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Fábula, esposa de Ronaldo e 'Cafu não sabe marcar': jogo a jogo, como foi Felipão no vestiário do penta

Como Luiz Felipe Scolari é no vestiário?

Só quem conviveu com o treinador, vitorioso por praticamente todos os lugares que passou, pode responder com exatidão. Mas as anotações do gaúcho durante a Copa do Mundo de 2002, que mais tarde seriam reunidas em um livro, dão uma ideia de como Felipão opera na intimidade com os atletas.

Com base na obra "Felipão - A alma do Penta", o ESPN.com.br mostra abaixo um pouco de Scolari nos sete jogos do Mundial de 2002, da estreia complicada contra a Turquia ao título mundial sobre a Alemanha. Conheça abaixo algumas histórias e os métodos de um dos técnicos mais vitoriosos do Brasil.

Força contra a Turquia

A seleção estreou na Copa de 2002 no dia 3 de junho, em Ulsan. Sem Emerson, cortado na véspera após uma luxação no ombro, Felipão reuniu cinco jogadores (Cafu, Roberto Carlos, Roque Júnior, Rivaldo e Ronaldo) para ajudá-lo a liderar o grupo, que tinha acabado de perder seu capitão.

Em campo, as coisas não fluíram no primeiro tempo, a ponto de o Brasil ir para o intervalo com 1 a 0 contra no placar. Scolari desceu bufando para o vestiário, mas foi acalmado pelos mais experientes do banco. Vampeta, Edilson e Luizão pediram ao treinador para não dar bronca, e sim passar força.

Deu certo. A seleção empatou logo no começo com Ronaldo e virou no fim com Rivaldo, em pênalti que Luizão, na verdade, cavou, ao sofrer falta fora da área.

Fábula contra a China

Aqui entra o lado motivador de Felipão. O técnico teve a ideia de distribuir 23 cópias de uma fábula e entregar aos jogadores por debaixo da porta do quarto.

Era a história de um caçador, que enfeitiçava leões com uma flauta mágica para depois matá-los. Deu certo com dois animais, mas o terceiro engoliu o instrumento e depois os humanos. O motivo: ele era surdo, então a música não surtia efeito nenhum.

Era uma referência à China, que poderia, na visão de Scolari, ser o tal leão surdo se o Brasil a menosprezasse. Os jogadores compraram a ideia e fizeram sua parte, ao golear por 4 a 0. Após a partida, ainda deu tempo de mais uma pitada de Felipão, que esbravejou contra o time por não cumprir suas ordens táticas. "Se não for do meu jeito, não vai dar para jogar".

Puxão de orelha contra a Costa Rica

Terceiro jogo, goleada por 5 a 2 sobre a frágil Costa Rica e classificação om 100% de aproveitamento. Tudo lindo? Nem tanto.

Em uma entrevista no Brasil, Milene Domingues, esposa de Ronaldo, teria reclamado que o marido era substituído em todos os jogos. Isso, segundo ela, dificulta a busca pela artilharia da Copa.

Felipão fica sabendo, reúne os jogadores no vestiário e dá o recado: o objetivo maior é ser campeão, não colecionar premiações individuais. Ninguém contesta. E assim o Brasil vai para seu jogo mais difícil do torneio.

Bélgica e o pedido de desculpas

Antes do quarto e decisivo jogo, uma chateação marcou a preparação do Brasil. Cafu teria ficado incomodado com Felipão, que justificara a formação com três zagueiros como saída para amenizar a dificuldade do camisa 2 em marcar.

A resposta veio em campo. Todos lembram das defesas de Marcos e dos gols de Rivaldo e Ronaldo, mas Cafu foi um dos melhores da seleção brasileira, em especial no aspecto defensivo.

No vestiário, Felipão pediu a palavra na hora da reza e se dirigiu a Cafu: "Hoje tu calaste minha boca. Meus parabéns, quando precisei, tu me ajudaste".

As manchetes dos jornais ingleses

Contra a Inglaterra, mais um clássico de Felipão: usar as manchetes de jornais como motivação. O técnico reuniu slides com os palpites de tabloides britânicos, alguns apostando até em "massacre", e pilhou os seus jogadores.

A partida começou mal, com falha de Lúcio que resultou em gol de Michael Owen, mas o Brasil virou em grande tarde de Ronaldinho. Primeiro uma assistência precisa para Rivaldo, depois na cobrança de falta que surpreendeu David Seaman e o mundo.

O Brasil estava na semifinal, promessa feita por Scolari antes do embarque para a Copa. Relaxado, o treinador deu-se o luxo de descontrair: no dia seguinte à vitória, entrou de roupa e tudo na piscina e ficou horas conversando com os jogadores.

O chamado em Ronaldo

Os slides voltaram à cena na semifinal, agora com declarações dos jogadores da Turquia. Uns diziam que o Brasil não intimidava ninguém, outros já pensando em um confronto com a Alemanha pelo título.

A motivação não surtiu efeito no primeiro tempo. Até que, no vestiário, Felipão chamou o doutor José Luiz Runco no canto e perguntou se Ronaldo estava com algum problema. O camisa 9 mal tinha aparecido para o jogo.

Runco, então, puxou o Fenômeno e mandou a real. "Olha, amigo, não adianta ficar mais ou menos hoje. Porque se não ganharmos, não vamos à final. Tem que dar tudo agora. Sente alguma coisa? Não? Então te solta".

Ronaldo fez o gol da vitória, de biquinho, e carimbou o passaporte do Brasil rumo à terceira final consecutiva de Copa.

Confiança total na decisão

Brasil e Alemanha, final entre duas das camisas mais pesadas do futebol de seleções. O nervosismo por estar a um jogo do título mundial não deixou Felipão relaxar por muito tempo. Até que o treinador decidiu sair do quarto.

No corredor, viu os jogadores descontraídos, jogando uma partida de minigolfe no comprido corredor do hotel. Saiu de lá sorrindo, com a sensação de que o título mundial de 2002 já tinha dono.

Não deu outra.