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Memórias do Milésimo: Edson conta como Gasolina virou Pelé, e Pelé revela suas conversas com Deus

“Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus”

Pelé fala com Deus. E Ele responde.

Foi em 19 de novembro de 1969 que o Rei marcou seu milésimo gol. 50 anos e um dia depois do feito histórico, na mesma data do aniversário de 95 anos de Dona Celeste, a Rainha-Mãe, é hora de deixar a bola descansar e permitir que Edson fale um pouco dessa entidade chamada Pelé.

O Rei dedicou a terça-feira, dia 12 de novembro, à imprensa. No total, 18 entrevistas no museu que leva o seu nome, em Santos.

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A ESPN teve o prazer e a honra de ser o quinto veículo na longa fila de bênçãos dadas pelo Rei, uma verdadeira procissão de súditos em busca de uma palavra única, algo nunca dito pelo homem de 79 anos.

O primeiro olhar para Pelé impressiona. Impressiona pela simplicidade. Impressiona pela aura, pela energia. Impressiona.

Foram cerca de 30 minutos próximos da divindade do futebol, 17 deles de uma entrevista em que o futebol foi o plano de fundo, mas algo apareceu ali e se mostrou maior que os seus feitos. E olha que o milésimo gol, há 50 anos, ainda traz histórias inéditas e saborosas, como as contadas na série de reportagens que a ESPN trouxe ao fã do esporte nos últimos oito dias.

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Os 17 minutos pareceram horas de uma bela romaria ou instantes de uma prece intensa. Foi rápido e, ao mesmo tempo, durou uma eternidade. Intenso é a palavra que pode definir o encontro com o Rei.

No dia seguinte, na decupagem, nome dado no jargão jornalístico quando revisamos todo o material gravado, colocando no papel as respostas do entrevistado, o repórter Rafael Valente percebeu algo que, inebriados pelo calor do papo, não notamos: Pelé falou muito de Deus, sobre Deus, com Deus.

“Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração”

A palavra “Deus” foi citada 15 vezes pelo Rei. Mais do que uma entrevista, ouvimos uma verdadeira prece da divindade do futebol.

“Estou sempre pedindo para Ele me orientar, me dar força para entender as coisas que parece que a gente não entende. Eu peço para Ele não me abandonar nunca. Peço para me orientar o que eu tenho de fazer. E, às vezes, peço desculpas porque dou muito trabalho para Ele. [No sentido de saúde, você diz?] Em todo o sentido. Trabalho para cuidar de mim quando estou viajando, cuidar da minha família. Todas as minhas orações eu estou pedindo a Deus. Fica um pouco pesado para Ele. Mas eu confio nele.”

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Falando em Deus... Como ficará o Brasil no dia em que o Pelé for embora? “Aonde quer que ele for, vai ficar o Pelé brasileiro. Isso ninguém vai apagar. E eu, Edson, como sou amigo do Pelé. Espero que ele vá para o céu quando sair dessa [risos]”, disse o Edson.

E o futuro do Rei? “O que eu quero para a vida é uma coisa que não é para mim. Eu quero educar meus filhos da melhor forma, dar o melhor da vida para eles, estar com meus amigos juntos. E que a gente seja feliz no futuro. É isso que peço a Deus.”

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Pelé, você consegue explicar a magia do seu futebol? Como chegou aos mil gols, como fez as obras mais bonitas da história da bola? “Aí a gente tem de conversar com Deus. Só falar com Ele. É uma explicação que só Ele. (...) Só Deus pode responder isso.”

De tudo que a gente aprendeu naqueles minutos de prece com o Rei, ficou uma certeza: o Deus do futebol fala com Deus. E Ele responde.

”Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar, vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar”

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*"Se eu quiser falar com Deus" foi composta por Gilberto Gil. A gravação original foi em 1980, há 39 anos. Também ficou eternizada na voz de Elis Regina.