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Barcelona e Real Madrid se enfrentavam pela primeira vez há 118 anos

O primeiro clássico da história entre Real Madrid e Barcelona foi disputado em um 13 de maio de 1902, no Hipódromo de La Castellana, primeiro campo em que jogou o time merengue, pelo que se conheceu como Copa da Coroação (oficialmente Concurso Madrid de Foot-ball Association) e que é considerada a precedente da atual Copa do Rei.

Em um tempo em que o futebol era um espetáculo exótico e minoritário importado da Inglaterra e que nem se imaginava poder fazer frente às Corridas de Touros, o grande fenômeno das massas na época, ou as corridas de cavalos, aquele torneio se converteu na semente do esporte rei. Isso graças à astúcia de Juan Padrós, fundador e primeiro presidente do então Madrid Football-Club, que alcançou o interesse público pela presença de Alfonso XIII em pessoa na que foi uma de suas primeiras aparições públicas por sua coração como rei de pleno direito.

A competição, que contou com cinco equipes, fez parte dos atos de proclamação de Afonso XIII, depois da regência de sua mãe María Cristina, e foi conquistada pelo Club Bizcaya (equipe combinada entre jogadores do Vizcaya Athletic Club e o Bilbao Foot-ball Club), que venceu na final o Barcelona por 2 a 1 em 15 de maio.

Barça e Real Madrid enfrentaram-se na segunda semifinal, depois que na primeira o Bizcaya eliminou o New Football Club de Madrid (clube dissolvido um ano depois) por 8 a 1, e a vitória foi do time azul-grená por 3 a 1.

A transcendência daquela partida não foi nada em relação ao que alcançaria com o passar dos anos, nem foi considerada como um confronto de rivalidade entre clubes das principais cidades da Espanha. Ainda que a presença no torneio do Rei da Espanha e de Mateo Segasta, presidente do governo naquele momento, provocou uma grande expectativa, o que fez com que o público no estádio, que somente tinha três filas de cadeiras ao redor do campo, ultrapassasse o esperado, somando cerca de 2.500 espectadores.

Uma das curiosidades da partida, e de toda a competição, foi a numerosa presença do público feminino e se explicou no fato de que o preço do ingresso, 50 céntimos, era pago só pelos homens, enquanto que as mulheres tinham entrada livre. Por esse motivo, muitas senhoras da burguesia madrilenha foram ao estádio mais interessadas na presença da realeza do que nos próprios encontros.

O grande êxito de público no estádio e o eco midiático que a disputa obteve nos meios da época provocou a criação, um ano depois, da Copa do Rei, o torneio futebolístico oficial mais antigo na Espanha.

O duelo

As crônicas da partida deram conta de uma vitória contundente do Barcelona. O Real Madrid, nascido como Madrid Football-Club (não seria Real até 1920) em 6 de março daquele mesmo ano, apenas tinha jogado algumas partidas entre seus integrantes previamente, enquanto que o Barça, fundado em novembro de 1899, já contava com uma organização muito superior em todos os níveis. Tinha disputado 32 jogos desde sua fundação e participou do torneio com uma equipe muito compacta em que se incluíam cinco estrangeiros. Nos merengues, só havia o inglês Arthur Johnson.

O Real foi a campo para o primeiro duelo diante do Barça com Sevilla, Manuel Giralt, Molera, Gorostiazaga, José Giralt, Spottorno, Palacios, Johnson, Neyra, Armando Giralt e Celada. Já os catalães atuaram com Reig, Witty, Llobet, Terradas, Mayer, Valdés, Parsons, Steinberg, Gamper, Ossó e Albéniz.

Steinberg, duas vezes, e Gamper anotaram os gols do Barcelona. Pelo Real, Johnson marcou.

“Esta partida, desde o princípio esteve muito disputada, com os madrilenhos defendendo-se muito bem contra os de Barcelona, que desde o primeiro momento, como se observou, levavam considerável vantagem em faculdades físicas e em experiência do jogo”, escreveu em sua crônica o diário El Imparcial, dando conta da superioridade de um Barça que, entre o público, já começou a notar algum outro sinal estranho.

Tal consideração se fez evidente na crônica publicada pelo semanário Catalán Los Deportes, onde se pôde ler: “Os jogadores, sejam ingleses, alemães, suíços ou barcelonenses, se queixaram da falta de atenção entre os espectadores, que aplaudiram quando os jogadores do Barcelona caíram e quando sua própria equipe marcou. O silêncio reinava cada vez que o Barcelona jogava bem ou marcava um gol”.

Da amizade… à animosidade

Os times só voltariam a ser enfrentar quatro anos depois. Curiosamente também em um 13 de maio, de 1906, por um amistoso realizado no velho campo da Calle Muntaner de Barcelona, e que também foi vencido pelo Barça, por 5 a 2, diante de mais de quatro mil torcedores.

“Tem que fazer justiça aos elegantes jogadores do Madrid Football Club. Jogam admiravelmente, conseguiram fazer do Foot-Ball um jogo científico. Sua postura, colocação e serenidade fazem de seus elementos um ‘team’ de primeira força, sobretudo quando seu oponente não é um ‘team’ de maestros como o do Barcelona no domingo”, escreveu em sua crônica o diário Mundo Deportivo.

Depois daquele segundo jogo, em que a esportividade e o ânimo do público compartilhado às duas equipes por igual, se celebrou um banquete entre representantes dos dois clubes em que, de acordo com as crônicas, “a mais cordial amizade e alegria foi a nota predominante. Os brindes adequados e afetuosos se abundaram”.

A rivalidade, a animosidade e o caráter de clássico como se conhece hoje em dia o duelo entre barcelonistas e merengues tardariam ainda muito tempo em se fazerem evidente. Cita-se o caso de Di Stéfano como o gatilho definitivo para explicá-lo, em 1953, mas sua inimizade começou a ser uma realidade em 1942, com uma eliminatória da Copa, em pleno início da ditadura do General Franco.

O Barcelona ganhou por 3 a 0 a partida de ida disputada em Les Corts, diante de 38 mil espectadores, em que se destacaram as vaias da torcida contra os jogadores do Real Madrid, um fato que provocou grande aborrecimento na capital e rodeou de grande emoção o duelo de volta, inflado pela imprensa local, que qualificou aquele episódio como um insulto.

O clube azul-grená deparou-se desde sua chegada em Madri com um ambiente muito hostil, e os jogadores sofreram diferentes intimidações até a entrada no estádio... Acabando a partida com a maior goleada da história, 11 a 1, a favor dos merengues, um resultado que provocou grande agitação nas duas cidades e motivou Juan Antonio Samaranch, muitos anos depois presidente do COI e então jornalista de El Mundo Deportivo, a retirar o cartão de jornalista pela crônica da partida que escreveu no diário.

“11 a 1! Com 3 a 0 a seu favor na ida, está eliminada a equipe que mais possibilidades tinha de chegar ao título de campeão da Espanha. Não se martirizem pensando nas causas destes fatos os incondicionais do Barcelona. É um bom conselho. Não tem que buscar culpados, porque não há na equipe. Já dissemos que o Barça não jogou nem bem, nem mal. Não existiu. Não se viu em toda a tarde: era o melhor que podia acontecer naquelas circunstâncias. Assim ficaram as coisas e até aqui podia chegar. Para eles, é a final. São o mesmo 11 que 50. Mas isso aconteceu de uma maneira que fez o Real Madrid perder aquela fama de cavalheirismo de que tanto e tantas vezes nos falavam aqueles cronistas de grande renome e prestígio, que em vez de dar ânimos como era sua obrigação foram os responsáveis por criar o estado de ânimo para superar o 3 a 0 favorável ao Barcelona com um resultado e uma falta de cortesia muito maiores”, escreveu em uma crônica que ficou para a história...

E que foi o germe de uma inimizade que com os anos cresceu à mesma velocidade que a grandiosidade de um enfrentamento que hoje chama atenção de todo mundo. Algo que, há agora 118 anos, no dia 13 de maio de 1902, ninguém teria imaginado.