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Falar mal de Messi, que 'nem canta o hino', é passatempo favorito dos argentinos, relata jornal espanhol

Em reportagem publicada nesta quarta-feira, o jornal espanhol El País conversou com vários argentinos e notou que há um novo "passatempo favorito" no país sul-americano: falar mal de Lionel Messi, que não consegue demonstrar na Albiceleste o mesmo desempenho brilhante do Barcelona.

"Nove meses depois da Copa da Rússia, o camisa 10 voltou a jogar pela seleção, e pode comprovar que, em seu país, será sempre considerado culpado. Não importa se por ação ou omissão, inclusive em amistosos que não valem nada", escreveu o diário.

"Bastou uma derrota (3 a 1 para a Venezuela) e uma ausência (contra Marrocos, por lesão) para que as vozes se levantassem na Argentina, e outra vez Messi fosse colocado no banco dos réus", sintetizou.

O El País usa do bom humor para mostrar que Messi vem sendo apontado como culpado até mesmo dos outros problemas da nação vizinha ao Brasil, como a inflação galopante, e que também sofre com as comparações com Maradona e sua teórica falta de patriotismo.

"Comentaristas de TV e rádio, programas de todos os tipos e torcedores nas redes sociais vociferaram frases como 'Maradona jamais teria faltado contra Marrocos', 'um capitão não abandona o barco' e 'por que voltou para Barcelona quando seus companheiros de seleção ficaram em Madri'? São frases que se somam a históricas provocações como 'não canta o hino', 'não concede entrevistas' ou 'as faltas que ele bate no Barcelona viram golaços, na Argentina não viram nada'", resumiu.

"Se os economistas argentinos não sabem explicar a inflação endêmica do país, que em 2018 chegou a 48%, Messi está sob suspeita. 'Quando a coisa não funciona, sempre precisamos de um culpado, um vilão. Que seja individualizada a derrota, e também a vitória', diz Diego Latorre, ex-jogador da seleção e hoje comentarista de TV. 'Os futebolistas argentinos têm um ânimo desmensurado e não toleram a decadência do nosso futebol, que sofre algo parecido à 'síndrome do Maracanazo', completa o sociólogo Pablo Alabarces. 'Se os uruguaios passaram 60 anos vivendo da herança do Mundial de 50, nós já estamos há quase 40 vivendo da Copa de 1986', adicionou", reportou o jornal espanhol.

O El País ouviu até mesmo o treinador da seleção de basquete da Argentina, Sergio Hernández, que vê as críticas a Messi como uma tentativa desesperada de "chamar a atenção".

"Usar as redes sociais para falar mal de Messi ou de outros grandes jogadores concede protagonismo. É gente que quer chamar a atenção. Em nosso país há muitas urgências, e dos jogadores de futebol se exigem triunfos que gerem alegrias que de outras maneiras não são possíveis", salientou.

Para Latorre, a "anarquia" da AFA (Associação de Futebol Argentino) e da seleção, que troca de técnico a todo momento, está "matando" o futebol de Messi.

"Muitos fatores explicam o que já vem acontecendo há alguns anos. Messi sofre com a anarquia argentina e as trocas de treinadores, de dirigentes e de demandas sociais. É o contraste com o Barcelona, onde há uma forma definida de jogador e onde ele está cômodo", analisou.