mais sobre os ombros de Wenger a cada ano que passava. Mas ao contratar Ozil, que oficializou o acordo em 2 de setembro de 2013, o Arsenal estava finalmente competindo. Mais do que isso, eles estavam contratando uma estrela do Real Madrid e da Alemanha - um craque prestes a completar 25 anos, com talento de sobra para adicionar potência real à abordagem estética de Wenger.

Em uma combinação quase perfeita da transição que os Gunners estavam fazendo, mais cedo naquele dia, eles contrataram o goleiro Emiliano Viviano por um empréstimo de uma temporada do Palermo, também fecharam com atacante francês Yaya Sanogo e o meia Mathieu Flamini. Mas, com o tempo se esgotando, o Arsenal quebrou seu recorde de transferências para pagar os 42,4 milhões de libras por Ozil. Ele se tornou a terceira contratação mais cara do futebol britânico.

No início daquela temporada, o então presidente-executivo Ivan Gazidis disse a um fórum de torcedores do Arsenal que "estamos começando a ver uma escalada em nosso poder de fogo financeiro" e a chegada de Ozil foi a prova de que a retórica poderia vir a ser concretizada.

Exceto que Gazidis tinha de fato ido originalmente a Madri para perguntar sobre a contratação de Angel Di María. Um acordo por Ozil só se materializou como uma possibilidade quando o técnico Carlo Ancelotti disse ao alemão que ele não seria titular e, sendo Wenger um admirador de longa data do futebol de Ozil, o Arsenal foi ao ataue, para desgosto de Cristiano Ronaldo.

Ozil se adapta, mas o Arsenal gasta muito mal ao seu redor

A frustração de Ronaldo com a saída de Ozil do Real Madrid resultou da perda da munição fornecida por um homem apelidado de "Rei das Assistências". Demorou apenas 11 minutos para a estreia de Ozil no Arsenal render uma assistência para Olivier Giroud. Sua primeira temporada terminou com um título, a Copa da Inglaterra de 2014. Eles contratariam o atacante Alexis Sánchez do Barcelona mais tarde naquele ano também, outra contratação forte por cerca de 35 milhões de libras, e reteriam o troféu da Copa um ano depois.

Em 2015/16, Ozil atingiu novos patamares, totalizando 19 assistências - uma abaixo do recorde detido pela lenda do Arsenal, Thierry Henry (2002-03) e Kevin De Bruyne, do Man City (2019-20). De acordo com a Opta, Ozil criou 146 chances naquela temporada, 10 a mais do que qualquer outro jogador conseguiu desde que a empresa começou a contabilizar estatísticas, há quase 20 anos. Uma bela finalização ao vencer um jogo da fase de grupos da Champions League contra o Ludogorets, no início de novembro, é até hoje o gol mais bonito que ele marcou pelo clube.

No entanto, talvez seja nesta temporada que as coisas começaram a dar errado. Wenger declarou no em 2015 que sua equipe era boa o suficiente, sem nenhuma adição além do veterano goleiro Petr Cech. O Arsenal seria o único time nas cinco primeiras ligas da Europa a não contratar um jogador de campo (embora tenha contratado Mohamed Elneny em janeiro), mas os Gunners terminaram em segundo lugar naquela temporada, 10 pontos atrás do campeão Leicester City. Muitas das equipes estabelecidas olharam para a incrível conquista do título do Leicester como um conto de fadas e uma oportunidade perdida, mas talvez nenhuma mais do que o Arsenal. Wenger mais tarde admitiu seu "arrependimento e culpa".

O que se seguiu foi uma série de erros de mercado.

Os Gunners contrataram Granit Xhaka, Shkodran Mustafi e Lucas Pérez por cerca de 86 milhões de libras combinadas em 2016. Ozil terminou a temporada 2016/17 com nove gols na Premier League e oito assistências, mas os Gunners terminaram fora dos quatro primeiros pela primeira vez sob o comando de Wenger, que remonta a 1996.

Contra este pano de fundo, Ozil e Sánchez, os dois jogadores de destaque da equipe, entraram no último ano de seus contratos no início da temporada 2017-18, e seu relacionamento com o resto do time tornou-se complicado à medida que as negociações se arrastavam. Fontes disseram à ESPN que Ozil e Sánchez perderam os "dias do clube" - uma vez por mês, os jogadores teriam que abrir mão de seu tempo livre para cumprir os vários contratos comerciais, de mídia e marketing do clube - em mais de uma ocasião. Entende-se que a dupla se manteve informada sobre as conversas de seus contratos, sabendo que seu poder de barganha era ainda maior combinado.

Um acordo para vender Sánchez ao Manchester City fracassou na janela do meio do ano, e a situação começou a ficar tóxica. A fase de Sánchez caiu de um penhasco e fontes disseram à ESPN que ele parou de responder aos e-mails internos da equipe. As relações nunca se deterioraram na mesma medida com Ozil, e quando Sánchez foi autorizado a deixar o clube para ingressar no Manchester United em janeiro de 2018 - com Henrikh Mkhitaryan vindo na direção oposta em um raro "acordo de troca" entre dois clubes importantes - o Arsenal reconheceu que precisava fazer outra declaração de intenções.

A pressão para impedir a saída de outro jogador de ponta - um passado que eles sentiram ter deixado para trás - atingiu um nível crítico. E assim, no dia em que quebraram seu recorde de transferência para contratar Pierre-Emerick Aubameyang do Borussia Dortmund por cerca de 56 milhões de libras, foi anunciado que Ozil renovado o seu contrato por cereca de 350 mil libras por semana, uma extensão de contrato que quebraria a estrutura salarial do clube.

Fontes disseram à ESPN que Aubameyang queria saber se Ozil ficaria antes de concordar em jogar no clube e, da mesma forma, Ozil pediu indicações de que o clube iria investir rapidamente no elenco para voltar à Champions League, já tendo adquirido o atacante Alexandre Lacazette por 46,5 milhões de libras.

As especulações sobre o futuro de Wenger estavam atingindo seu auge. No final das contas, Gazidis determinou que Ozil seria o componente central da equipe, não importava quem estava no comando, mas as coisas não foram bem assim.


Enquanto o Arsenal tenta evoluir, Ozil é deixado para trás

As três figuras envolvidas nas negociações de contrato de Ozil - Wenger, Gazidis e o chefe de negociações, Dick Law - deixaram o clube no final de 2018. Gazidis começou discretamente a tirar a autonomia de Wenger, nomeando nove novos chefes de departamento e contratando Sven Mislintat, do Borussia Dortmund, para liderar o recrutamento do clube. A nomeação do técnico Unai Emery foi projetada para injetar energia renovada em um bastidor desgastado, restabelecendo uma forte ética de trabalho e banindo uma cultura de conforto que permeava sob o comando de Wenger, que embora um fervoroso defensor de Ozil, ainda tinha reservas quanto ao enorme salário que recebera.

O estilo de jogo de Ozil fazia dele um alvo óbvio. Emery reconheceu seu talento, mas questionou sua motivação. Os novos mediadores, que também incluíam o ex-executivo do Barcelona, Raul Sanllehi como chefe do futebol, passaram a ver Ozil e seu contrato como um símbolo de generosidade do passado, o relacionamento de Emery com Ozil oscilou.

Houve alguns momentos memoráveis, principalmente ao usar a braçadeira de capitão contra o Leicester em 22 de outubro de 2018 - um gol e uma assistência. No entanto, ele foi usado com moderação ao longo da temporada, com Emery expressando preocupações sobre sua preparação física e compromisso. As críticas de que Ozil não conseguia produzir nos grandes jogos permaneceram, especialmente após a final da Liga Europa de 2019, quando ele foi substituído pelo jovem Joe Willock, com os Gunners perdendo por 4 a 1 para o Chelsea.

O Arsenal tentou venedr Ozil naquela janela, mas não conseguiu encontrar um clube pronto para arcar com o seu salário. A atitude de Ozil foi novamente questionada em alguns setores, embora haja informações conflitantes sobre se ele agiu por má gestão ou por arrogância. Fontes disseram à ESPN que, em uma ocasião, Ozil apareceu no campo de treinamento do clube em London Colney para se tratar de uma lesão e foi mandado para casa após ser informado de que não havia mesas de tratamento disponíveis.


Razões esportivas por trás do exilo de Ozil, ou algo mais?

A torcida não aguentava mais Emery no comando do Arsneal - vários jogadores importantes, não apenas Ozil, ficaram desiludidos - e ele foi demitido em novembro de 2019. O treinador interino, Freddie Ljungberg, recolocou Ozil no time, mas rapidamente perdeu a paciência, citando o momento em que ele reclamou depois de ser substituído contra o Manchester City.

Recém-chegado, Mikel Arteta utilizou Ozil em seus primeiros 10 jogos na Premier League como o técnico dos Gunners, embora com retornos modestos. A crítica pública de Ozil ao tratamento da China à população muçulmana causou problemas diplomáticos para o clube, mas a importância disso em sua marginalização é exagerada, visto que ele ainda permaneceu no time. Foi apenas em março de 2020, em meio à pandemia de COVID-19, quando ele se recusou a se juntar à maioria de seus companheiros de equipe para receber um corte de salário, que Ozil caiu em desgraça para sempre com Arteta.

O espanhol citou "razões futebolísticas" para deixar Ozil de fora, mas qualquer que seja a mudança no estilo de jogo, houve muitos jogos em que 20 minutos de Ozil dificilmente teriam piorado a situação. Arteta foi fundamental para convencer o time a aceitar uma redução nos salários em um momento em que seus colegas da Premier League discutiam adiamentos. Ele pessoalmente interveio para negociar com os jogadores em nome do clube, mas Ozil queria mais garantias de que o dinheiro fosse para os destinos adequados. Essa postura aprofundou as divisões internas porque se o contrato de Ozil era um símbolo de pensamento mais grandioso, a COVID-19 acelerou a mudança do Arsenal de volta para um maior conservadorismo fiscal, demitindo 55 funcionários, reduzindo a rede de olheiros e até dispensando Sanllehi.

Fontes disseram à ESPN que parecia pessoal para Arteta que Ozil não atendeu ao seu pedido de união ao aceitar o corte, e qualquer chance de uma reconciliação entre os dois se foi. Eles não falaram muito depois disso, trocando gentilezas simples sempre que seus caminhos se cruzavam no campo de treinamento. Ozil continuou a treinar com o time principal, dando conselhos e roupas esportivas de sua marca M10 para vários dos membros mais jovens do time.

Arteta, consequentemente, o deixou de fora de seus times da Premier League e da Liga Europa enquanto o clube buscava uma estratégia de saída, deixando Ozil paralisado em 254 partidas, com 44 gols e registrando 77 assistências. Assim que ficou claro que sua situação no Emirates Stadium não mudaria neste mês, a equipe de Ozil começou a explorar o interesse de longa data do Fenerbahce e do D.C. United, da Major League Soccer. Tuitar sobre os jogos do Arsenal e se oferecer para pagar o salário do mascote do clube, Gunnersaurus, só poderia sustentá-lo por algum tempo.

No final, as raízes turcas de Ozil (seus avós emigraram da Turquia para a Alemanha) e a afinidade genuína com o Fenerbahce venceram, com o principal obstáculo financeiro removido, pois o Arsenal concordou em pagar a maior parte dos 7 milhões de euros devidos pelo restante de seu contrato.

Poucos jogadores no mundo possuem a habilidade técnica de Ozil. Ele proporcionou muitos momentos de pura alegria com uma camisa do Arsenal, memórias que não devem ser diminuídas por seus problemas recentes. Mas é impossível escapar de um sentimento persistente de arrependimento em todos os lados por Ozil deixar o Arsenal da maneira que está deixando. No caso de um jogador famoso por dar assistências, o resultado final é que nenhuma das partes fez o suficiente para ajudar a outra.