O Retiro dos Artistas abriu pela primeira vez as portas para receber um ídolo do futebol brasileiro. O ex-goleiro Manga, 82, e a esposa dele, Maria Cecilia Cisneros Castillò, 74, foram convidados nesta segunda-feira para morarem no centenário local, no bairro de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro.
O convite foi feito pelo presidente do Retiro dos Artistas, Stepan Nercessian, ator da TV Globo e torcedor do Botafogo, durante uma visita do casal ao local à convite da reportagem da ESPN Brasil. Foi a conclusão de uma semana de homenagens, reencontros e muita emoção para o ídolo brasileiro.
A saga será exibida em uma reportagem dos canais ESPN em 26 de abril, Dia do Goleiro e também aniversário do Manga.
Abaixo, disponibilizamos ao fã de esporte um relato dos bastidores de uma aventura que terminou com final feliz, realizando os sonhos de um velho ídolo.
Quem é Manga
Haílton Corrêa de Arruda está eternizado no futebol com o apelido de Manga. Para quem não teve a oportunidade de vê-lo, ele foi realmente grande em baixo das traves e fez parte de grandes esquadrões do futebol. Começou a carreira pelo Sport, onde estreou com apenas 18 anos e ficou no gol por cinco temporadas.
Depois foram dez anos como titular do Botafogo, atuando ao lado de Garrincha, Didi, Zagallo, Gérson, entre outras feras. Manga também jogou pelo Internacional e pelo Grêmio, além de Operário-MS e Coritiba. No exterior, defendeu o Nacional, do Uruguai, por seis anos, e o Barcelona de Guayaquil, do Equador.
Tem no currículo quase 30 títulos oficiais e a participação na Copa do Mundo de 1966.
É difícil apontar o auge dele no futebol. É considerado até hoje o melhor da posição no Botafogo, onde foi campeão de uma Taça Brasil, três Torneios Rio-São Paulo e quatro edições do Estadual, isso pensando apenas nos mais relevantes troféus. Pelo Internacional, foi bicampeão brasileiro e tricampeão gaúcho.
Ainda foi titular do Nacional campeão da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes, ambos em 1971.
A saga atrás de Manga
Natural de Recife, Manga mora há 40 anos em Quito, capital do Equador e terra natal da sua esposa. A mudança para lá ocorreu justamente por causa do envolvimento com ela. Ele já estava separado da esposa brasileira, com quem teve dois filhos: Adilson (morreu aos 52 anos) e Wilson, 56, conhecido como Manguinha.
O encontro dele com os canais ESPN começou a ser planejado após o sociólogo Paulo Escobar, do Museu da Pelada, publicar um vídeo ao lado do ex-goleiro. Manga estava em Montevidéu para uma cirurgia de retirada da próstata. Na gravação, ele dizia ter um último sonho: voltar ao Brasil para ver o Botafogo jogar.
Assim, partimos, eu, e o repórter cinematográfico Fábio Lonardi para encontrar Manga. Nosso objetivo era muito maior do que fazer uma entrevista com o grande ídolo. Fomos, com apoio da nossa emissora, buscá-lo para realizar seus sonhos e fazê-lo assistir Botafogo x Bangu, no estádio Nilton Santos.
Ao chegar ao Equador, encontramos um Manga magro e debilitado dois meses após a cirurgia. No primeiro contato com ele, entendemos um drama real.
Manga vive sem dinheiro, sem médico e sem apoio. Ele chegou a chorar e pedir ajuda para voltar a morar no Brasil durante a gravação de um depoimento. Disse que gostaria de terminar a vida no país natal, ao lado da esposa. Foi aí que começou uma missão além do jornalismo para a equipe.
Primeiramente, liguei para Maria Aparecida Cabral, Administradora Geral do Retiro dos Artistas, para pedir ajuda. Eu a conheci no ano passado, durante a gravação de uma reportagem especial sobre a vida do jornalista Sérgio Noronha, então morador do Retiro dos Artistas.
Ela, com apoio de Stepan Nercessian, fez o convite para levarmos Manga e a esposa para conhecerem o Retiro dos Artistas.
Ídolo de volta
Após quase quatro dias gravando no Equador, chegamos ao Brasil na última sexta-feira, dia 13.
Logo na chegada, levamos Manga para acompanhar um treino do Botafogo. Ele acabou dando uma palestra e falando especialmente com os goleiros Gatito Fernández e Diego Cavalieri. Também conversou com o técnico Paulo Autuori, que se emocionou ao saber do esforço feito pela nossa reportagem.
No último dia 15, Manga foi o único expectador no estádio Nilton Santos, durante o confronto entre Botafogo e Bangu. A partida não contou com torcedores por causa das medidas nacionais de prevenção contra o novo coronavírus. Ele assistiu o time do coração empatar por 1 a 1.
Lamentou, ao final do confronto, o futebol atual decadente, sem comparação com a época em que jogou.
Nesta segunda-feira, dia 16, veio a grande surpresa. Eles foram ao Retiro dos Artistas para conhecer um local histórico. Não sabiam que receberiam o convite para ficar. Foram surpreendidos. Maria Cecilia, emocionada, manifestou o desejo de se mudar imediatamente para uma das 50 casas existentes.
Saga quase completa
A mudança para o Retiro dos Artistas não será imediata porque a casa que os receberá precisa passar por algumas adaptações.
"Aqui eles podem ficar até o final da vida deles, com muito conforto e carinho", disse Stepan Nercessian, que assegurou que eles terão todas as condições básicas de moradia, assim como assistência médica e refeições cinco vezes ao dia, sem qualquer tipo de custo.
No Retiro dos Artistas, Manga e Maria Cecilia poderão viver ao lado de vários artistas, aposentados ou em atividade. Ele será o primeiro esportista a morar ali.
A saga ainda não terminou. Na próxima terça, dia 17, o casal retorno ao Equador com passagens compradas pela ESPN Brasil.
Lá, devem organizar as poucas mudas de roupa que têm, pegar os poucos pertences e se despedir de Jorge, o único filho de Maria Cecilia que ainda mora no Equador. Ele também está de mudança. Vai para Miami, nos Estados Unidos, onde se juntará aos outros filhos dela.
Aos 82 anos, Manga conseguiu realizar dois sonhos: rever o Botafogo e conseguir uma casa no Rio de Janeiro, mesma cidade do filho Wilson.
Retiro dos Artistas
Para quem não conhece o Retiro dos Artistas, trata-se de um local centenário criado por iniciativa do ator Leopoldo Fróes para dar abrigo aos artistas estrangeiros que ficaram no Rio por causa da Primeira Guerra Mundial devido à falta de comunicação e a impossibilidade de retornarem para suas pátrias.
Irineu Marinho, pai do jornalista e empresário Roberto Marinho (homem responsável pelo crescimento de “O Globo” e pela criação da Rede Globo), divulgou a ideia do Retiro nas páginas do jornal “A Noite”, conseguindo a doação de um terreno com casas de operários para receber artistas.
Ainda que tenha casas com cobrança de aluguel, o local abriga muitos artistas sem condições financeiras e sobrevive até hoje com ajuda e doações. Até porque muitos que lá moram não tem como arcar com os custos básicos. A Rede Globo banca mensalmente os gastos com energia elétrica, na casa de R$ 30 mil.
O local aceita todo o tipo de auxílio em seu site, inclusive visitas aos moradores.
