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Aos 80 anos, Pelé só quer sua vida de volta e nada mais

Se há uma coisa que os jornalistas esportivos puderam constatar nesses últimos 20 anos de vida de Edison Arantes do Nascimento é que Pelé está de saco cheio de ser Pelé. Motivos para isso não faltam.

Imagine você, como se sentiria se desde os 17 anos não pudesse sair nas ruas sozinho para curtir a vida como cidadão comum? É isso que o homem nascido em 23 de outubro de 1940, registrado no dia 21 de outubro do mesmo ano, e que completa 80 anos nesta sexta-feira (23), sente na pele desde a adolescência.

Edison (com "i" mesmo, como consta em sua certidão de nascimento) sente falta de uma liberdade perdida desde que ele se tornou o Rei do Futebol no longínquo 1958.

Desde aquela Copa mágica, a primeira conquistada pela seleção brasileira, a vida de Edison se tornou ao mesmo tempo sonho e "escravidão". Ele cresceu, ganhou fama, enriqueceu e muita gente se aproximou dele, inclusive para tirar proveito de sua imagem, como incrivelmente acontece até hoje.

As provas estão no próprio rosto e nas atitudes do Rei, constatação que tive quando o entrevistei pela última vez, em novembro de 2019, ao lado de companheiros da ESPN Brasil.

Na oportunidade, o “Pelé Day”, o dia reservado para ele atender a imprensa, foi uma maratona com mais de 30 jornalistas de todo o Brasil, alguns até de fora, ávidos por uma história inédita do melhor jogador de futebol de todos os tempos. Ali mesmo notamos a forma cruel com que ele é tratado, pois, já sem o perfeito movimento nas pernas, devido a um grave problema no quadril, participou de mais de 30 entrevistas, além de receber políticos e puxas sacos no Museu que leva o nome dele no centro de Santos.

Naquele dia Pelé, claramente cansado, ele nos disse que já tinha atendido dez veículos de imprensa antes de nós e que faria um esforço para atender todos os demais. Soltou uma frase que ficou em nossas memórias.

“Quem sofre é o Edson. Com o Pelé todo mundo fala, mas o Edson ninguém quer saber se ele está sofrendo. Coitadinho. Ele é que segura a barra", disse para nossa equipe, sorrindo.

Foi o começo daquela entrevista, em que ele nos surpreendeu e acabou falando de Deus.

Mas não é de hoje que para arrancar uma palavra dele é necessário projetar uma verdadeira ação de guerra para que ele possa dar uma palavrinha, pois afinal de contas Pelé não manda em sua vida, por incrível que pareça.

A ideia de fazer uma novelinha chamada “70 vezes Pelé” para o aniversário de 70 anos do Rei, em 2010, surgiu da cabeça brilhante do jornalista Roberto Salim e foi encampada por outros jornalistas malucos, como Helvidio Mattos, Renato Senise, Fábio Calamari e eu. Tivemos a benção e o suporte de José Trajano, ex-diretor e fundador dos canais ESPN no Brasil. Ali saímos como doidos produzindo tudo que se tinha ou não registro da vida dele.

O tiro certeiro, que despertou a atenção do próprio Rei, foi a “descoberta” de que ele não teria nascido em 21 de outubro de 1940, como está em sua certidão de nascimento no único cartório de Três Corações. A “descoberta” ocorreu poucos dias antes dele completar 70 anos de idade.

Na época, achamos que havíamos dado um furo de reportagem, mas essa descoberta já havia sido feita muitas décadas antes pelo grande José Maria de Aquino, na época o repórter era um setorista do melhor atleta do planeta.

Voltando ao "70 vezes Pelé", foi assim que começamos a mergulhar em sua vida e em suas raízes. Foram 70 capítulos com as mais divertidas e curiosas histórias da vida do Dico, como Pelé é chamado pela família.

Demos a informação sobre a data de aniversário, dizendo que Pelé seria então do signo de libra e não de escorpião, foi o primeiro capítulo da série e também o motivo pelo qual ele resolveu nos presentear com uma curta entrevista na casa da única irmã, Maria Lúcia, há dez anos.

Pelé queria dizer na nossa cara, diante das nossas câmeras e ao lado da mãe, dona Celeste, que ele havia nascido no dia 23, mas que o pai, Dondinho, resgitrou o dia errado no cartório, ou seja, em 21 de outubro.

Mas falar com ele não foi nada fácil.

Naquele 2010, gravamos com o tio Jorge, falecido ano passado, entrevistamos Maria Lúcia, mas falar com ele e dona Celeste parecia ser mesmo impossível. Tudo porque a "marca Pelé" é “comandada” por uma empresa norte-americana.

Assim, a empresa decide onde ele deve aparecer, com quem deve falar e até quando falar. Ele só dá entrevistas quando a tal empresa permite que ele o faça. Raramente fala para todos, mas sempre dá um jeitinho para atender a TV Globo, sempre em primeira mão. Talvez porque por lá ele alcance mais pessoas do que se falasse para dez veículos que, juntos, não alcançam o mesmo número de pessoas. Bom, é só minha modesta opinião.

Um presente de Pelé e dona Celeste

Enquanto gravávamos e editávamos a série "70 vezes Pelé", nosso desafio era saber se Pelé iria ou não nos dar o prazer de uma rápida entrevista.

Durante pelo menos uma década, nosso aliado nessa missão foi o amigo Michel Laurence, um dos melhores jornalistas da crônica esportiva, que, infelizmente, faleceu em 25 de outubro de 2014.

Mas em 2010 nossos únicos aliados eram os membros da família real. oou seja, Danielle, sobrinha de Pelé, e sua mãe, Maria Lúcia, ambas muito queridas com a nossa equipe.

Elas fizeram de tudo que podiam e não podiam para que o encontro acontecesse.

Quando o desfecho parecia ser um 0 a 0, nos acréscimos recebemos o telefonema de Danielle para que fôssemos à casa da mãe em Santos que, provavelmente dona Celeste nos receberia para o último capítulo de "70 vezes Pelé".

Ela iria falar para esclarecer finalmente qa verdade sobre a data de nascimento do filho famosíssimo.

Chegamos cedo à casa de Maria Lúcia e do marido Davi, cunhado do Rei e também ex-jogador de futebol.

Sentamos na sala, eu, Salim e o repórter cinematográfico Nílson Pas. E, enquanto conversávamos com Maria Lúcia e Davi, a porta da cozinha se abriu de repente para a sala, como se fosse a "Porta da Esperança", antigo programa de Silvio Santos, e de lá saiu o prêmio que todo jornalista esportivo busca na carreira: Pelé.

Como anjos que desceram para nos abençoar, aparecem de uma só vez dona Celeste e o filho Pelé, ele carregava a sobrinha neta, Estherzinha, filha de Danielle.

A câmera permaneceu desligada a pedido dele. E nós, boquiabertos, não sabíamos como reagir diante daquela surpresa, ou melhor, daquele prêmio de jornalismo que havíamos adquirido depois de quase acabar com o sossego da sobrinha Dani e da irmã Lúcia.

Ali, por quase uma hora conversamos de tudo, do papel dele no Santos, seu clube do coração, sua imagem diante da sociedade, seus compromissos, enfim, falamos sobre a vida que ele teve de abrir mão desde que virou Pelé. Ali mesmo ele nos disse que a empresa que cuidava da marca Pelé não permitira que ele desse entrevista sem autorização prévia.

E, como se fosse um diretor de filme, afinal ele atuou em vários, ele sugeriu uma breve participação na nossa reportagem para nos presentear com aquele último capítulo da saga que tanto sonhávamos.

“Olha, vamos fazer o seguinte: vamos fazer de conta que vocês estão entrevistando a minha mãe, aí eu chego, como se tivesse vindo para visitá-la e dou um alô pra vocês, entende?”, determinou o Rei.

E, nós, que não somos bobos nem nada, topamos a sugestão logo de cara.

Dito e feito, o plano do Rei foi realizado exatamente como ele planejou, como o vídeo que resgatamos para você abaixo.

Um presente ao Rei

Dez anos depois daquele prêmio de ter participado do "70 vezes Pelé" muita coisa mudou na vida do Rei.

A saúde deu duros golpes ao homem que fazia magia com a bola nos pés. Das cirurgias na bacia e de catarata, passando por problemas com o único rim, Pelé foi sendo abatido pelas doenças que atormentam milhões de brasileiros, mas, no caso de um imortal, as dores se tornam maiores, mais relevantes para um mundo que o admira como um verdadeiro herói.

Pelé tem sérios problemas de mobilidade. Com isso, o Rei do Futebol, que viveu grande parte da vida nos campos ou dentro de aviões fazendo inúmeras ações de publicidade mundo afora, já não ganha tanto dinheiro como antes.

Mas, os gastos, ah, os gastos continuam os mesmos.

Na última vez que estivemos na casa da irmã do Rei, Maria Lúcia, em novembro de 2019, encontramos uma dona Celeste como se fosse uma criança de três anos de idade. O mal de Alzheimer mudou completamente a vida daquela Rainha elegante.

Conversando, sentimos que Pelé não anda tão feliz. Ao que parece, Pelé está cansado de ser Pelé, de ter que dizer amém para a empresa que, de uma forma ou outra, tornou-se sua única fonte de renda.

Curiosos que somos, eu e o repórter Rafael Valente, com que fiz a série "Memórias do Milésimo" sobre os 50 anos do milésimo gol do Rei, entramos em vários assuntos com o casal mais próximo e fiel da vida do ex-jogador.

Eles têm tantas coisas pra falar, tantas histórias de Pelé que nunca foram abordadas, tantas injustiças, como, segundo a irmã Maria Lúcia, a filha Sandra Regina, falecida há 12 anos.

Cansado de tantos assédios, percebemos que hoje, aos 80 anos, o eterno camisa 10 gostaria mesmo de ganhar dois presentes: a oportunidade de poder andar sozinho e ter o direito de, nessa reta final de vida, ter sua vida de volta pra fazer o que bem entender.

Com a admiração que nutria antes de conhecê-lo e que aumentou após estar diante dele, e dos familiares mais próximos, eu desejo felicidades. Que ele possa continuar presente, nos presenteando com seu carisma por mais cem anos.