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Maestro João Carlos Martins celebra centenário da Lusa: 'Se eu consegui renascer das cinzas, por que a Portuguesa não pode?'

Há uma placa ao lado do piano do maestro João Carlos Martins, 80, que une as duas maiores paixões do renomado pianista. Nela está uma inscrição atestando que seu dono é o torcedor símbolo da Portuguesa. Algo que ninguém pode contestar. Afinal, a biografia do maestro carrega em corpo e alma as marcas desse amor lusitano, de altos e baixos.

Basta dizer que ele começou a torcer pela equipe ainda garoto após ser atingido na cabeça por uma bola chutada por Nininho, um dos monstros sagrados da história rubro-verde, que o tirou do ar por alguns minutos. Foram os próprios jogadores que o socorreram.

“Quando eu acordei e vi o carinho deles, eu falei: ‘Esse vai ser o meu time até o apagar das luzes’”, disse à reportagem.

Anos depois, em 1965, quando já estava na trilha do sucesso como pianista, ele chegou a participar de um jogo treino nos Estados Unidos com os jogadores rubro-verdes, mas sofreu uma queda que resultou numa lesão no nervo ulnar. O efeito foi péssimo.

Teve o movimento dos dedos da mão direita atrofiado, o que o afastou do piano por alguns anos.

Foi também o início de uma série de reviravoltas que revelaram um homem resiliente, tendo de superar as dificuldades com a mão direita e o braço esquerdo, no qual desenvolveu anos depois uma doença. Ao todo, foram 24 cirurgias.

No último Natal, ele recebeu um presente: luvas biônicas. Elas foram projetadas por Ubiratan Bizarro Costa, um designer industrial automotivo de São Paulo, para ajudar o pianista a flexibilizar os dedos e ter o movimento. Desde então, vida nova.

Voltando à vida como torcedor, em anos mais recentes, João Carlos Martins virou símbolo do renascimento da equipe campeã da Série B em 2011, aquela apelidada como Barcelusa. Até executou o hino nacional dentro do Canindé.

Em 2013, independentemente da distância física, dava palestras aos jogadores por telefone antes das partidas importantes no Campeonato Brasileiro para ajudá-los na briga contra o rebaixamento. Deu certo. Em campo, a Lusa escapou. Foi rebaixada depois, pelo “tapetão”, no início de um processo de decadência, resultando na ausência de divisões nacionais desde 2018.

Nesta sexta-feira, 14 de agosto, o renomado maestro e pianista mundialmente reconhecido como o maior intérprete de Johann Sebastian Bach vai comandar o centenário da Portuguesa, transmitido em live em seu perfil no Instagram.

“Escolhi tocar uma versão lenta de ‘Uma Casa Portuguesa’ para expressar o romantismo que a Portuguesa carrega. É um clube que ninguém tem raiva. Pelo contrário, todos têm carinho e está no coração de todos os paulistanos”, disse.

Assim, João Carlos Martins deixará mais uma marca, fazendo com que seu nome figure também ao lado dos ídolos que ajudaram a construir a centenária história desse clube tão importante para o futebol brasileiro.

Deve ser lembrando como são os heróis rubro-verdes, como Djalma Santos, Nininho, Simões, Pinga, Julinho Botelho, Nair, Ivair, Félix, Éneas, Badeco, Basílio, Servílio, Edu Marangon, Dener, Tico, Sinval, Zé Roberto, Capitão, Leandro Amaral, Ricardo Oliveira, entre outros.

Confira abaixo a história que liga a Portuguesa ao consagrado João Carlos Martins:

ESPN – Portuguesa celebra cem anos neste 14 de agosto, e como começou o amor do maestro pela Lusa?
JOÃO CARLOS MARTINS: Na infância. Eu morava na avenida [Conselheiro] Rodrigues Alves, na Vila Mariana, ao lado do parque do Ibirapuera. Eu tinha oito, sete anos de idade, e a Portuguesa, no final dos anos 40, treinava no parque do Ibirapuera. No final dos anos 40, uma criança podia andar na rua sem problema. Então, à tarde, eu descia à rua até o parque para assistir aos treinos. Eu ficava atrás do gol, acho que o Caxambu era o goleiro. Aí teve um pênalti. Acho que o Nininho cobrou, mas não tinha rede nas traves e a bola bateu na minha cara. Eu dei uma dez voltas e desmaiei. Eles acharam que eu tinha morrido. Todos ficaram preocupados. Quando eu acordei e vi o carinho deles, eu falei: “Esse vai ser o meu time até o apagar das luzes, até o fim da vida”.

ESPN – Ter começado essa paixão com uma bolada creio que seja tão marcante como vivenciar agora o centenário, apesar das regras de isolamento social por causa da COVID-19, não?
JOÃO CARLOS MARTINS: Eu acompanhei o período áureo da Portuguesa nos anos 50. Teve talvez um dos dez melhores times do Brasil, na minha opinião. Era Muca, Nena e Noronha, Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci; Julinho Botelho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Eram quatro jogadores na seleção brasileira, nove na seleção paulista. Um timaço. Até como torcedor tive o meu acidente, brincando com os jogadores da Portuguesa em um treino no Central Parque, em Nova York, quando tive uma lesão no nervo ulnar. Mudou toda a minha vida. Muitos anos depois, quando a Portuguesa estava numa situação difícil na Série A, em 2013, eu telefonava todo jogo importante da Portuguesa, onde eu estivesse, para dar uma palestra aos jogadores. Na primeira, a Portuguesa ganhou de 4 a 0 do Coringão lá em Mato Grosso. No final, ela não foi rebaixada. Eu estava dando um concerto em Nova York, no domingo, último jogo dela no campeonato, que foi contra o Grêmio. Quando os jogadores entraram em campo com uma faixa: “Obrigado Maestro, sua história foi a nossa inspiração”. E mandaram essa foto para mim e ela virou um quadro aqui em casa.

ESPN – Que história bonita, embora o final tenha sido triste...
JOÃO CARLOS MARTINS: Eu voltei para São Paulo na segunda-feira e aí soube que colocaram um jogador que não podia ter jogado. Olha, é um caso que eu prefiro virar a página e eticamente prefiro não comentar. Foi anormal. E a Portuguesa foi rebaixada. Na época, eu falei: a Portuguesa agora vai da A para B, da B para C, da C para D. Não deu outra. É uma passagem triste. Mas, agora com a nova diretoria, eu voltei a ganhar esperança. Acho que a Portuguesa vai renascer das cinzas. Tem feito muita coisa. A gente tinha preparado uma festa grande. Eu iria até dar um concerto na sexta-feira.

ESPN – Como será a festa do centenário?
JOÃO CARLOS MARTINS: Nesta sexta, dia 14, vou fazer uma live no Instagram, no “maestrojoaocarlosmartins”, para celebrar os cem anos. Ao pensar na música, decidi não tocar o hino porque a Portuguesa tem dois hinos. Escolhi “Uma Casa Portuguesa” em um ritmo mais lento, não para expressar tristeza, mas para expressar o romantismo que a Portuguesa carrega. É um clube que ninguém tem raiva. Pelo contrário, todos têm carinho e está no coração de todos os paulistanos.

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Estou chegando lá... Nunca fiz festa no meu aniversário e sempre que possível estive no palco. Amanhã, 25/6, nos meus 80 anos, para não fugir à regra, teremos uma live a partir das 20:00, onde anunciarei os meus planos para os meus próximos 20 anos. A live será transmitida pelo YouTube e Facebook maestrojoãocarlosmartins, pelo YouTube do Teatro Bradesco e pelo Facebook EY, com várias participações especiais. #maestrojoãocarlosmartins #maestrojoaocarlosmartins #bachianafilarmonicasesisp #anamariabragaoficial #alexandrenero #josoares #chitaozinhoexororo #casagrande #tomcavalcante #serginhogroisman #jeanwilliamcantor #annabeatrizgomes #davicampolongo

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ESPN – O senhor falou em um romantismo que a Portuguesa carrega. Como é o sentimento por um clube que vem nas últimas décadas lutando para sobreviver em um momento que o futebol é cada vez mais para poucos?
JOÃO CARLOS MARTINS: Torcer pro São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos é fácil. Torcer para a Portuguesa é amor. É a sensação que eu tenho. É um time onde o romantismo está dentro da alma de qualquer torcedor da lusa.

ESPN – É um amor que preenche a alma?
JOÃO CARLOS MARTINS: Eu sempre digo que eu tenho três irmãos e uma irmã, a irmã é a Portuguesa. Eu já botei algumas vezes o piano no centro do gramado para tocar o hino nacional. Então, a Portuguesa vai fazer parte da minha existência para sempre. Eu completei 80 anos neste 2020 e anunciei meus planos para os próximos 20 anos. Tenho 20 anos para queimar, viver e ver a Portuguesa voltar a ser gloriosa.

ESPN – Além das lembranças ligadas a sua história, quais são as outras recordações que a Portuguesa dá ao torcedor João Carlos Martins?
JOÃO CARLOS MARTINS: São os craques e grandes jogadores da nossa história. Djalma Santos e Julinho Botelho foram dois dos maiores que eu vi e marcaram. Mas muitos outros surgiram, como Ivair, Éneas, Dener. Acredito que o Djalma Santos tenha sido o grande ídolo da Portuguesa. E o Dener, eventualmente, se fosse bem administrado fora dos gramados, ele poderia ter sido o sucessor do Pelé. Veja bem, não o Pelé, mas o sucessor dele pelo talento, técnica. O Pelé é insubstituível.

ESPN – O senhor foi próximo dos ídolos da Portuguesa
JOÃO CARLOS MARTINS: Praticamente de todos eles. Muito próximo do Ivair, por exemplo. Inclusive, fui na estreia do filme dele. Você sabe que a dupla Ivair e Leivinha foi uma das duplas mais fenomenais do futebol brasileiro. Por isso, o Ivair foi chamado de o Príncipe. O Pelé era o Rei, e o Ivair era o Príncipe. Ele e o Leivinha faziam tabelinhas que empolgavam qualquer torcedor na arquibancada. Foi um dos meus grandes ídolos que acabou virando um amigo. Assim como o Félix, o goleiro titular do Brasil na Copa do Mundo de 1970, que infelizmente faleceu.

ESPN – Quais outras histórias marcaram o senhor na Portuguesa?
JOÃO CARLOS MARTINS: Eu tenho histórias tristes e, pra alguns, divertidas também. Uma vez no Canindé um diretor me apresentou para uma senhora durante um jogo da Portuguesa. Ele falou para ela: “Sabe quem é esse senhor? É João Carlos Martins”. Ela apenas olhou e respondeu: “Ahn?”. Ele, enfezado, disse: “É João Carlos Martins, o maior intérprete de [Johann Sebastian] Bach no mundo. Ela não mudou a fisionomia e respondeu novamente: “Ahn?”. Aí ele ficou irritado e falou: “Claro que a senhora não esperava encontrar João Carlos Martins o maior intérprete de Bach do mundo num jogo da Portuguesa de Desportos na segunda divisão no Canindé”. Então, ela respondeu: “É que eu não frequento barzinhos, não!”. [risos]. Diante daquela situação, eu pensei comigo mesmo: “Poxa, não tô com essa corda toda que a turma fala”.

ESPN – O senhor tem outras lembranças de estar no estádio?
JOÃO CARLOS MARTINS: Eu gosto de ir aos estádios. Faz um tempo que não vou porque sempre que vou me pedem muitas fotos. Mas eu me lembro que uma vez a Portuguesa ganhou uma Taça São Paulo. Não recordo se foi em 1975. Mas para ganhar a Taça precisava ganhar o último jogo do Guarani por três gols de diferença. O jogo foi no Parque Antarctica. Eu fui com um tio e sentamos logo na primeira fileira, ao meu lado tinha um cara invocado. Logo no início, o Guarani fez um gol impedido e o bandeirinha validou. Esse bandeirinha era um negro elegante, forte, parecia um lutador de boxe. Quando ele levantou a bandeira, o torcedor ao meu lado se revoltou. As pessoas que não conheceram o velho Parque Antarctica talvez não saibam, mas o bandeirinha podia ouvir tudo que fosse dito na primeira fileira da arquibancada. Esse torcedor xingou o bandeirinha de tanto palavrão, tanto palavrão, que nos dias de hoje ele seria preso por racismo. Aí, a Portuguesa fez um gol, dois e três. Mesmo assim, o torcedor seguia xingando. Quando voltou do intervalo e mudou o lado dos times, o Éneas e o Cabinho entraram totalmente impedidos na área do Guarani e saiu o quarto gol. A Portuguesa conseguiu a diferença para ser campeã. Aí esse cara botava a mão na cara porque não sabia o que falar. Quando o bandeirinha passou, ele gritou: “Eita moreninho boa gente!”. São histórias da arquibancada. Hoje esse cara estaria na cadeia pelo que ele falou. Eu ficava revoltado de ver. Eu assisto jogo sempre quieto. Fico quietinho num canto. Sou supersticioso.

ESPN – O maestro não tem nenhuma superstição no futebol?
JOÃO CARLOS MARTINS: No futebol, não. Somente no Piano. Mas, poxa, é chato contar isso. Já fiz cinco ou seis mil apresentações na minha vida e eu nunca entro no palco sem ser com uma cueca azul. [Por que justamente azul?] Não sei [risos]. Deu sorte uma vez e ficou.

ESPN – O senhor não tem superstição no futebol, mas costuma falar da Portuguesa onde está, independentemente da situação?
JOÃO CARLOS MARTINS: Tem centenas de entrevistas minhas em jornais americanos e europeus em que eu digo que gosto de esportes e que eu tenho um time no Brasil chamado Portuguesa de Desportos. E que eu gosto de uma escola de samba chamada Vai-Vai. Você consegue achar inúmeras entrevistas em TVs americana em que eu falo que o meu time não é o time que ganha títulos, mas que é um título que tem uma torcida com paixão.

ESPN – O senhor já chorou por causa da Portuguesa?
JOÃO CARLOS MARTINS: Chorei em Nova York ouvindo Portuguesa e Grêmio em 1996. Deixei o telefone ligado, quando veio a conta quase morri. Naquela época era caríssimo ligação internacional. E aquele 2 a 0 que levou do Grêmio e não ganhou o campeonato brasileiro me entristeceu muito.

ESPN – Nem mesmo nos rebaixamentos, como em 2002 quando caiu pela primeira vez ou 2013, quando foi rebaixada por decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva?
JOÃO CARLOS MARTINS: Só naquele dia. Em 2002, eu entendia que caiu no campo e deveria enfrentar. Então, vamos encarar. Agora, ser rebaixado no tapetão não me fez chorar, mas, bom, isso pra mim doeu muito.

ESPN – Por que a Portuguesa encontra-se nessa situação?
JOÃO CARLOS MARTINS: Eu acho que o que aconteceu com a Portuguesa é que os filhos de portugueses nem todos seguiram torcendo pelo clube porque faltava títulos. Isso pesou muito no futuro da Portuguesa dos anos 60 para cá. Mas quando ela teve para ganhar o Brasileiro apareceu a torcida. Novamente apareceu. Então, o problema da Portuguesa foi falta de títulos. O lado positivo é que é um time que mora no coração de todos os paulistas e paulistanos até hoje.

ESPN – Arriscaria comparar a Portuguesa há alguma obra musical?
JOÃO CARLOS MARTINS: Nesses últimos dava para comparar com a Marcha Fúnebre de Beethoven, mas agora, com essa nova diretoria que nos traz esperança, acho que pode comparar com alguma coisa que tem a ver com o renascimento, como Aleluia de Händel.

ESPN – Cem anos agora, muita história, muitos ídolos, muitos capítulos tristes também. A Portuguesa pode ser considerada uma ópera inacabada?
JOÃO CARLOS MARTINS: Por que não vejo como ópera inacabada? Eu pessoalmente tive de fazer 24 operações para manter meu sonho na música. Agora, tenho essas luvas biônicas, fato noticiado em 180 jornais no mundo inteiro, pois após muitos e muitos anos consigo colocar os dez dedos no piano novamente. Então, eu penso na minha pessoa. Se eu consegui renascer das cinzas, por que a Portuguesa não pode renascer?