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Pelé relembra discurso do milésimo gol e diz que repetiria apelo pelas crianças: 'Viraram bandidos'

Após marcar o milésimo gol, em 19 de novembro de 1969, Pelé foi cercado por jornalistas e fotógrafos. Todos queriam ouvir o que o Rei do Futebol tinha a dizer após aquele momento único e histórico --nunca um jogador chegado nem sequer próximo aproximado daquela contagem. Emocionado, o camisa 10 fez o seu discurso mais famoso.

"Pelo amor de Deus, olha o Natal das crianças, olha Natal das pessoas pobres, dos velhinhos cegos. Tem tantas instituições de caridade por aí. Pelo amor de Deus, vamos pensar nessas pessoas. Não vamos pensar só em festa. Ouça o que eu estou falando. É um apelo, pelo amor de Deus. Muito obrigado", disse Pelé.

Apesar da originalidade, as palavras geraram críticas.

Muitos o chamaram de demagogo, esperando um discurso mais contundente, especialmente contra a Ditadura Militar. Um ano antes fora emitido o Ato Institucional Número 5 (AI-5), o mais duro de todos, que deu ao presidente da República o poder de fechar o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas dos estados, além de instituir a censura na música, no cinema, no teatro, na televisão e nos jornais, entre outras consequências.

"Era um discurso que, a rigor, era complicado de ele fazer. Estávamos na vigência do AI-5 e os jogadores de futebol embarcavam mesmo naquela visão idílica. Então, cobrar dos jogadores um posicionamento político mais sistemático naquele momento era cruel", disse Luiz Antônio Simas, escritor e historiador.

"O Pelé atirou no que viu e acertou o que não viu. O drama da infância no Brasil é cruel. Hoje nós temos fundamentalmente no Brasil, que é marcado por profunda desigualdade, uma infância completamente desassistida. O Brasil não escutou minimamente o recado do Pelé. Por mais que a gente tenha o Estatuto da Criança e do Adolescente, continuamos sendo um Brasil profundamente desigual", completou Simas.

A motivação de Pelé, ao falar das crianças no Dia da Bandeira e um dia antes do aniversário de sua mãe, a Dona Celeste, veio dessa dura realidade e de algo que ele observou na cidade de Santos, ao lado de onde o time santista jogava.

"Eu tinha um conhecimento da dificuldade dos menores porque eu trabalhava no juvenil do Santos, dava algumas aulas, e alguns garotos que iam ver treinos do Santos roubavam carros do lado de fora da Vila Belmiro. Eu dava bronca neles, dizia que não era para roubar. Eles retrucavam falando que estavam roubando só os carros que não tinham placa de Santos. Então, nesse jogo contra o Vasco, eu me lembrei de falar das criancinhas", disse Pelé, alguns anos do milésimo.

Na época, como mencionou Simas, a situação do menor abandonado já chamava à atenção. O passar dos anos não amenizou a situação.

De acordo com a Fundação Abrinq, a estimativa de 2018 é que existem 68,8 milhões de crianças e adolescentes entre zero e 19 anos no Brasil.

A pesquisa aponta que há 9,4 milhões de crianças e adolescentes vivendo em situação domiciliar de extrema pobreza (renda per capita mensal inferior ou igual a um quarto de salário-mínimo) e 10,6 milhões em situação de pobreza (renda per capita mensal de mais de um quarto até meio salário-mínimo).

Segundo relátorio da Unicef deste ano, 3,8% dos brasileiros de 4 a 17 anos até frequentam a escola, mas são analfabetos ou estão em atraso escolar, estando em privação intermediária. E 6,5% estão fora da escola, em privação extrema. Isso significa que 2,8 milhões de crianças e adolescentes (2.802.259) estão fora da escola no Brasil.

"São cinco milhões e meio de crianças, de acordo com o censo escolar, sem o nome do pai na certidão. A gente precisa investimento nas políticas públicas, na educação, na saúde e na assistência social", acrescentou Eufrasia de Souza das Virgens, defensora pública do Estado do Rio de Janeiro.

"Tem havido um número muito grande de homicídios de crianças e adolescentes, inclusive decorrentes de ação policial. Houve o caso da menina Aghata Sales Felix, no Rio de Janeiro, que foi morta dentro de uma Kombi. Teve o caso da Maria Eduarda da Conceição, morta dentro do pátio de uma escola. Teve o Marcus Vinicius morto no caminho da escola. Temos visto nos últimos anos essa dura realidade", completou a defensora pública.

Os dados aqui ilustrados dão uma ideia do quanto o discurso do Pelé em 1969 já era atual. E, até por isso, passados cinquenta anos, ele afirmou que repetiria.

"A mesma coisa. Infelizmente estamos pedindo a mesma coisa. São novas crianças, mas temos de pedir a mesma coisa", disse Pelé para a ESPN.

"Naquela época, eu mandei a mensagem para as crianças para a gente tomar conta. Cuidar das crianças. Mas foi uma coisa que não tem muita explicação. Eu acho que hoje, infelizmente, essas crianças já não existem mais. Já são adultos. E esses adultos eu tenho certeza que estão tentando melhorar esse momento porque hoje é muito pior. Tem mais crianças, mais gente. Mas hoje as crianças são bem mais e posso dizer que muitos viraram bandidos. Hoje matam, roubam, assaltam em maior quantidade. É difícil dizer, mas eu continuo pedindo a Deus que no futuro a gente possa melhorar e ter mais tranquilidade no nosso Brasil", completou.

Discurso do Rei em 1969

Pelo amor de Deus, o povo brasileiro não pode esquecer das criancinhas, as criancinhas pobres, as casas de caridade. Vamos pensar nisso. Não vamos pensar só em festa.

Pelo amor de Deus, olha o Natal das crianças, olha Natal das pessoas pobres, dos velhinhos cegos. Tem tantas instituições de caridade por aí. Pelo amor de Deus, vamos pensar nessas pessoas. Não vamos pensar só em festa. Ouça o que eu estou falando. É um apelo, pelo amor de Deus. Muito obrigado.

Essa camisa aqui eu agradeço a todos vocês terem apoiado. Essa camisa aqui e essa bola do jogo de hoje eu vou oferecer para a minha filha, vocês já sabem. Em nome da minha filha, quero oferecer esse milésimo gol a todas as crianças do mundo

Não foi fácil esse gol. A minha situação. Quase todo Maracanã pedindo para eu bater uma penalidade em um jogo difícil desses.