<
>

'Guardião' da memória da Portuguesa virou torcedor após promessa de ídolo e lamenta sina: 'Na dúvida, sempre contra a Lusa'

Há quase 30 anos, um português nascido em Leiria tornou-se o verdadeiro guardião da memória da Portuguesa, tomando conta do museu onde está toda a glória do clube. Para Vital Vieira Curto, 80, há mais do que isso no local. Lá está a verdadeira alma lusitana.

Mesmo nesses tempos de cuidado redobrado por causa da COVID-19, seu Vital chegou a ir até o Canindé ver se estava tudo em ordem. A ansiedade foi até maior nesses dias que antecederam a celebração do centenário, festejado neste 14 de agosto.

“Eu gosto muito de defender a cultura e a história de um lugar. Naturalmente, isso me faz zelar pela origem deste clube, que eu amo tanto, e defender seus antecessores. Futebol não é só bater na bola e fazer gols. Futebol é o sentimento”, disse Vital à reportagem.

O senhor de 80 anos encara essa rotina desde 1992, ano em que o museu da Portuguesa foi fundado pelo médico Eduardo de Campos Rosmaninho (morto em 2009). O tempo dele é ocupada basicamente pelo museu e os jogos no Canindé.

O amor pela Portuguesa nasceu muitas décadas antes de iniciar o trabalho no museu. Foi nos anos 50, quando o garoto de dez anos, trazido pelo pai de Leiria com a mãe e a irmã para São Paulo, conheceu Julinho Botelho, um dos monstros sagrados da Lusa.

“Na época, eu morava no caminho da avenida Jabaquara, e a Portuguesa ficava concentrada lá perto. Um dia os jogadores pararam em uma padaria que ficava na esquina. O filho do dono, meu amigo, me chamou pra ir ver. Ao chegar lá, o Julinho brincou comigo e me disse assim: ‘Vou marcar um gol para você, garoto’. Eu fiquei doente pela Portuguesa por culpa de um dos maiores jogadores do mundo. Não tinha como gostar de outra equipe”, disse seu Vital, revelando outro segredo.

“Muitos anos depois, eu já estava na Portuguesa, colaborava com a diretoria, e o Julinho foi trabalhar na base. Pois eu contei para ele essa história e disse ainda que pra gente ser torcedor da Portuguesa tem de ter muita garra. Ele concordou, mas respondeu: ‘Não fica bravo comigo, mas joguei tantos anos na Portuguesa e olha os meus filhos, todos torcem para o Corinthians’”, relembrou, aos risos.

O veterano é um torcedor à moda antiga, daqueles que têm vontade de descontar a raiva de uma derrota esmurrando as paredes. E até hoje reforça o velho carma do clube centenário: “Na dúvida, sempre contra a Lusa”.

Seu Vital colabora com a Portuguesa há muitos anos. Já foi voluntário em inúmeras áreas ou “tapa buraco”, como gosta de dizer, atuando até como vice de finanças, quando diz ter tido atrito com um grupo de jogadores que não queriam pagar tributos.

Uma discussão que hoje ele recorda com humor e diz que foi uma lição para não trabalhar com o futebol, pois poderia se decepcionar. “De uns anos para cá, o amor à camisa foi extinto e os jogadores não tem mais ráizes com o clube”.

Há muitas outras histórias experimentadas pelo “guardião” da memória rubro-verde. O difícil não é fazê-lo contar cada uma delas, em seus mínimos detalhes, mas sim fazer com que ele próprio contenha as lágrimas ao relembrar e declarar o amor pela Lusa.

“Eu sou muito chorão, um chorão de verdade. Uma vez um senhor foi ao museu e pediu para conhecer a ‘Sala dos Azulejos’, onde estão os azulejos que as pessoas que doavam dinheiro para a construção do Canindé recebiam. Ao entrar lá, ele ficou congelado e começou a chorar. Antes de eu saber o motivo, já estava a chorar também”, disse, e continuou.

“O motivo do choro é que homem e encontrou o azulejo do pai e uma surpresa: ‘Meu pai, que já morreu, fez um para mim e outro para minha irmã. Nós três ajudamos a completar nosso querido estádio e eu nem sabia ’. Ao ouvir aquilo, eu chorei mais”.

A outra lembrança que o faz chorar, quase ficar sem voz, tem a ver com Djalma Santos, o bicampeão do mundo pela seleção e um dos grandes nomes da Portuguesa. Até hoje ele é o segundo jogador com mais jogos na história do clube até hoje (453).

“Foi uma festa em que estavam ídolos que começaram ou passaram pela Portuguesa, como Ado, Jair Marinho. Quando o Djalma Santos pegou o microfone, ele disse o seguinte: ‘Eu não passei por aqui. Eu vivi aqui dez anos e seis meses… E quando lá em Minas Gerais ouço no meu rádio de pilha que a Portuguesa perdeu, eu fico triste, muito triste’. Eu chorei e choro ainda hoje com a gratidão que ele teve sempre com esse clube. Ele jogou no esquadrão dos anos 50, um dos melhores do Brasil”.

Mas seu Vital não deixa que confundam suas lágrimas de saudade com alguma fraqueza.

O veterano lusitano está firme, com planos para os próximos anos. E está feliz por ter encontrado jovens interessados cada vez mais em conhecer a história e até mesmo colaborar com a sua preservação.

“Hoje há três rapazes, Arthur, Sérgio e Alberto, na faixa dos 40 anos, que estão fazendo um belo trabalho pelo museu. Eles estão mantendo firme o sonho do doutor Rosmaninho e merecem ser mencionados. A história da Lusa vai sobreviver por muito tempo e eu ainda sonho em voltar a ver ela gloriosa, jogando no Canindé cheio e vibrante”, finalizou seu Vital.