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Libertadores: Como frase que Felipão nunca disse serviu de motivação para Boca ser campeão em 2000 contra o Palmeiras

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Causou estranheza, para quem conhece o modo de trabalhar de Luiz Felipe Scolari, uma afirmação publicada pelo jornal Olé, no domingo, 14 de junho.

A reportagem dizia que Carlos Bianchi, técnico do Boca Juniors, usara frases de Felipão em ritmo de "já ganhou" para motivar seu grupo contra o Palmeiras na final da Libertadores de 2000.

Dias antes, em entrevista ao mesmo jornal, Walter Samuel, zagueiro daquele time, também fez afirmação dando conta de um menosprezo alviverde.

“Ele (Bianchi) nos mostrou declarações dos jogadores do Palmeiras, que se sentiam vencedores e nos deram como mortos. Ele nos fez ver que estávamos disputando uma final e poderíamos ser campeões”, afirmou.

No domingo, completou 20 anos o empate em 2 a 2, em La Bombonera, que deu início à conquista da Copa Libertadores de 2000 pelos argentinos. Na volta, em 21 de junho, no Morumbi, um 0 a 0 no tempo normal levou o jogo para os pênaltis, quando o Boca Juniors venceu por 4 a 2.

E, em fotos da época, é possível ver os jogadores comemorando perto de papéis colados na parede do vestiário do estádio do São Paulo.

Felipão já não era nenhum garoto à época e, vivido, dificilmente daria tal munição ao adversário, que terminou o jogo de Buenos Aires desesperançoso quanto à conquista - tampouco permitiria que seus atletas o fizessem.

O ESPN.com.br vasculhou acervos de jornais e páginas de sites da época e até acionou a assessoria de imprensa do técnico para tentar averiguar quais seriam tais declarações, bem como por quais veículos elas teriam sido publicadas.

Nos dois principais jornais do Brasil, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, as declarações de Scolari foram sempre em tom respeitoso e no sentido de que nada estava ganho - tanto dele quanto de seus comandados.

No principal periódico argentino, o Clarín, e no Olé,na época, nenhuma menção. Até que, em uma nota da revista El Grafico sobre a conquista, resgatada por Acaz Fellegger, assessor do técnico apareceu a informação de que o La Nación teria sido responsável pelo "furo".

Em uma entrevista exclusiva que o estafe do técnico pentacampeão garante que ele jamais concedeu. O que dá fortes indícios de que Bianchi, no mínimo, exagerou um pouco na hora de motivar seu elenco.

"Estado anímico"

A nota do La Nación em forma de "ping-pong", de 16 de junho de 2000, é breve e não é assinada por nenhum jornalista:

"Ele está mais do que satisfeito com o empate contra o Boca; gestos e frases dizem tudo: Luiz Felipe Scolari, treinador do Palmeiras, sente-se a um passo do bicampeonato...

La Nación: Satisfeito com o resultado?

Luiz Felipe: Estamos saindo com calma para o jogo da volta no Brasil.

LN: Você diz como se já se sentisse campeão da América...

LF: Animicamente, já nos sentimos bicampeões. É muito difícil escapar este título.

LN: E futebolísticamente?

LF: Futebolísticamente, temos 50% de chance.

(...)

LN: Durante esta semana, você não vai treinar penalidades?

LF: Não. O Palmeiras não vai jogar a partida de volta com os pênaltis em mente."

Acaz Fellegger, assessor de Felipão e à época da Parmalat na co-gestão com o Palmeiras, prestou serviço para a Toyota na final da Libertadores daquele ano.

Foi ele o responsável por acompanhar os técnicos durante os trajetos dos vestiários para as salas de entrevista nos dois jogos. Assim, o jornalista acompanhou Felipão durante todo o tempo em que ele teve contato com a imprensa naquela ocasião. E rechaça peremptoriamente que o técnico tenha concedido tal entrevista.

"Ele só deu entrevista coletiva na Argentina, não deu nenhuma exclusiva. Como é que nem o Clarín, nem o Olé, nem os veículos do Brasil têm essas aspas?", indaga.

"E por que ele escolheria justamente o La Nación para dizer algo assim?", complementa.

50%

O Felipão à beira da arrogância da reportagem acima contrasta bastante com o personagem que deu as declarações abaixo.

Na Folha de S. Paulo de 16 de junho de 2000, por exemplo, ele disse:

"As chances de o Palmeiras ficar com o título são de 50%, as mesmas do Boca. São duas equipes parecidas, com o mesmo estilo de jogo. Até acho que os técnicos (ele e o argentino Carlos Bianchi) têm maneiras parecidas de trabalhar. Por isso, não será nada absurdo se o Boca ganhar do Palmeiras em São Paulo. Eles merecem respeito, são fortes, e nós temos que continuar humildes. Temos que acabar com o oba-oba, com o já ganhou".

No O Estado de S. Paulo da mesma data, as declarações de Scolari vão na mesma direção:

"O Boca é uma grande equipe e tem condições de vencer em São Paulo. Não podemos achar que o título está quase ganho".

De fato, quem conhece a biografia do técnico sabe que cantar vitória antes da hora e dar munição para o rival nunca fez parte do arsenal motivacional do gaúcho.

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Também à Folha, ele acrescentou:

"Não podemos cortar o barato deles agora. O time foi valente, conseguiu um resultado maravilhoso, tem mesmo que comemorar. Mas, a partir de sábado, vou ter que voltar a lidar com psicologia para colocar os jogadores no chão. Essa será uma das minhas principais preocupações para o jogo", declarou o treinador, consciente.

Em 20 de junho, véspera da finalíssima, novamente à Folha, Felipão diz:

"Volto a dizer: se os jogadores entrarem no oba-oba, vão perder o título. O Boca é uma forte equipe"

No Estado, na mesma data, Scolari afirma:

"Não esperamos um adversário retrancado. Eles têm mais experiência em Libertadores da América do que o Palmeiras".

Humildade

Os jogadores fizeram discursos muito parecidos com o do chefe.

"Temos que usar as coisas como lição. Todos achavam que a nossa equipe era superior e que conseguiria com facilidade vencer no Parque Antarctica. Mas não foi bem assim, eles engrossaram e tivemos que decidir nos pênaltis. Em todos estes anos de carreira, já vi muita coisa acontecer", afirmou à Folha o volante palmeirense Cesar Sampaio, falando da Copa Libertadores de 1999, vencida pelo Verdão sobre o Deportivo Cali.

"As chances do Palmeiras são de 55%.Eles provaram que têm uma grande equipe. Todo cuidado será pouco", completou o capitão alviverde.

"Conseguimos metade do título. A outra metade temos que tirar do Boca", disse o goleiro Marcos, ao mesmo jornal.

Pessimismo portenho

Se Felipão demonstrava cautela, por outro lado, a imprensa argentina e até o técnico Carlos Bianchi eram o retrato do pessimismo, quase um "já perdeu".

O Clarin do dia seguinte ao empate por 2 a 2 dizia que "o resultado deveria ser encarado como derrota". A manchete de seu caderno de esportes trazia: "Empate com sabor amargo".

O texto, assinado pelo jornalista Horácio Pagani afirmava: "A coisa está mais ou menos assim: de acordo com a cultura futebolística, o Boca agora depende de um milagre para realizar o sonho de conquistar a Libertadores".

"Do mesmo modo que o empate para os brasileiros teve o valor de um triunfo", continuou o texto.

Mais sensacionalista, o Olé cravou em sua capa: "Rezamos por vocês".

À imprensa de seu país, Bianchi clamava aos torcedores que não perdessem a esperança. "O Palmeiras provou porque é o atual campeão da América", disse o treinador.

Telê Santana também?

Ao comentar a estratégia de Bianchi em 2000, a El Gráfico comenta que, o mesmo, em 1994, então à frente do Vélez Sarsfield, também cobriu a parede do vestiário de visitante do Cícero Pompeu de Toledo com frases cantando vitória de ninguém menos do que Telê Santana.

Se acreditar que Felipão tenha cometido tal deslize diante de um jornalista argentino já soa bastante estranho, beira o absurdo imaginar Telê, um bastião da ética futebolística e da inteligência de bastidores, menosprezando um adversário publicamente às vésperas de uma decisão de campeonato.

O fato, no entanto, é que as supostas frases de Telê, Felipão e dos jogadores foram pregadas na parede pelo técnico Carlos Bianchi - muito embora pareça estranho demais que elas tenham sido proferidas.

E a julgar pela garra com que os argentinos atuaram nos dois jogos em questão, devem ter surtido efeito. No que parece ter sido mais um golpe de mestre do técnico argentino.

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