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Morre Pelé, Rei do Futebol e maior atleta de todos os tempos

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O Milésimo: Pelé assume que 'tremeu' para bater pênalti histórico: 'Fiquei preocupado' (1:48)

Pelé marcou milésimo gol contra Vasco, no Maracanã (1:48)

Único jogador tricampeão de Copa do Mundo e autor de mais de 1.000 gols, Edson Arantes do Nascimento não resistiu a complicações de um câncer


Morreu Pelé. Morreu Edson Arantes do Nascimento. Simplesmente, o maior atleta de todos os tempos.

Aos 82 anos, o Rei do Futebol não resistiu a complicações de um câncer que teve origem no cólon (parte do intestino grosso) e se espalhou em metástase por fígado, um dos pulmões e restante do intestino e nos deixou nesta quinta-feira (29), no Hospital Albert Einstein, na zona Sul de São Paulo (SP), no qual estava internado desde a noite de 29 de novembro.

Em função do estado debilitado pelo câncer metastático, ele ainda teve complicações cardíacas, respiratórias e renais.

Tricampeão mundial com a seleção brasileira em 1958, 1962 e 1970 e multicampeão com o Santos, seu único clube no Brasil em toda a carreira entre 1956 e 1974, Pelé, que ainda defendeu o New York Cosmos-EUA de 1975 a 1977, já sofria com problemas no quadril desde 2012 e se locomovia com o auxílio de uma cadeira de rodas em suas aparições públicas nos últimos anos.

Mineiro de Três Corações, onde nasceu em 23 de outubro de 1940, Edson deixa a esposa, Márcia Aoki, e teve oito filhos (uma de criação) - três deles com Rosemeri dos Reis Cholbi, a primeira cônjuge (de 1966 a 1982) - Kely, Edinho e Jennifer; 'três' com Assíria Seixas, a segunda (de 1994 a 2008) - os gêmeos Joshua e Celeste, além de Gemima, esta criada em conjunto com ele desde que tinha apenas oito meses de vida; e outros dois de relações extraconjugais - Flavia Christina e Sandra Regina.

Um dos três filhos de Celeste Arantes e João Ramos do Nascimento (mais conhecido como Dondinho), Edson Arantes do Nascimento teve que lidar com a perda de uma das filhas muito cedo, ainda em outubro de 2006, quando Sandra Regina morreu aos 42 anos. Ela, que só foi legitimada como filha do ex-jogador por uma ação na Justiça, tinha câncer de mama e tratava uma metástase.

Promessa ao pai. Bilé, Pilé, Pelé

Mal sabia Dondinho, naquele 16 de julho de 1950, que o guri que enxugava as suas lágrimas após o gol de Gigghia, no Maracanã, e lhe prometia uma Copa do Mundo para aplacar aquela dor cumpriria de fato a promessa. E não apenas uma vez, mas três - único jogador tricampeão mundial. E Ainda seria autor de 1.283 gols.

Houvesse como marcar a história do futebol, ela estava traçada ali para ser dividida em duas eras: Antes de Pelé e Depois de Pelé.

O filho de Dondinho foi ninguém menos do que Edson Arantes do Nascimento. O Dico. O Gasolina.

O Pelé, o Rei do Futebol.

O homem que mostrou ao mundo que a arte de tratar a bola com os pés poderia encantar plateias, parar guerras, arrancar suspiros e tornar o futebol ainda mais popular.

Antes de Pelé surgir para o mundo existia apenas o menino nascido em 23 de outubro de 1940, na mineira Três Corações, filho de Celeste Arantes e João Ramos do Nascimento. Edson teve dois irmãos, Jair (o Zoca, falecido em março de 2020, aos 77 anos e que lutava contra um câncer de próstata) e Maria Lúcia.

O nome foi uma homenagem ao gênio norte-americano Thomas Edison, inventor da lâmpada elétrica e de quem o pai era fã. Mal sabiam Celeste e Dondinho que Dico, como o garoto era chamado em casa, entraria para a galeria dos grandes nomes da história como o xará.

Edison, que com o tempo esqueceu o i e passou a ser Edson, nasceu já no berço da bola.

Dondinho, seu pai, era jogador profissional, com passagem pelo Atlético-MG. E as idas e vindas da profissão levaram a família Nascimento para Bauru, no interior de São Paulo, em 1945.

Inspirado no pai, o garoto Edson sempre buscou as peladas com os amigos. Primeiro, ganhou o apelido de Gasolina dos mais velhos. E, por admirar um companheiro de time de Dondinho, o goleiro Bilé, recebeu o famoso apelido que com o passar do tempo passou a ser confundido com o seu próprio nome.

Ainda menino, se imaginava como o ídolo nas ruas e gritava para os amigos e para si mesmo, com a dicção e a imaginação ainda inocentes de um garotinho: "Lá vai 'Pilé!'"

Daí para Pelé foi um pulo. De início, o moleque não gostou. Mas não houve jeito. Fundiam-se ali, para sempre, Edson e Pelé.

A ligação com o futebol era estreita. Dondinho jogava, mas acompanhava, fervoroso, a seleção brasileira.

Colado ao rádio em 1950, o pai chorou com a derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo no Maracanã. E seu filho, aos nove anos, inconformado com a tristeza do pai, prometeu: conquistaria uma taça daquela para ele.

"Quando vi meu pai em lágrimas, só pude pedir para que não chorasse porque eu ia ganhar uma Copa para ele", disse o homem Pelé.

Coisa de menino, provavelmente pensou Dondinho. Mas em 1955, Pelé já barbarizava em Bauru. Jogava no Baquinho, na base do Bauru Atlético Clube.

De Bauru para o Santos. O primeiro gol. E a seleção

Ex-jogador e então técnico, Waldemar de Brito decidiu levar o talentoso menino para o Santos. No dia 8 de agosto daquele ano, Pelé pisou na Vila Belmiro para mudar três histórias. A sua, a do Santos e a do futebol.

Em 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, pouco antes de completar 15 anos, estreou na equipe principal, contra o Corinthians de Santo André. Saiu do banco de reservas e marcou o sexto gol do time no 7 a 1 - e o primeiro dos 1.091 pelo Santos.

A ascensão do prodígio foi meteórica.

Em 1957, ainda aos 16, foi chamado pela primeira vez para integrar a seleção brasileira. Em 7 de julho pisou no gramado do Maracanã para o primeiro jogo da final da Copa Roca, contra a Argentina.

Os 'hermanos' venceram. Mas o guri com a camisa 13, ainda um tal de Pelé, fez o seu na derrota de 2 a 1. No jogo seguinte, três dias depois, no Pacaembu, o Brasil venceu por 2 a 0. Um gol de Pelé. Foi a primeira taça internacional do futuro Rei.

No mesmo ano, Pelé já apontava ser a referência santista. No Campeonato Paulista, o faro de goleador estava mais do que comprovado: 36 gols e artilharia do torneio. Um assombro. Por isso foi impossível para o técnico da seleção brasileira, Vicente Feola, deixá-lo fora da convocação para a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Mas a três dias da viagem, Pelé levou uma bordoada de um zagueiro em amistoso da seleção contra o Corinthians.

Quase foi cortado.

Feola fez bem em esperá-lo.

Na Suécia, o garoto criou um dogma do futebol sem querer: recebeu, de forma aleatória, a camisa 10 de um integrante da Fifa. Todos os craques de suas equipes, depois de Pelé, usariam o número. A tempo, ele se recuperou para enfrentar os soviéticos ainda na primeira fase.

Ao lado de Garrincha, não saiu mais da seleção depois da vitória por 2 a 0. Na final, contra os suecos, fez dois gols na goleada de 5 a 2. Um deles magistral, ao matar no peito um lançamento na área, dar um chapéu no zagueiro e, de peito de pé, estufar a rede sueca.

29 de junho de 1958. Brasil, campeão mundial. Prazer, mundo. Dizia Pelé.

Aos prantos, o garoto era abraçado por Gylmar, Nilton Santos, Garrincha. Mais do que ser campeão mundial, Pelé cumprira a promessa que fizera ao pai quase oito anos antes, em Bauru. Tinha só 17 anos. Mas com o jeito intuitivo de jogar, a precisão no arremate, a facilidade no drible, ganhou o mundo. Ainda tão moleque e um craque tão completo.

Rei do Futebol

O eixo em torno do mundo da bola começava a girar. O trono de Rei do Futebol estava prestes a ser ocupado. Era questão de tempo. No mesmo ano, no Campeonato Paulista, ele fez nada menos do que 58 gols. O Monarca e sua pelota.

No ano seguinte, Pelé continuou a brilhar pelo Santos e pela seleção. Em 2 de agosto de 1959, colecionou a sua mais bela joia entre os 1.283 gols anotados em 1.365 jogos na carreira. Na rua Javari, na capital paulista, o Santos venceu o Juventus por 4 a 0, três do Rei.

Em um deles, Pelé chapelou quatro adversários em sequência, incluído o goleiro, até tocar de cabeça para o gol. Golaço. Obra-prima que rendeu um busto anos depois, com estátuas espalhadas pelo planeta.

Como protesto à torcida que o vaiava, Pelé deu um soco no ar. Virou marca registrada. O Rei inventava moda. Seus feitos geravam expressões.

Foi assim em 5 de março de 1961, na vitória do Santos sobre o Fluminense por 3 a 1, no Maracanã. Aos 40 minutos de jogo, fintou três adversários e antes do bote do quarto tocou com categoria para o fundo do gol de Castilho. Gol que merecia uma placa. Assim foi feito, pelo jornalista Joelmir Beting. A placa agradecendo ao "tento mais bonito do Maracanã" está até hoje no estádio.

E o termo "gol de placa" ganhou o vocabulário popular. Por isso, o mundo queria sempre assistí-lo.

Nas duas Copas seguintes, porém, acabou privado de observá-lo em ação. Em 1962, no Chile, Pelé sofreu uma distensão logo no segundo jogo e viu, da arquibancada, Garrincha e Amarildo indicarem o caminho para o bi mundial.

Em 1966, na Inglaterra, novamente acabou lesionado e viu também de longe o Brasil cair logo na primeira fase. No mesmo ano casou-se com Rosemeri Cholbi, uma namorada que conhecia desde os 19 anos. Com ela, teve três filhos: Kely Cristina, Edinho e Jennifer.

Nesse meio tempo entre as decepções com a seleção brasileira em Copas, Pelé inflou-se ainda mais no papel de ídolo do Santos. Ao lado de Mengálvio, Coutinho, Pepe e Dorval conquistou a Libertadores por duas vezes, em 1962 e 1963, assim como os Mundiais de Clubes sobre Benfica e Milan. Ainda que lesões o tenham afastado das partidas finais contra os italianos.

A fama de Pelé já era conhecida mundialmente em uma época em que as principais mídias eram a radiofônica e a impressa.

Não se ia ao estádio para assistir ao jogo naqueles tempos. Ia-se para testemunhar uma atuação de Pelé.

Todos queriam ver o Rei.

A ponto de proporcionar episódios que pareceriam pura lenda.

Em 1968, o Santos viajou para a Colômbia para realizar um amistoso contra a seleção olímpica local. Estádio cheio, Pelé reverenciado. De personalidade forte, o árbitro da partida, Guillermo Velásquez, cometeu o único crime possível daquela tarde: expulsou Pelé.

A multidão, enfurecida, protestou e ameaçou agredir o juiz. Pelé, já no vestiário, foi chamado para voltar ao campo às pressas. Estava, em neologismo criado pela língua do universo Pelé, "desexpulso". Com o árbitro afastado, o camisa 10 voltou a campo, foi ovacionado e fez um dos gols da vitória de 4 a 2 do Santos.

Coisa de outro mundo. Ou melhor, coisa do mundo de Pelé.

Um universo em que era permitido até mesmo paralisar, literalmente, guerras para assistir ao Rei do Futebol. Em 1969, o Santos rumou para uma excursão na África. Lá viviam em conflito dois países: o Congo Kinshasa, atual República Democrática do Congo, e Congo Brazzaville, atual Congo.

Com a presença do Santos de Pelé, uma trégua foi acertada.

Durante os nove dias em que aconteceram cinco jogos, com sete gols de Pelé, não houve guerra. Mas tão logo o avião do Santos deixou a África, o conflito voltou.

Apenas mais coisas do mundo de Pelé.

De tanto balançar redes pelo mundo, Pelé somava gols e mais gols. Crescia, então, a expectativa pelo milésimo. No dia 19 de novembro de 1969, Pelé caminhou para cobrar o pênalti contra o Vasco, no Maracanã. A bola, como de costume, beijou a rede. Andrada, goleiro vascaíno, esmurrou o chão por vezes seguidas. E Pelé, cercado por fotógrafos e companheiros, pediu ajuda:

"Vamos ajudar as criancinhas necessitadas do Brasil."

Abismado com o feito do craque, o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, mineiro como o ídolo, escreveu: "O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé".

Coroação definitiva. Ditadura. EUA. E aposentadoria

Em 1970, aos 29 anos, Pelé entrava em sua quarta Copa do Mundo. Disposto, claro, a encerrar as frustrações das edições passadas e a dissipar a desconfiança de público e crítica de que já não era o craque de antes.

Pelé foi... Pelé.

Número 10 às costas, foi o craque que comandou a melhor seleção de todos os tempos. Gols foram quatro, incluindo um na final contra a Itália. E até os quase gols ficaram famosos, como a cabeçada defendida pelo inglês Gordon Banks, o chute do meio de campo contra a então Tchecoslováquia e o drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewicz.

Nenhum lance foi às redes. Todos viraram história. Assim como Pelé.

Com sua terceira Copa do Mundo no currículo, o trono de Rei do Futebol estava, definitivamente, ocupado.

Aí, um capítulo à parte: a conquista do tricampeonato mundial foi utilizada pelo Governo Médici, no Brasil, quase como um panfleto da Ditadura militar. O craque da equipe, então, teve os passos monitorados. Em depoimento ao temido Departamento de Política e Ordem Social (DOPS) da época, o Rei garantiu que era contra o comunismo e, se assim fosse, poderia fazer a declaração em público. Não foi necessário.

Pelo prestígio internacional, Pelé acabou utilizado pelo governo Médici, o que levou a questionamentos sobre sua relação com a Ditadura militar. Anos mais tarde, em 1988, ele desabafou sobre o assunto:

"Muita gente não sabe, mas não joguei a Copa de 1974 por desgosto em relação ao regime político do país. Era a época da Ditadura", garantiu o Rei.

A verdade, também, é que a carreira já rumava para o fim. Em 1971, deu adeus à seleção brasileira no Maracanã, contra a então Iugoslávia. Na volta olímpica, ouviu os gritos de 'Fica', da torcida. Pelé ficou. Não em campo, mas na memória. Eternizou a camisa 10 amarela pulando, com um soco no ar, no imaginário popular. Três anos depois chegara a vez de dar adeus ao seu Santos.

Na noite do dia 2 de outubro, o Rei entrou em campo para atuar pela última vez na Vila Belmiro, contra a Ponte Preta.

Camisa listrada, ajoelhou-se no centro do gramado e abriu os braços. O Redentor do Santos. Ao lado, a bola, a mais fiel amiga. No rosto, as lágrimas. 18 anos, seis meses e 26 dias depois, Pelé não era mais jogador do Santos Futebol Clube. Mas a majestade seguiu.

Um ano depois, a oferta de 7 milhões de dólares do New York Cosmos o levou até os Estados Unidos. Pelé ainda tinha uma missão: popularizar o futebol em, talvez, o último centro de resistência à febre mundial.

Com a camisa do Cosmos, ele continuou a encantar e fez parceria com craques como o alemão Beckenbauer e o brasileiro Carlos Alberto Torres, parceiro de tri no México. Em 1977, já campeão da liga americana, aos 37 anos, chegava o momento do adeus definitivo.

No Giants Stadium, diante de 70 mil pessoas. Um tempo com a camisa do Cosmos. Outro, com a camisa do Santos.

Chegava ao fim a Era Pelé em campo.

Marca valiosa, polêmicas e ministro do Esporte

Ainda que aposentado, Pelé continuou a passar muito tempo em Nova Iorque. Tornou-se executivo da Warner Communications, milionário e reconhecido. Relacionava-se com outras celebridades norte-americanas como Jacqueline Kennedy, Steven Spielberg, Robert Redford.

Desde 1978 já havia se separado da primeira esposa, Rosemeri. Edson sabia que a marca Pelé era muito valiosa e passou a lucrar com contratos publicitários. Foi um novo patamar da carreira do ex-jogador, que virara definitivamente o garoto propaganda mais famoso do mundo.

Comprou uma mansão nos Hamptons, balneário luxuoso próximo a Nova Iorque. Em 1981, estrelou um filme com Sylvester Stallone e Michael Caine, "Fuga para a Vitória". Mais tarde, atuou em outros filmes e novelas no Brasil. A bola no pé se tornou tarefa mais esporádica.

Em 1979, vestiu a camisa do Flamengo para enfrentar, ao lado de Zico, o Atlético-MG em um amistoso beneficente para vítimas de enchentes em Minas Gerais. O time carioca venceu por 5 a 1 e Pelé, com 39 anos, deixou o campo no segundo tempo sob aplausos.

Foi uma das tantas homenagens que passou a colecionar. Em 1981, foi eleito pelo jornal francês L'Équipe, em votação com vinte veículos de comunicação do mundo, o 'Atleta do Século'. No mesmo ano conheceu, durante uma sessão de fotos, a modelo Maria da Graça Meneghel, a Xuxa. O namoro badalado foi duradouro, até 1986, quando a apresentadora já se tornara também uma celebridade.

De volta ao Brasil, o Rei do Futebol tinha dificuldade em conviver com a fama e chegou a admitir certo cansaço. Mas continuou a lucrar em campanhas publicitárias. Todos queriam estar com Pelé, todos queriam se associar ao vitorioso homem de Três Corações.

A imersão no mundo executivo o fez fundar, em 1990, a Pelé Sports & Marketing com o advogado Helio Vianna. Quase 11 anos depois, a sociedade acabou com acusações mútuas depois que foi revelado que a empresa ganhara 700 mil dólares em um evento beneficente da Unicef. Pelé garantiu não ter recebido o dinheiro e culpou Vianna, que rebatia acusando o Rei de ter ciência de tudo.

No ano seguinte, para muitos a mancha na biografia do Rei. Sandra Regina, nascida em 1964, acionou a Justiça alegando ser filha dele. O exame de DNA confirmou a paternidade, mas o ídolo voltou aos tribunais. Somente cinco anos depois ela foi reconhecida como filha legítima.

Àquela altura, o Rei já havia se apresentado, em 1990, com a camisa da seleção brasileira na Itália, em comemoração aos seus 50 anos. As homenagens, portanto, continuavam. A imagem reconhecida no mundo todo valorizava.

Em 1994, Pelé se casou pela segunda vez, com a psicóloga Assíria Seixas. Dois anos depois, tiveram dois filhos: Joshua e Celeste. O casamento durou até 2008. Em 2002, a vida pessoal do Rei voltou à tona, com o reconhecimento, desta vez espontâneo, de que Flavia Christina, então com 36 anos, era também sua filha.

Em 1995, o craque vestiu terno e gravata e aceitou ser ministro do Esporte do então presidente eleito Fernando Henrique Cardoso.

Na pasta, Pelé modificou o futebol nacional ao extinguir o passe que vinculava um jogador ao clube mesmo após o fim do contrato. A lei leva seu nome (Lei Pelé).

Em 1996, ele perdeu o pai, Dondinho, por insuficiência cardíaca. E dois anos depois deixou o cargo no ministério. Procurado para dar opinião, não se furtava. Mas começou a chamar atenção pelas frases polêmicas e as apostas nem sempre de sucesso.

Em um palpite indicou a Colômbia como favorita ao título da Copa do Mundo de 1994. O time não passou da primeira fase.

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O Milésimo: Pelé assume que 'tremeu' para bater pênalti histórico: 'Fiquei preocupado'

Pelé marcou milésimo gol contra Vasco, no Maracanã

As listas feitas pelo Rei também lhe causaram dor de cabeça. Em 2004 apontou os 125 jogadores vivos mais relevantes, em parceria com a Fifa. Deixou fora, por exemplo, Gerson, companheiro da seleção de 1970.

Revoltado, o Canhotinha de Ouro rasgou a lista em um programa de TV e o criticou duramente. Intrigas para quem, em 2000, havia sido eleito pelos cartolas da Fifa o jogador de futebol do Século XX, mas na eleição feita pela internet, com voto dos internautas, o vencedor foi o argentino Diego Maradona.

A rixa entre eles aumentou.

Apesar das constantes trocas de farpas públicas, o brasileiro e o argentino se encontraram no programa "La Noche del Diez", de Maradona, em 2005. Bateram bola, cantaram juntos, abraçaram-se. Era uma trégua entre dois dos maiores jogadores da história. Mas foi passageira.

Nos anos seguintes, as brigas via imprensa continuaram.

A facilidade em se inserir em rixa com ídolos da bola era quase igual à de se livrar de marcadores. Também em 2005, ele sugeriu que Romário, então com 39 anos, no Vasco, se aposentasse.

"Pelé calado é um poeta", foi a resposta do Baixinho.

Saúde começa a fraquejar

Os episódios controversos fora de campo não diminuíram em nada a popularidade. Reconhecido no mundo todo, Pelé completou 70 anos em 2010 e foi reverenciado. Mas preferiu não receber homenagens em cerimônias e garantiu que comemoraria com a família.

A partir daquele momento, o mundo começaria a ver um outro Pelé. A saúde começou a dar sinais de desgaste pelas inúmeras viagens internacionais. Atuava, à época, como garoto-propaganda de dez marcas. Chegou, também, a ser embaixador do Santos.

Em 2012, sofreu uma cirurgia no quadril para se recuperar de uma artrose no local. Passou por cadeira de rodas e uma bengala até ter recuperação satisfatória. Em 2014, foi nomeado embaixador da Copa do Mundo no Brasil. Debilitado, pouco apareceu, mas opinava.

"O Brasil é favorito para a Copa. Mas não pode entrar nessa euforia. Achar que já ganhou, entende?", declarou o Rei.

Ao final daquele ano, deu o maior susto até ali. Ficou 15 dias internado no Hospital Albert Einstein, na zona Sul de São Paulo, com quadro de infecção urinária. Chegou a ser levado à UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas recuperou-se.

Foi na mesma época em que anunciou ao mundo que estava namorando com a empresária Márcia Aoki, com quem se casaria (seu terceiro matrimônio) em 9 de julho de 2015, em uma cerimônia reservada aos familiares e poucos convidados.

Nos anos seguintes, os problemas de mobilidade eram ainda mais evidentes. Pelé não contava apenas com uma muleta. Tinha ajuda dos amigos e assessores para se locomover. Em 2017, durante o sorteio para a Copa do Mundo de 2018, apareceu numa cadeira de rodas.

O que ninguém gostaria de pensar começou a virar tema de conversas com o próprio ídolo.

Afinal, como o mundo poderia lidar com a partida de Edson Arantes do Nascimento?

“Aonde quer que ele for, vai ficar o Pelé brasileiro. Isso ninguém vai apagar. E eu, Edson, como sou amigo do Pelé. Espero que ele vá para o céu quando sair dessa", disse, aos risos, na última entrevista que concedeu à ESPN Brasil, em 2019.

Homenagens até o fim da vida

Pelé tornou-se uma figura mais reclusa nos últimos anos. Passou a curtir a família. Não apenas a mulher Márcia, mas a mãe Celeste, com mais de 90 anos, e os filhos Kely Cristina, Edinho, Jennifer, Flavia, Joshua e Celeste.

Depois de décadas viajando, estando ao lado de autoridades, celebridades e astros do esporte, o Rei resolveu descansar no conforto da própria casa, no Guarujá, litoral de São Paulo, ao lado dos familiares. O contato com o mundo passou a ser feito, vejam só, pelas redes sociais e só.

Pelé não morreu triste ou chateado com a imprensa e os fãs. Ele nunca sofreu algo comum no Brasil, isto é, a homenagem apenas póstuma aos ídolos. Com ele, sempre foi diferente. Desde o início da ascensão, no final dos anos 1950, até os últimos dias de vida, ele foi exaltado, criticado, aclamarado e adorado.

Duas ocasiões em anos recentes deixaram o Rei muito comovido. A primeira foi em janeiro de 2014, quando a revista "France Football" e a Fifa entregaram ao homem então com 73 anos a Bola de Ouro como melhor jogador do mundo pela primeira vez.

O ato foi divulgado como uma 'correção histórica'. Afinal, durante os anos 1950, 1960 e 1970, ele foi ignorado pela publicação francesa, que escolhia como vencedor nomes que estivessem em atividade na Europa.

"Eu joguei quase 30 anos, mais de 20 anos pelo Santos e pelo New York Cosmos depois. Eu fiquei com ciúmes, todo mundo recebe a Bola de Ouro, menos eu. Na época, eu não jogava na Europa, o prêmio não era concedido a jogadores sul-americanos, agora agradeço a Deus por ter minha sala de troféus completa", disse Pelé, muito emocionado, na cerimônia de premiação.

O outro episódio que o marcou foi em 2016, quando a ESPN entregou a Pelé uma Bola de Ouro especial em homenagem à gloriosa carreira do Rei do Futebol.

Vale lembrar que, quando a revista Placar criou a premiação, em 1971, Pelé foi tratado como hors concours. Ou seja: era tão superior aos outros concorrentes que não poderia receber notas nem ser eleito como o melhor do ano em sua posição.

Pelé chorou como um garoto que realiza o primeiro sonho e guardou o prêmio em um espaço especial em casa, no Guarujá.

As lágrimas traduzem quem foi Edson Arantes do Nascimento, um mineiro simples de Três Corações que encantou o mundo como Pelé, mas ao mesmo tempo capaz de se derreter com um simples gesto de reconhecimento, de gratidão.

Dico foi juntar-se ao pai e mestre Dondinho.

O mundo, de luto, lamenta a perda de uma de suas figuras mais emblemáticas.

O mundo da bola, entristecido, dá adeus ao gênio que marcou a história do futebol em duas partes.

Edson se foi. Pelé, não. Pois Pelé é eterno.

*Jean Santos, João Felippe França, Pedro Henrique Torre, Pedro Ivo Almeida, Rafael Valente e Ricardo Zanei