Gustavo Endres, 44, carrega a responsabilidade e o orgulho por ter levado o nome de sua família aos céus, ao topo do esporte mundial.
Tem duas medalhas em Jogos Olímpicos, ouro em Atenas-2004 e prata em Pequim-2008. É bicampeão mundial, além de outros inúmeros títulos pan-americanos e sul-americanos com a seleção brasileira. É, certamente, um dos melhores centrais da história do vôlei mundial.
Eficiente no ataque, uma muralha com seus 2,03 m cada vez que subia como um gigante no bloqueio do Brasil.
Quem não o conhece fora das quadras imagina aquele cara frio, eficiente e cirúrgico nas pancadas que soltava contra os melhores atletas, times ou seleções do mundo.
Gaúcho raiz de Passo Fundo, Gustavão é uma figuraça. Sério quando o assunto é vôlei, brincalhão quando os temas são os mais variados. O ex-jogador vem se tornando técnico e empreendedor no esporte, além de estar quase formando dois filhos para o vôlei de alto rendimento.
Desde quando se aposentou como atleta, Gustavo não saiu do esporte. Ele deixou as quadras como atleta em 2015, aos 40 anos, e logo decidiu se especializar com cursos para tornar-se, além de gestor, técnico de vôlei.
Além de supervisor da APAV Vôlei (Associação dos Pais e Amigos do Vôlei), ele faz um trabalho de captação de recursos e patrocínios para manter a viabilização da equipe e ainda coordena seis times masculino e feminino das divisões de base.
No ano passado, fez os cursos nível 1 e 2, a fim de tornar-se técnico. Mas ainda não conseguiu fazer o nível 3, que o credenciaria para a função. Em 2019, foi também assistente-técnico de Marcelinho Ramos na disputa da Superliga Série B, espécie de segunda divisão do campeonato nacional.
Assim, ele está no time gaúcho desde 2011, quando a equipe ainda se chamava Vôlei Canoas e era comandada por outro ícone do esporte, Paulão, campeão olímpico em Barcelona-1992.
Mas desde o início da pandemia, a vida dele no esporte, como na maioria dos gestores, virou um pesadelo. O medo é que os empresários esqueçam de vez de investir no vôlei, que já não anda bem das pernas há anos.
“A situação está bem difícil, está muito complicada para todo mundo. O esporte como um todo vai sofrer, ainda mais no segmento do dito esporte amador. Tirando o futebol, que também está sofrendo, o nosso maior medo é que não tenhamos mais patrocínios, que nenhuma empresa ou empresário por estar com problemas de fluxo de caixa, não apoiem mais o esporte”, disse o bicampeão mundial.
“A gente também não sabe ao certo o que fazer. A Superliga B foi cancelada. No dia 14 de março era para ter sido realizado o primeiro jogo dos playoffs, e não aconteceu. Desde então, tudo foi cancelado, até as categorias de base do clube, com a garotada se virando em casa como pode. Mas enquanto não voltarem as aulas, com a quadra que temos para essa garotada, não tem o que fazer. Estamos tentando alguns contatos (patrocinadores), mas está bem difícil”, completou.
Gustavo também disse que não tem recebido salário desde que o vôlei no país foi paralisado e que, com o encerramento das competições, as empresas que patrocinavam o projeto também retiraram seus apoios.
“Também estou sem receber salários. De vez em quando, eu dava umas palestras, umas sessões de autógrafos, e isso também está tudo suspenso. Mas tenho umas aplicações e consigo pagar as minhas contas, digamos assim. Estou conseguindo me alimentar, alimentar a minha família e segurando tudo na ponta do lápis para que a gente gaste apenas com o necessário, se programando direitinho até que esse momento passe e volte tudo a normalidade.”
“Situação pior estão passando outros profissionais do esporte que não tiveram condições de fazer um pé de meia e estão tendo que se virar como podem, até por que acredito que o esporte vai ser a última coisa que irá voltar, depois das escolas”, emendou.
No meio dessa turbulência, Gustavo faz questão de ressaltar que o único patrocinador que continua firme no Projeto é a Universidade La Salle, a principal parceira desde os tempos em que outro campeão olímpico, Paulão, tocava o time.
A família de Gustavão é das mais vitoriosas no vôlei. O irmão mais novo, Murilo, tem duas pratas olímpicas (Pequim-2008 e Londres-2012), dois títulos mundiais e uma enorme coleção de medalhas pela seleção e pelos clubes que ele passou. E o talento parece estar no sangue, já que Gustavo também vem apostando no futuro dos filhos Eric e Enzo no esporte. Adivinhem qual?
Eric, o mais velho, tem 20 anos. Na temporada passada, jogou a Superliga B no time do pai. Nesta temporada que não acabou, ele estava emprestado ao SESI São Paulo, disputando jogos pelo time juvenil. Já o caçula Enzo, de 16 anos, treina e vem subindo de produção nas categorias de base da APAV, sob os olhos atentos do pai.
Se eles podem ir mais longe que o pai Gustavo e o tio Murilo?
“O Eric está no juvenil do SESI, mas, com a pandemia, veio para ficar com a gente aqui no Sul. Já o Enzo treina na base aqui com a gente. O que eu sempre falo para eles é que o vôlei é uma ótima porta para eles fazerem uma universidade. Aos poucos, eles estão tentando fazer a carreira deles, vamos ver o que o futuro reserva, pois no momento é difícil falar sobre onde eles chegarão”, disse o pai campeão olímpico.
