Se a expectativa era de ajuda da torcida à seleção brasileira por jogar a Copa América em casa, houve frustração. Ao menos na estreia. Porque o apoio no Morumbi, em São Paulo, foi frio. Gelado!
“Brasil, Brasil, Brasil!”
O ingresso caríssimo, a preço médio de RS 483 na conta simples de divisão da super-renda de mais de RS 22,4 milhões pelos 46.342 pagantes, tem muito a ver com isto. Era outro público, não aquele que costuma ir a estádios acompanhar seus clubes.
“Puta que o p..., é o goleiro mais bonito do Brasil, Alisson!”
Também porque o time de Tite não ajudou muito, é verdade, especialmente no primeiro tempo, quando o apito final com o 0 a 0 no placar contra a fraquíssima Bolívia foi seguido de vaias. Justas.
"Uuuuuuuu!" Mas foi mais do que isto.
O silêncio nas arquibancadas, mesmo com 47.360 pessoas na casa do São Paulo, fez-se presente em vários momentos da partida válida pelo Grupo A. E não foi só pelos muitos vazios vistos na cancha que tem capacidade para 67 mil espectadores - sim, foram quase 20 mil lugares desocupados. Pequenos grupos até tentaram alguma coisa diferente, fosse com cantos já bastante usados na Copa do Mundo no país, em 2014, como o que exalta Pelé e diminui Maradona, ou com clássicos da música nacional, como ‘Evidências’ e a paródia de ‘Brasília Amarela’. Mas tiveram pouquíssimo sucesso.
“Mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, só Pelé, só Pelé, Maradona cheirador!”
Principal, mais caro jogador do país e cortado às vésperas da competição após torcer gravemente o tornozelo direito, Neymar foi totalmente ignorado. Nenhuma faixa, nenhum cartaz, nenhum grito em alusão a ele. Não foi lembrado nem mesmo após as vaias depois da etapa inicial sonolenta.
“Brasil, nós estamos contigo, somos uma nação, não importa o que digam, sempre levarei comigo, minha camisa amarela, cinco taças na mão, esta Copa é nossa, vai começar a festa. Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe ôôô, dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe ôôô, Brasil vai ser campeão!"
E olha que até bebida ganhou música. No caso, uma cobrança ao governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB). “O projeto é inconstitucional. Sendo inconstitucional, o governador não pode sancionar. Irei vetar.”
As declarações foram dadas por ele durante a sexta-feira (14), um dia após o projeto de lei do deputado Itamar Borges (PMDB), que autoriza a venda e o consumo de bebidas alcoólicas em bares, lanchonetes e congêneres destinados aos torcedores, bem como nos camarotes e espaços VIPs dos estádios e arenas, ter sido aprovado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).
"Ei, Doria, cadê minha cerveja? Ei, Doria, cadê minha cerveja?"
Venda, distribuição e consumo de bebidas alcoólicas foram proibidos oficialmente dentro de um raio de até 200 metros da entrada de estádios de futebol no estado de São Paulo em 1996 por meio da lei estadual 9.470/96.
Uma pena, o grito homofóbico no tiro de meta batido pelo goleiro boliviano Carlos Lampe foi ouvido pelo menos quatro vezes. E olha que a CBF já foi multada por isto ter acontecido nas eliminatórias para a Copa.
"Bi-cha!"
Nem a ola saiu direito. A parte superior fez num ritmo, a inferior, em outro. Não casou! E do nada, na parte superior, atrás do gol para o qual o Brasil atacou no primeiro tempo, surgiu um clássico da música nacional: 'Evidências.'
"E nessa loucura de dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando as evidências, mas pra que viver fingindo, se eu não posso enganar meu coração? Eu sei que te amo!...
...Chega de mentiras, de negar o meu desejo, eu te quero mais que tudo, eu preciso do seu beijo, eu entrego a minha vida pra você fazer o que quiser de mim, só quero ouvir você dizer que sim!"
Já nos minutos finais, o grupo de cerca de 14 pessoas que ficou em pé o jogo todo e tentou, sem quase nenhum sucesso, embalar a multidão com as canções também criou e cantou uma para si:
“Escada jovem, escada jovem, escada jovem!"
Os aplausos típicos de final de peça de teatro tomaram conta do Morumbi ao final do 3 a 0. Mais do que nos três gols, nos quais muitos sequer comemoraram, foi o momento em que mais a torcida agiu e se fez ouvir em conjunto.
