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Advogados de Robinho falam em traduções incorretas da Justiça italiana e reiteram inocência

Os advogados de Robinho se pronunciaram oficialmente sobre a matéria divulgada pelo Globoesporte, que revela as conversas que ajudaram na condenação do jogador do Santos em primeira instância por estupro na Itália. Marisa Alija e Luciano Santoro assinaram carta em conjunto reiterando a inocência de seu cliente e dizendo que algumas conversas foram mal traduzidas pela Justiça italiana.

“Sobre a divulgação em si, deve ser esclarecido que há nos autos provas suficientes da inocência de Robinho – as quais infelizmente não foram divulgadas – e outras que ainda serão apresentadas à Justiça italiana, que certamente levarão à sua absolvição. Há diversas conversas interceptadas que não foram corretamente traduzidas para o idioma italiano, o que levou ao equívoco de interpretação”, diz trecho da carta.

O documento ainda reitera que Robinho “não cometeu o crime do qual é acusado e que sempre que se relacionou sexualmente foi de maneira consentida” e nega que as conversas provem uma admissão de culpa.

Nesta sexta-feira, o Globoesporte teve acesso à sentença da primeira instância na Justiça italiana. O atacante recorreu da decisão em primeira instância do Tribunal de Milão, e a partir de 10 de dezembro a Corte de Apelação da cidade iniciará a análise do caso em segunda instância.

O caso aconteceu na boate Sio Café, em Milão, no dia 22 de janeiro de 2013.

Robinho e Ricardo Falco - brasileiro também acusado pelo crime - foram condenados com base no artigo “609 bis” do Código Penal italiano, quando "qualquer um, com violência ou ameaça ou mediante abuso de autoridade, obriga outro a ter ou sofrer atos sexuais é punido com a reclusão de cinco a dez anos. Quem induz alguém a ter ou sofrer atos sexuais está sujeito à mesma pena 1) Abusando das condições de inferioridade física ou psíquica da pessoa ofendida no momento do fato".

Além de Robinho e Falco, outros quatro brasileiros teriam participado do ato classificado pela Procuradoria de Milão como violência sexual, mas são parte de um processo à parte por terem deixado a Itália durante a investigação.

Em depoimento, o atacante afirmou que manteve relação consensual com ela (sexo oral), mas negou violência sexual. A perícia apontou sêmen de Ricardo Falco nas roupas da mulher.

Com autorização da Justiça, gravações de ligações telefônicas além de escutas no carro de Robinho foram feitas a partir de janeiro de 2014 para ajudar no inquérito - o que se provaram úteis para a condenação. Para os magistrados, as conversas foram "auto acusatórias".

A reportagem do GloboEsporte.com publica algumas delas (contém expressões fortes):

Ricardo Falco: Ela se lembra da situação. Ela sabe que todos transaram com ela.

Robinho: O (NOME DE AMIGO 1) tenho certeza que gozou dentro dela.

Falco: Não acredito. Naquele dia ela não conseguia fazer nada, nem mesmo ficar em pé, ela estava realmente fora de si.

Robinho: Sim.


O músico Jairo Chagas, que tocou naquela noite na boate e cujo camarim é apontado como local da possível violência sexual, avisa Robinho que existe uma investigação em andamento. O jogador, segundo a transcrição, respondeu: "Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu".

"Olha, os caras estão na merda... Ainda bem que existe Deus, porque eu nem toquei aquela garota. Vi (NOME DE AMIGO 2), e os outros f*** ela, eles vão ter problemas, não eu... Lembro que os caras que pegaram ela foram (NOME DE AMIGO 1) e (NOME DE AMIGO 2).... Eram cinco em cima dela".


Outra conversa entre Jairo e Robinho

Robinho: A polícia não pode dizer nada, eu direi que estava com você e depois fui para casa.

Jairo: Mas você também transou com a mulher?

Robinho: Não, eu tentei. (NOME DE AMIGO 1), (NOME DE AMIGO 2), (NOME DE AMIGO 3)...

Jairo: Eu te vi quando colocava o pênis dentro da boca dela.

Robinho: Isso não significa transar.


AMIGO 4: Irmão, tive dor de barriga de nervoso, eu me preocupo por você, amigo.

Robinho: Telefonei a (NOME DE AMIGO 3), e ele me perguntou se alguém tinha gozado dentro da mulher e se ela engravidou. Eu disse que não sabia, porque me recordo que eu e você não transamos com ela porque o seu pênis não subia, era mole... O problema é que a moça disse que (NOME DE AMIGO 1), (NOME DE AMIGO 2) e (NOME DE AMIGO 3) a pegaram com força.


A sentença aponta que Robinho e Ricardo Falco combinaram as respostas que dariam à Justiça. O amigo comentou ao jogador que a “nossa salvação” era que não tinha na boate nenhuma câmera que flagrasse eles com a jovem.

Em seu depoimento, a vítima disse que foi à boate para celebrar seus 23 anos convidada por um dos amigos do Robinho, mas que, por mensagem de texto, ele a informou que ela só deveria se aproximar da mesa depois que a mulher do então jogador do Milan fosse embora.

Assim que isso aconteceu, ela e duas amigas se juntaram ao grupo de brasileiros, que depois passou a ter também a presença de Ricardo Falco. Segundo a vítima, os brasileiros ofereceram bebidas alcoólicas, mas apenas ela as consumia, pois uma das amigas estava grávida e a outra, dirigindo, disse que a buscaria mais tarde.

As amigas foram embora, e apenas ela permaneceu. Após não sentir-se bem, ela foi para a área externa da boate, quando um dos amigos de Robinho tentou beija-la. De lá, eles foram ao camarim e, segundo a vítima, foi então que os outros amigos apareceram.

"Acredito que no início estivesse fazendo sexo oral em [NOME DO AMIGO 3], e Robinho aproveitava de mim de outro modo, e depois eles trocaram de papel, dali não me recordo mais nada porque me encontrei rodeada pelos rapazes, não sabia o que acontecia", disse a vítima no depoimento.

No depoimento, ela revelou ter "alguns flashes daquela noite", que não tinha condições de “falar” nem de “ficar em pé”. E que, ao fim, se lembrou de que começou a chorar e que o músico Jairo Chagas apareceu para consolá-la.

A juíza Mariolina Panasiti, que presidiu o caso na 9ª Seção do Tribunal de Justiça de Milão, afirmou ao GE.com que "se tratou de um julgamento complexo, como costumam ser os relacionados a violência sexual, e que as peças do quebra-cabeça foram sendo montadas aos poucos".

“As declarações (da vítima) encontraram na instrutória processual múltiplas confirmações, no relato das outras testemunhas e sobretudo nas conversas interceptadas”, diz a sentença.


Desde o anúncio da contratação de Robinho, o Santos sofre pressões nas redes sociais por causa disso. Na última quarta-feira, a Orthopride rescindiu o contrato de patrocínio que renderia R$ 2,4 milhões ao clube da Vila Belmiro.

Presidente em exercício do Santos, Orlando Rollo defendeu o atacante, e em nota oficial o clube criticou a "era dos cancelamentos".