Número 15 do mundo, Bia Haddad Maia atingiu ranking mais alto de uma brasileira e se prepara para o US Open nesta semana
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Depois de Gustavo Kuerten, Maria Esther Bueno, Thomaz Koch, Fernando Meligeni, Marcelo Melo, Luisa Stefani e tantos outros grandes tenistas na história do Brasil, Beatriz Haddad Maia, de 26 anos, tem escrito em 2022 um novo capítulo neste esporte em nosso país.
Mas, claro, engana-se que essa história começou neste ano. Ela começou há mais de uma década. E o caminho até atingir marcas inéditas no tênis feminino brasileiro não foi só de alegria. Teve superação, dificuldades, disciplina e muita determinação por parte de Bia Haddad Maia e sua família.
Bia Haddad Maia chega para a disputa do US Open, que terá transmissão de TODAS as partidas pela ESPN no Star+ a partir desta segunda-feira com o Pelas Quadras durante todo o torneio, ostentando o ranking mais alto na história já ocupado por uma brasileira (15). Ela vem em uma temporada incrível, tendo conquistando dois títulos na quadra de grama, ganhando das melhores tenistas do planeta neste período e com o vice do WTA 1000 de Toronto há duas semanas.
Em entrevista exclusiva à ESPN, Ayrton Haddad Maia contou bastidores da infância e da juventude da brasileira
Os primórdios da campeã
"A gente foi aos pouquinhos, eu e minhas irmãs, também começamos a fazer o tênis, desde crianças, e passamos a competir até entrar na faculdade. Foi mais ou menos isso que introduzimos para os sobrinhos e para os meus filhos, minhas filhas (Bia e Andrea) e para as filhas das minhas irmãs’’, contou Laís Haddad, mãe de Bia, à ESPN.
“Por coincidência, elas (as filhas) fizeram pré-escola no Clube (Sírio). Então, assim, toda a parte da tarde delas, elas faziam atividades esportivas. Então, a Bia fez judô, fez natação e até futebol a Bia jogou. Óbvio que a partir dos 9 ou 10 anos, ela já começou a pegar mais gosto pelo tênis. Começou a competir e assim começou", completou.
“Assim, óbvio que o esporte que a família praticava era o tênis. A Bia desde pequena sempre foi grandona. Ela não teve um estirão, como todo mundo fala. Tanto é que quando ela jogava futebol, com uns 8, 9 ou 10 anos, nossa, os meninos pegavam na cintura dela. A parte de altura dela vem um pouco mais do meu lado. Eu tenho 1,88 m e meu pai tem 1,92 m. As minhas sobrinhas são todas altas quase na altura da Bia. Lógico que no esporte, ela acabou crescendo um pouco mais. Ela chegou a ser sondada, quando ela era pequena... o pessoal queria levar ela para o basquete e para o vôlei. O pessoal via que ela gostava de esporte e ela praticava e tinha habilidade. Então, eu nunca me esqueço uma vez o pessoal até do Finasa chamou ela. Ela ficou toda envergonhada e nem falou nada. Aí o pessoal veio falar comigo, eu expliquei que ela já jogava tênis e já competia. Mas assim, a gente também nunca forçou. A gente deixou muito as crianças pegarem o gosto porque esse é o caminho", relembrou o pai da tenista, Ayrton.
"Eu sendo do tênis, eu acabei fazendo faculdade de Educação Física e, junto com minha irmã, a gente montou uma prestação de serviços, que se chama Funny Tennis, e a gente dá aula de tênis em escolas, defendendo que a base do tênis pode ser criada e praticada dentro de escolas. Lá ficamos, nós trabalhamos 20 anos em uma escola grande de São Paulo particular. Estamos (trabalhando) ainda em algumas e formamos várias atletas. Nessas (escolas) os nossos filhos iam junto também. Quando coincidia os horários, dava para levar e acabavam entrando nos treinamentos e nas iniciações que nós fazíamos nas escolas, inclusive nas escolas que eles estudaram. Então, esse estímulo também veio desse lado também", explicou Laís.
A decisão que mudou os rumos da jovem Beatriz
Conforme foi tendo sucesso em competições locais, interclubes e nacionais, Bia Haddad Maia e seus pais foram percebendo o potencial da jovem menina. Foi aí então que ela tomou uma decisão que mudaria sua vida.
Aos 14 anos, ela decidiu ir para o centro de treinamento de Larri Passos, lendário técnico de Guga, para ir aperfeiçoar seu jogo em busca do sonho de se tornar profissional.
"Ela ia muito bem nas competições. Então isso foi natural, então não foi uma coisa que eu percebi e por isso ela seguiu esse caminho, de morar sozinha no sul com 14 anos e ir treinar com o Larri (Passos, ex-técnico do Guga). Foram coisas que foram acontecendo, mesmo pela evolução dela e por ela querer, nunca `só porque a gente acha ou porque um técnico achou. Ela sempre achava que era isso que ela precisava. Ela precisava ser posta à prova. E lá com o Larri foi o primeiro passo que a gente sentiu de que ela podia conquista (a carreira profissional). Ele mostrou os caminhos para ela alcançar esse algo a mais e que ela tinha essa habilidade toda para conquistar novos caminhos e abraçar coisas maiores", relembra Laís.
Ir morar longe dos pais com apenas 14 anos mostrou desde cedo que Bia Haddad Maia era determinada a ir em busca de seus sonhos e, acima de tudo, determinada e disciplinada, já que para treinar no CT de Larri, eram necessárias boas notas na escola.
“Ah, não tenha dúvida (de que ela morar fora com 14 anos contribuiu para o amadurecimento dela). Para nós, eu diria que foi a decisão mais difícil. Naquele momento, porque assim ela saiu de casa. Mas não é que ela saiu de casa para ir treinar 100 quilômetros daqui. Ela foi a 620 quilômetros de São Paulo. Para uma estrutura assim, graças a Deus, uma estrutura boa. Ela não quis morar com ninguém. Isso foi uma coisa, até que na época, a gente falou não, mas ela disse: 'Eu vou. Eu vou cuidar das minhas coisas sozinha.' E ela tinha uma rotina assim. Às 7 horas da manhã, a perua pegava ela na porta do apartamento dela, levava na escola às 12h15. Estava lá, a perua pegava, ia para academia. Almoçava, descansava e treinava até seis e pouco da tarde. 19h ela estava em casa de volta. Então, assim ela viveu essa disciplina por quatro anos e meio, quase cinco (anos). E o convívio que ela teve com os atletas. Aí eu digo com o Larri ou com outros atletas, na época, isso foi muito importante. E essa questão de não se abalar", disse Ayrton.
“A Bia nunca largou de estudar. Então assim, por incrível que pareça, a gente tem um monte de casos assim: 'Eu largo estudo porque não vou conseguir treinar.' Ao contrário, lá na academia do Larri, você só podia treinar lá se você estudasse. Então, começava daí", completou.
"Com 14 ou 15 anos, as primeiras viagens que ela fez com o Larri. O Larri colocava muito ela para bater com as estrangeiras. Na época, ele, óbvio, já era um cara super conhecido. Aí a Bia brincava com a gente. Ela falava: 'Pai, eu bato igual com as meninas. A diferença é que eu, por enquanto, troco quatro ou cinco bolas, elas trocam vinte'. Então, assim, a Bia sempre teve isso dentro dela. Ela no fundo, com todas as dificuldades que ela passou, ela sempre achou: 'Eu posso ser uma top 30, uma top 20. Eu tenho jogo para isso. Eu ainda não achei o ponto, mas uma hora eu vou acertar'. E esse ano... Assim está bem acima até das expectativas, até de planejamento que eles tinham. E aí uma coisa vai puxando a outra, né?", conta o pai da tenista.
Em entrevista exclusiva à ESPN, Ayrton e Lais Haddad Maia contaram como acompanham a carreira da filha
O momento mais difícil
Aos 21 anos de idade, em 2017, Bia Haddad Maia vivia um dos grandes momentos de sua carreira. Ela havia chegado à posição de número 58 no ranking, e despontava como um talento promissor. Em 2018 e 2019, a brasileira conseguiu vitórias contra tenistas da elite como Sloane Stephens e Garbine Muguruza. Mas em julho de 2019, veio um baque na vida da paulistana: ela foi suspensa pela ITF por doping.
A brasileira testou positivo para dois anabolizantes: o SARM S-22 e o SARM LGD-4033. Ela provou que tomou uma substância contaminada e reduziu sua pena que poderia ser até de 4 anos afastada para 10 meses. Neste período, Bia Haddad Maia despencou no ranking, chegando a cair para a posição número 1342 da lista da WTA, e ainda por cima veio a pandemia no começo de 2020, que paralizou todas as competições esportivas ao redor do mundo.
“Olha para mim, foi muito mais um choque (a suspensão do doping). Foi um aquele momento que você fala ‘Meu, o que aconteceu?’ É assim, infelizmente, as regras, as leis, mesmo que você prove sua inocência, você acaba sendo obrigado a ainda pagar uma penalidade, que foi o que aconteceu com ela. E graças a Deus, a gente conseguiu provar que o foi uma contaminação cruzada mesmo de farmácia. Foi muito difícil o começo, porque... Vou ter que ficar nove meses treinando escondido e a regra é exatamente essa. E ela não deixou de treinar um dia, não deixou o dia a dia de fazer o físico, de ir atrás de quadra e de atrás de gente para ajudar. Teve técnico que ajudou muito, e jogadores que ajudaram muito. Ela conseguiu dar a volta por cima. Assim, é uma coisa que a gente nunca espera e nem deseja para ninguém. É mais uma coisa para se aprender e ir levando em frente”, disse o pai de Bia.
"Agora, com relação a ela parar de jogar, deixar de jogar ou abrir mão, isso em nenhum momento. Nunca, nunca. Eu me lembro até hoje. Acho que na última cirurgia de coluna que ela fez, ela saiu no mesmo dia. Ela operou de manhã e foi embora de noite. E ela sempre foi muito disciplinada na parte de fisioterapia e recuperação. As pessoas tinham que passar as coisas certas para ela, porque o que pedisse para ela, ela fazia. E assim é até hoje. Em nenhum momento, eu acho que ela (pensou em desistir) ... Lógico, você tem os momentos baixos, né? Mas ela nunca deixou de sonhar e deixou de trabalhar para tentar chegar próximo onde ela está hoje”, completou.
Bia além das quadras...
Nem só de tênis vive uma tenista. Bia Haddad Maia estua línguas e deve se formar neste ano na faculdade de administração, que ela cursa à distância.
"Até hoje, aliás, esse ano, óbvio que ela levou um pouco mais de tempo para se formar, mas a Bia está se formando no final do ano em faculdade. Então, ela nunca parou de estudar. Ela está fazendo administração. Outra coisa que ela sempre estudou e faz isso até hoje: ela estuda línguas. Então, assim, ela sempre se dedicou no inglês. Ela tem o inglês e o espanhol, hoje, fluentes. Ela estuda francês. Então, é assim, esse lado fora de quadra e fora de treino, a gente sempre incentivou e ela nunca largou. Então, isso também é uma disciplina que ela sempre teve e continua tendo. Ela começou o violão, abraçou o violão de vez e continua (até hoje). Tem que manter a cabeça ocupada e o tempo ocupado", revelou o pai da tenista.
Desde a infância, os pais notaram o incômodo de Bia Haddad Maia com as derrotas. “Acho que quando ela entrava nos torneios de escola, de atletismo ou de não sei o que. Ela ficava brava quando perdia. Ela não gostava muito de perder”, relembra a mãe de Bia.
"Nesse ponto (de não gostar de perder), ela puxou a mãe. Ela não gosta de perder nem par ou ímpar. (risos)", brinca o pai.
O orgulho da família
Para deixar a tenista mais confortável em seu ambiente de trabalho, a família não costuma acompanhar as viagens de Bia pelo circuito, com exceção de um ou outro torneio. Mas mesmo assim acompanham pela televisão à distância o sucesso da brasileira.
“Eu assisto de longe. Sou bem sincero (risos). Eu assisto do meu canto e vejo meu SofaScore (site de resultados) de vez em quando porque eu sofro mais se eu estiver vendo um jogo ao vivo. Porque o ao vivo, eu sinto que estou lá e estou vendo o clima e consigo sentir o que está acontecendo. Isso que a Laís colocou, a gente sente que a Bia se sente mais confortável quando ela está sozinha ou quando ela está com a equipe dela. Ela tem um lado de se preocupar com os outros que às vezes a gente sente que podemos estar atrapalhando. Isso sem considerar que é caro, né, não é fácil. A Bia, praticamente, desde os 14 anos viaja só internacional. Eu fui no meu aniversário de 50 anos ver o Roland Garros. Ela estava ainda no juvenil. Há exatos 10 anos atrás, em 2012. Em Miami, a gente conseguiu ir duas vezes, mas por exemplo, o desse ano, a gente já não foi. Então, é complicado", disse Ayrton.
"Mas, o ritual assim aqui em casa é tentar ir nos avós e assistir todo mundo (junto). Tentar pegar um fim de semana. A gente tenta todo mundo se reunir, é uma, é como se fosse um encontro de todo mundo para torcer junto (risos). É mais isso que a gente tenta fazer. Ou nos avós paternos, ou nos do meu lado, materno, mas é sempre muito gostoso. A gente tenta sempre fazer dessa forma”, afirmou Laís.
Bia Haddad Maia é sobrinha de Rolando Boldrin. E o ator, apresentador e cantor inclusive batizou a quadra de sua casa com o nome da tenista brasileira.
